Técnico do PSG ficou perto do Bayern e teve rival como 'estagiário'

Tuchel e Flick já tiveram caminhos cruzados antes da final da Champions League

São Paulo

Hans-Dieter Flick, 55, passou duas semanas na França em 2018. Foi todos os dias ao Camp des Loges, centro de treinamento do Paris Saint-Germain, nas cercanias da capital francesa.

Thomas Tuchel, treinador da equipe parisiense e nove anos mais novo, serviu de inspiração para ele, que tentava achar um jeito de retomar a carreira.

Os dois se encontram de novo neste domingo (23), às 16h (de Brasília) como adversários na decisão da Champions League. Flick assumiu como interino o Bayern de Munique em novembro de 2019. Deu tão certo que assinou renovação por três temporadas, mas continuou fã do rival na final.

"Ele é um dos melhores técnicos do mundo", elogiou Flick.

A admiração é compartilhada por Karl-Heinz Rummenigge, CEO do Bayern. Meses antes do estágio de Flick em Paris, o dirigente queria contratar Tuchel para ser o treinador do time bávaro. Foi fechado um acordo verbal, mas este encontrou a oposição de Uli Hoeness, ex-presidente e integrante do conselho de diretores.

Hoeness considerava Tuchel independente demais, jovem demais e inexperiente demais para o cargo. Rumennigge teve de ir a campo e convencer os outros diretores, um a um, sobre os méritos do técnico. Levou algumas semanas para isso. Quando conseguiu e ligou para contar a novidade, Tuchel já havia aceitado convite para dirigir o PSG.

O clube parisiense era um desafio considerável para o alemão que se destacou no Mainz e depois ganhou a Copa da Alemanha no Borussia Dortmund apoiado no jogo coletivo e com atletas revelados nas categorias de base.

Em Paris, ele teria de administrar egos de um elenco repleto de contratações caras, e com Neymar mandando sinais de que desejava voltar ao Barcelona.

Quando tudo isso aconteceu, Flick estava em período sabático, ainda indeciso sobre qual seria a próxima oportunidade. Ele nunca havia dirigido em um campeonato de elite e era lembrado por ter passado quatro temporadas no Hoffenheim, na segunda divisão, sem conseguir levar o time à primeira. Sua carreira foi marcada depois pelos trabalhos como auxiliar.

Como assistente ou coordenador, aprendeu aspectos táticos com Giovanni Trapattoni no Red Bull Salzburg (AUT), embora tenha achado a visão de futebol do italiano defensiva demais.

Foi campeão do mundo com a seleção alemã na Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Foi do auxiliar a sugestão ao treinador Joachim Low de que Mario Gotze deveria entrar na final contra a Argentina, durante a prorrogação.

Thomas Tuchel cumprimenta Mbappé após o atacante ser substituído na semifinal da Champions League, contra o RB Leipzig
Thomas Tuchel cumprimenta Mbappé após o atacante ser substituído na semifinal da Champions League, contra o RB Leipzig - David Ramos-18.ago.20/Reuters

Gotze faria, minutos depois, o gol do título para a Alemanha. A primeira pessoa que Low abraçou na comemoração foi Flick. Logo após a Copa, ele se tornou gerente da federação nacional.

Flick confessou depois que sua ambição não era um cargo administrativo, mas estar à beira do campo, com poder de comando. Ele via de longe Tuchel ser considerado um dos técnicos mais promissores da Europa e admirava isso. Quando teve a chance, em 2018, passou alguns dias na companhia dele em Paris.

Em julho de 2019, aceitou o convite para ser assistente do croata Niko Kovac no Bayern de Munique. O time havia acabado de ser campeão da liga e da Copa da Alemanha, mas o futebol não convencia.

Não bastasse isso, Kovac não tinha boa relação com jogadores influentes do elenco. O principal deles era Thomas Müller.

Flick viu de perto os problemas e, quando o croata foi demitido, em novembro passado, acabou convidado a assumir como interino já sabendo o que fazer.

Uniu o elenco, voltou a colocar Müller como peça central da equipe, apostou no toque de bola e velocidade. O Bayern não parou mais de ganhar, e com desempenhos vistosos. O ápice foi a goleada por 8 a 2 sobre o Barcelona nas quartas de final do torneio europeu.

Hans-Dieter Flick (de camisa preta) comemora com os jogadores do Bayern a classificação para a final da Champions League após a vitória sobre o Lyon
Hans-Dieter Flick (de camisa preta) comemora com os jogadores do Bayern a classificação para a final da Champions League após a vitória sobre o Lyon - Miguel A.Lopes-19.ago.20/Reuters

Quando Kovac saiu, Tuchel foi cotado mais uma vez no clube da Bavária. Mas ele estava ocupado fazendo mudanças que levariam o PSG à final da Champions League pela primeira vez. Apesar dos investimentos pesados em jogadores ofensivos (o trio Neymar, Mbappé e Di María custou 430 milhões de euros), ele percebeu que era preciso estabilizar a defesa.

Contratado de graça, o espanhol Ander Herrera deu um apetite de marcação no meio-campo que o time não tinha. O defensor Marquinhos se tornou um eficiente volante, e Kimpembe, vindo da base, se fixou no miolo da zaga. Kaylor Navas, desprezado pelo Real Madrid, assumiu a posição de titular no gol.

A última vez que a Champions League foi decidida por dois técnicos do mesmo país aconteceu em 2013, também com dois alemães. O Bayern de Munique de Jupp Heynckes derrotou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp por 2 a 1.

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