Descrição de chapéu The New York Times

Pandemia muda muita coisa na NBA, mas não a fome de LeBron James

Astro dos Lakers liderou engajamento social e manteve excelente condição física

Scott Cacciola
Los Angeles | The New York Times

Os times da NBA estão migrando para a Flórida para a retomada dos jogos da liga, no final deste mês, e jogadores estão expressando diversas preocupações.

Eles estão preocupados com o coronavírus, e com a situação da Flórida como um dos focos da pandemia nos Estados Unidos. Estão preocupados com o isolamento na chamada “bolha” que está sendo criada no Disney World, perto de Orlando, por diversas semanas, ou mesmo meses. E estão preocupados com a possibilidade de que a retomada dos jogos desvie a atenção que vem sendo dedicada a questões de justiça social.

LeBron James, que não se pronunciou publicamente desde que os planos da liga foram formalizados, no mês passado, provavelmente compartilha de algumas dessas preocupações. Mas também está claro –ao menos para os colegas dele no Los Angeles Lakers– que ele deseja sucesso nessa retomada.

James está com 35 anos, provavelmente nos anos finais de sua melhor forma. Tem chance clara de um novo título, que seria o quarto. As circunstâncias são estranhas, mas a fome é a mesma.

“Sabemos o que está em jogo aqui, e pode ser que não voltemos a estar nessa situação”, disse o armador Danny Green na terça-feira, em uma entrevista coletiva via Zoom. “Se você tem um grupo especial de atletas, tem de aproveitar a oportunidade."

Os Lakers, que tinham sua viagem para a Flórida marcada para a quinta-feira, esperam ficar confinados no complexo privativo da NBA no Disney World até o começo de outubro, ou seja, até a final geral da liga. Eles devem jogar o primeiro de seus oito jogos antes dos playoffs (contra o Los Angeles Clippers, outro candidato ao título) em 30 de julho, antes do início do mata-mata na metade de agosto.

Pelo menos é esse o plano. Com a disparada no número de casos de coronavírus na Flórida e um punhado de times fechando suas instalações locais de treinamento antes da viagem, a retomada da temporada é um experimento frágil. Um surto de coronavírus dentro da bolha poderia concebivelmente parar a coisa toda.

“Eu estaria mentindo se dissesse que todo mundo se sente confortável coma ideia e que não existem sentimentos negativos quanto ao que pode acontecer”, disse Jared Dudley, ala que não expressou grande empolgação com a perspectiva de passar seu 35º aniversário, na sexta-feira, em quarentena em um quarto de hotel. “Acredito que todos nós saibamos que isso é um risco."

LeBron James, com o uniforme amarelo e roxo dos Lakers, segura a bola com as duas mãos
LeBron James vinha sendo um dos destaques da temporada até sua pausa - Katelyn Mulcahy - 5.mar.20/AFP

Durante a parada de quase quatro meses na temporada, disseram seus colegas, James se manteve em excelente condição física e ao mesmo tempo se tornou um dos líderes sociais da equipe. Em conversas com grupos de colegas, ele os informava sobre as academias de ginástica disponíveis. Ofereceu conselhos a eles sobre como usar suas vozes efetivamente em meio à inquietação civil que tomou os Estados Unidos. Mas também tentava manter um clima leve, e sustentar o senso de camaradagem do time.

“LeBron é muito brincalhão”, disse Dudley. “Vamos ser honestos."

Mais recentemente, ele era presença constante no centro de treinamento dos Lakers, onde os jogadores apareciam individualmente para ciclos de condicionamento.

“Ele chega cedo ao ginásio, vai embora tarde, está sempre treinando até tarde. Provavelmente é quem treina mais forte e por mais tempo”, disse Green. “Ele não mudou nada, cara."

A consistência de James é ainda mais impressionante se considerarmos o quanto essa temporada foi incomum para a NBA –e especialmente para os Lakers. Green gosta de comparar a temporada a “andar de montanha russa dentro de uma caverna”.

