Washington Redskins mudará nome e escudo após pressão antirracista

Equipe de futebol americano cede a patrocinadores e ativistas depois de décadas

Ken Belson Kevin Draper
The New York Times

O time da NFL (liga de futebol americano) em Washington anunciou nesta segunda-feira (13) que abandonará o nome Redskins, cedendo aos patrocinadores e aos ativistas que há muito o criticam como um epíteto racista (“redskin” quer dizer “pele vermelha”).

A decisão de abandonar o nome depois de quase 90 anos surgiu apenas 10 dias depois de o time anunciar que ele seria tema de uma revisão. O dono da franquia, Daniel Snyder, o defendera estridentemente por muitos anos.

Snyder disse que o novo nome, quando for escolhido, levará em conta “não só a tradição orgulhosa e a história da franquia como sugestões de nossos antigos integrantes, da organização, de patrocinadores, da NFL e da comunidade local que ele se orgulha por representar, em campo e fora dele”.

A mudança no nome de uma das equipes de esportes profissionais de mais alto valor no país surge depois que centenas de universidades e escolas abandonaram nomes e mascotes associados aos indígenas.

Equipes profissionais, como o Kansas City Chiefs, da NFL, e o Atlanta Braves e o Cleveland Indians, da Major League Baseball (MLB), resistiram a mudar seus nomes e logotipos, ainda que os Indians tenham abandonado o Chefe Wahoo como mascote no ano passado e anunciado recentemente que o nome da equipe seria revisado.

A virada de Snyder, de completa resistência à aceitação relutante no prazo de apenas algumas semanas, foi notavelmente rápida, em uma liga conhecida por mudar lentamente, quando muda.

Mas depois da morte de George Floyd quando estava em custódia da polícia de Minneapolis, no final de maio, empresas de todo tipo começaram a sofrer pressão por mais diversidade e por mudar suas políticas de forma a enfatizar sua oposição ao racismo.

No final de junho, alguns dos maiores patrocinadores do Washington, entre os quais a FedEx, Nike e Pepsi, receberam cartas de investidores que apelavam para que elas rompessem relações com a equipe.

Em 2 de julho, a FedEx, que paga cerca de US$ 8 milhões ao ano para dar seu nome ao estádio do time em Landover, Maryland, informou os Redskins em uma carta que, se o time não mudasse de nome, solicitaria que a marca da empresa fosse retirada do estádio no final da próxima temporada.

No dia seguinte, 3 de julho, o time anunciou que era provável que ele mudasse, ao iniciar uma “revisão completa do nome do time”, depois de semanas de discussões com a NFL.

A Nike parou de vender produtos com a marca do time, e os grupos de varejo Walmart, Target e Amazon —que estão entre os maiores dos Estados Unidos– anunciaram que suspenderiam a venda de mercadorias do Washington em seus sites.

O boicote surgiu depois de décadas de pressão sobre o time pela mudança do nome, que muita gente (e alguns dicionários) consideram ofensivo.

Em 1992, ativistas indígenas iniciaram uma campanha para forçar o Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos a cancelar o uso de “redskin” como marca registrada do clube, uma batalha judicial encerrada pela Suprema Corte em 2017, ao decidir que mesmo esse epíteto potencialmente preconceituoso conta com a proteção da primeira emenda constitucional, que garante a liberdade de expressão.

Em 2014, 50 senadores enviaram uma carta à NFL pedindo a intervenção da liga. E em todo o país, universidades e escolas começaram a abandonar mascotes e nomes de times com conexões aos indígenas.

Mas mais de 2,2 mil escolas de segundo grau nos Estados Unidos continuam a usar imagens associadas aos indígenas para seus times ou mascotes, de acordo com um banco de dados sobre os nomes de mascotes.

Durante todo esse tempo, Snyder, que adquiriu o Washington em 1999, se manteve firme em sua recusa a mudanças. “Jamais mudaremos o nome do time”, disse em 2013, uma posição que ele sempre manteve apesar da pressão de ativistas, políticos e alguns torcedores.

Adrian Peterson, camisa 26 do Washington Redskins, corre com a bola e fura a marcação do Dallas Cowboys
Adrian Peterson, camisa 26 do Washington Redskins, corre com a bola e fura a marcação do Dallas Cowboys - Ronaldo Martinez - 29.dez.2019/AFP

O que mudou, por fim, parece ter sido a sociedade americana mais ampla em torno do time. Depois da morte de Floyd, surgiu uma reconsideração intensa de estátuas, bandeiras, símbolos e mascotes considerados como racistas ou como celebrações da história do racismo.

Agora que o time decidiu abandonar seu nome atual, terá de encontrar um substituto, um processo que exigirá pesquisa de marcas registradas e dos muito acordos de licenciamento entre a NFL e seus parceiros, e pode demorar anos.

Os times também costumam usar o novo nome e logotipo, e até novas cores, para criar uma nova identidade, um processo que pode incluir discussões com patrocinadores, fãs e outros interessados.

Ed O’Hara, um designer que cria nomes e logotipos de times há mais de 30 anos, disse que abandonar o nome existente dará tempo para que Snyder encontre um substituto. As cores existentes do time são únicas, e fortes, ele disse. Um bom nome, porém, precisa ter conexão fácil com um mascote, ser fácil de pronunciar e ter conexões com o mercado em que o time joga.

“O nome é sempre a parte mais difícil”, ele disse. “Você só tem uma chance de acertar, para uma coisa que vai durar 80 anos."

Tradução de Paulo Migliacci

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