Descrição de chapéu Futebol Internacional

Torneio de verão luxuoso, Champions League causa discórdia em Portugal

Fase final começa quarta em Lisboa, que espera turistas mesmo com jogos sem público

Marcus Alves
Lisboa

Fernando Paiva, 36, tenta manter o otimismo. Em uma das pausas diárias que faz ao lado da Basílica da Estrela, em Lisboa, o brasileiro, motorista de aplicativo, recorda com nostalgia o último verão.

Segundo as suas contas, nesse mesmo período do ano passado ele faturou mil euros brutos (mais de R$ 6.000) semanais. Agora, não consegue nem um quarto disso. “Tenho fé que tudo irá melhorar daqui em diante. Já existem mais turistas”, afirma.

A sua esperança passa, sobretudo, pela chegada da Champions League para a capital portuguesa. A cidade foi escolhida para abrigar as quartas de final, semifinais e final da principal competição de clubes do mundo.

Ao todo, serão sete jogos nos estádios da Luz e de Alvalade entre quarta (12) e o próximo dia 23, um domingo. Mesmo com portões fechados, a expectativa é que o torneio atraia uma legião de 16 mil visitantes, conforme estudo do IPAM (Instituto Português de Administração de Marketing).

O impacto financeiro estimado de 50,4 milhões de euros (R$ 307 milhões), logo após a maior contração da história de sua economia no segundo trimestre, deveria ser suficiente para fazer a população local abraçar o campeonato, mas não é exatamente isso que acontece. Ser o anfitrião da Champions League divide os portugueses.

Em enquete recente encomendada pelo Jornal de Notícias, 44% dos entrevistados se mostraram contra a competição. Outros 36% disseram ser a favor de sua realização.

Há o receio de uma nova onda de contágios por Covid-19 depois de o país ter conseguido, enfim, controlar a pandemia em meio a um desconfinamento problemático.

Na semana passada, Portugal comemorou o seu primeiro dia sem mortes desde março. As restrições prosseguem, ainda assim, em Lisboa e arredores, com bares sendo obrigados a fechar às 20h na região.

Não existe grande entusiasmo pela cidade com “o melhor torneio de verão da história”, como batizou o diário espanhol Marca.

À exceção de uma campanha do RB Leipzig em diversos pontos de Lisboa, conclamando a torcida do Benfica, a mais numerosa do país, a apoiar os alemães (por ambos compartilharem as cores vermelha e branca), a Champions passa praticamente despercebida pelas ruas.

O ex-jogador e agora vice-presidente da federação portuguesa, Humberto Coelho, confia, a despeito disso, em uma mudança de astral quando a bola rolar.

“O momento é difícil, como todos sabemos, mas o que é certo é que era preciso um evento desses. Será bom para uma possível retomada e também confiança e motivação das pessoas”, afirma.

Nenhum outro setor aguarda com mais ansiedade por isso do que o turismo. Antes em alta, contabiliza até aqui uma queda de 64,4% no número de hóspedes estrangeiros.

A crise não perdoou nem mesmo o hotel Pestana CR7, que pertence a Cristiano Ronaldo e fica ao lado da Praça do Comércio, um dos mais tradicionais cartões postais de Lisboa. As suas portas se encontram temporariamente fechadas. O craque da Juventus, aliás, não terá a oportunidade de brilhar em seu país, já que a equipe italiana foi eliminada nas oitavas de final pelo Lyon.

As autoridades apostam na visibilidade internacional proporcionada pela Champions como a melhor ação promocional do país nas circunstâncias atuais.

Esse excesso de confiança por parte do governo acabou virando motivo de controvérsia na imprensa local, que criticou um suposto deslumbramento na cerimônia de anúncio da competição, feita com os principais representantes do governo.

Pegou muito mal, especialmente, a declaração do primeiro ministro António Costa de que “a Liga dos Campeões era um prêmio merecido aos profissionais de saúde”.

A reação dos sindicatos foi imediata. “Não será um prêmio, com certeza, mas significará muito mais trabalho. Ela não nos trará aposentadoria aos 60 anos ou status de profissão de risco. Se trouxesse, era capaz de eu abraçar todos os jogadores”, rebateu Ana Rita Cavaco, representante dos enfermeiros. Posteriormente foi, então, aprovado em plenário um bônus de 50% nos salários mais aumento das férias.

Em julho, Portugal teve o mês com mais testes de coronavírus realizados, com uma média diária de 13.909 mil. No total, o país registrou 52.825 casos de Covid-19 e 1.759 óbitos até esta segunda-feira (10).

Estádio da Luz, com a estátua de Eusébio à frente, receberá alguns dos jogos da fase final da Champions
Estádio da Luz, com a estátua de Eusébio à frente, receberá alguns dos jogos da fase final da Champions - Franck Fife/AFP

Para evitar aglomerações ao redor dos estádios e, consequentemente, a propagação do vírus, entre 300 e 400 policiais serão deslocados em dias de jogo. O plano é repetir o mesmo protocolo utilizado, com sucesso, no retorno da Liga Portuguesa. Na ocasião, foi assegurada uma tranquilidade que permitiu escutar até mesmo os metrôs do lado de fora em Alvalade.

“Esperamos que o comportamento dos torcedores seja exemplar. Comemorar não é proibido, desde que com a devida distância”, orienta a diretora-geral da saúde, Graça Freitas.

A preocupação dos portugueses não gira em torno apenas do aumento de contaminações, mas também do aspecto financeiro do torneio. A exemplo de outras edições, o governo local aprovou isenção fiscal para todos os envolvidos no campeonato. Com o efeito devastador da pandemia nas contas, a medida gerou indignação e foi classificada como “ofensa” aos contribuintes.

Neste cenário, um novo campeão europeu será coroado em Lisboa e assumirá o trono no lugar do Liverpool. Seis dos times que chegaram às quartas nunca faturaram a competição (PSG, Atalanta, Atlético de Madrid, RB Leipzig, Manchester City e Lyon).

Adversários diretos nas quartas de final, Barcelona e Bayern de Munique são as exceções.

Confrontos das quartas de final

12/8, quarta-feira – 16h
Atalanta x PSG

13/8, quinta-feira – 16h
RB Leipzig x Atlético Madrid

14/8, sexta-feira – 16h
Barcelona x Bayern de Munique

15h/8, sábado – 16h
Manchester City x Lyon

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.