Antes do começo da temporada, James acabou envolvido em uma uma tempestade geopolítica envolvendo a NBA e a China. Em janeiro, Kobe Bryant e sua filha de 13 anos de idade, Gianna, estavam entre as nove vítimas fatais de um acidente de helicóptero. Menos de dois meses mais tarde, a temporada foi suspensa devido à pandemia do coronavírus.

Na época, James liderava um time que parecia destinado a disputar o título. Com 49 vitórias e 14 derrotas, os Lakers ocupavam a primeira posição na Conferência Oeste, e James estava mostrando um basquete mais completo do que em praticamente qualquer outro momento de sua carreira, com média de 25,7 pontos e 10,6 assistências por partida, o que fazia dele o líder em assistências na NBA.

Agora, James tem fios grisalhos na barba que deixou crescer durante a quarentena. Durante seus 17 anos de carreira, ele sempre pareceu biônico. Mas sofreu uma lesão grave na virilha na temporada passada, e nenhum atleta consegue ser dominante para sempre. A despeito das idiossincrasias da temporada, ele parecia determinado a aproveitar a oportunidade que existia diante dele.

Frank Vogel, o treinador dos Lakers, recordou o momento em que viu James e Anthony Davis, o ala de força do time, selecionado para o All-Star Game deste ano, pela primeira vez em muitos meses, na semana passada. Bastou ver os dois pilares do time no centro de treinamento para que ele se sentisse encorajado.

“A cena me deixou muito confiante”, disse Vogel.

Mas os Lakers não estarão completos no Disney World. Avery Bradley, o melhor defensor do time no perímetro, optou por não retomar a temporada, por motivos familiares. Para ocupar o lugar que ele deixou no time, os Lakers assinaram na semana passada com J.R. Smith, um jogador que já tem um retrospecto de jogar com James.

Como colegas de equipe no Cleveland Cavaliers, James e Smith foram quatro vezes às finais da NBA, e ajudaram o time a conquistar o título em 2016. Mas a parceria entre eles implodiu em 2018, quando Smith se esqueceu de arremessar em uma posse de bola crucial no primeiro jogo das finais contra o Golden State Warriors. Os Cavaliers foram derrotados por quatro jogos a zero, e James assinou com os Lakers poucas semanas mais tarde.

Agora eles têm a chance de reescrever a história –juntos de novo, desta vez dentro de uma bolha, batalhando pela oportunidade de mais um título.

Smith disse que traria seu grande conhecimento sobre como é jogar com LeBron James –e que ajudaria os colegas de time mais jovens a aprender a conviver com o astro durante os playoffs.

“Eu sei que ‘Bron às vezes se irrita”, disse Smith, “e as pessoas não vão saber como lidar com isso”.

Smith esteve em quadra pela última vez na temporada 2018-2019, quando defendeu os Cavaliers por 11 jogos. Sua passagem por Cleveland terminou depois que ele acusou o time de perder jogos propositadamente. Na atual temporada, ele não havia conseguido time até agora.

Conversando com jornalistas por telefone, na semana passada, Smith disse que passou por um período de profunda depressão e que achou que sua carreira estava encerrada.

“Isso durou alguns meses”, ele declarou. “Gosto muito de videogames, mas nem jogava mais ‘2K’."

Quanto ao seu papel em quadra, Smith disse que a comissão técnica o havia instruído a “arremessar com qualidade” e defender. Ele não vai precisar atuar como criador de jogadas. “Isso é bom”, ele afirmou, “porque nunca fui um jogador bom em criar jogadas para os outros”.

Outros jogadores disseram que a longa pausa ajudou na recuperação. Davis, que sofreu com uma lesão no ombro por boa parte da temporada, afirmou que havia aproveitado a oportunidade para repousar e se transformar em “uma versão melhor” dele mesmo. E o ala Kyle Kuzma disse que se concentrou em trabalhar em seu crescimento pessoal. “Li, meditei e pintei bastante."

Quanto a James, os colegas dizem que percebem que a abordagem dele não mudou. “Ele está pronto para o momento”, declarou Dudley. “Isso é perceptível."

Tradução de Paulo Migliacci

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