Mineirinho anuncia que próximo Mundial de Surfe será o seu último

Campeão em 2015, atleta do Guarujá terá sua despedida da WSL na temporada 2021

São Paulo

Campeão mundial em 2015 e grande influenciador da atual geração de surfistas brasileiros, Adriano de Souza, o Mineirinho, anunciou que vai se aposentar do circuito profissional (WSL) após a próxima temporada, que vai de dezembro deste ano até setembro de 2021.

"Estou saindo do circuito super-honrado e ainda tenho um ano, 2021, em que estarei presente. Será um ano de despedida, bem bacana para poder rever meus amigos, os lugares em que passei e criei amizades", afirmou o surfista de 33 anos, que estreou no circuito mundial em 2006, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (16).

Após 15 anos na elite do esporte, Mineirinho contou que durante toda a vida e a carreira vem perseguindo se reencontrar com a sensação de quando entrou no mar pela primeira vez, com seu irmão Angelo, ainda criança. Em vão.

Adriano de Souza após vencer o título mundial de 2015
Adriano de Souza após vencer o título mundial de 2015 - Kirstin - 17.dez.2015/Divulgação WSL

"Não consegui encontrar essa motivação, esse sentimento de me reencontrar, de estar feliz. Principalmente quando pego onda com meu irmão, são momentos únicos e raros. Acredito que após 2021 vou ter espaço suficiente para tentar encontrar novamente esse sentimento, vou ter mais liberdade, tempo com minha família e com quem amo. Vai me fazer uma pessoa melhor e acredito que mais feliz", disse.

Em 2019, ele voltou de lesão em junho, na etapa do Rio de Janeiro do Mundial, mas sofreu nova lesão no joelho em agosto, em Teahupoo, que o obrigou a ficar de fora pelo resto da temporada.

O surfista afirmou que a intenção inicial era que 2020 fosse sua despedida, mas como o campeonato foi cancelado em razão da pandemia, tudo ficou para o ano seguinte, quando pretende passar uma última vez por todas as etapas do circuito.

"Terei que dar tudo que eu sei para que possa sair daquela praia satisfeito e não olhar para trás", afirmou.

Seus planos para depois vão ao encontro do que tem sido sua carreira até aqui: um legado. Ele disse que pelo menos nos anos seguintes continuará diretamente ligado à modalidade, mas participando de competições especiais, não dentro da WSL.

Também pretende se tornar embaixador do esporte e trazer um novo olhar para o surfe brasileiro, além de visitar lugares desconhecidos no país. Para ele, a decisão é definitiva.

"Quero do fundo do coração que [a aposentadoria] não seja uma coisa triste. O princípio dessa minha decisão é a celebração, celebrar tudo que eu fiz no esporte e o legado que eu deixei."

O atleta, que terminou 2019 como 35º do mundo, se tornou em 2011 o primeiro surfista do Brasil a liderar o ranking mundial, após conquistar a etapa do Rio de Janeiro.

Cria da favela de Santo Antônio, no Guarujá (litoral de São Paulo), ele foi o segundo brasileiro a vencer o título mundial, logo após o de Gabriel Medina, então com 20 anos.

Mais velho que o compatriota e que outros expoentes, como Italo Ferreira (atual campeão mundial) e Filipe Toledo, Mineirinho é considerado pelos companheiros da elite do surfe um dos mais importantes personagens para a afirmação do Brasil como grande potência do circuito masculino na atualidade.

Em 2003, com 16 anos, ele se tornou o mais jovem campeão mundial júnior. Em 2009, venceu sua primeira etapa do Mundial adulto, em Mundaka.

Em 2013, a revista especializada Surf Europe elegeu os 100 maiores surfistas de todos os tempos e colocou Mineirinho em 57º lugar —isso dois anos antes do seu título.

“Ele é indubitavelmente o maior surfista brasileiro de todos os tempos, e mesmo que seja eclipsado por nomes como Medina, será a ele que eles terão que agradecer por proporcionar a autoconfiança necessária”, escreveu a revista quase profeticamente.

"Eu deixei o meu sarrafo e aí o Gabriel [Medina] veio e tirou. E assim vai, os próximos [surfistas brasileiros] vão querer tirar o sarrafo do Gabriel", diz ele sobre seu legado e papel como referência do surfe nacional.

O apelido do paulista Adriano de Souza veio pelo irmão nove anos mais velho, Angelo, que era tímido e chamado de Mineiro. Para o mais novo, sobrou o diminutivo. Foi Mineiro quem deu a primeira prancha a Mineirinho.

“Ele comprou a minha primeira prancha por sete dólares, cerca de R$ 30, que era muito dinheiro para ele. Mas hoje estou no topo do mundo graças a R$ 30. Eu te amo”, afirmou após a conquista do título de 2015.

Depois de anos viajando o mundo e competindo dez meses ao ano, ele projeta que a volta após a pandemia vai ser dolorosa, com os atletas "se quebrando" tentando surfar em alta performance, mas sem ritmo. Para se preparar para suas últimas ondas, conta que já no dia 1º de outubro viajará para o Havaí, local da primeira etapa da temporada 2021.

"É muito doloroso ficar meses longe de casa para a primeira prova, esse é o sacrificio que eu venho executando há 15, 16 anos. Uma hora o corpo e a mente não aguentam, por isso tomei essa decisão. Quero sair com meu carro lá em cima, em alta performance, chegando se Deus quiser num pódio, mostrando que não estou saindo por sair, mas para um novo desafio", afirmou.

Mineirinho também já sabe do que mais sentirá falta no circuito mundial. "Do pós-campeonato, que a gente relaxa, os atletas ficam tranquilos, a gente se vê, se abraça. Durante o campeonato é muito dificil o acesso entre atletas, está todo mundo brigando por espaço. É um esporte individual e todo mundo fecha sua casinha."

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