Não quero surfar um terceiro recorde mundial, afirma Maya Gabeira

Após bater própria marca em Nazaré, ela espera não encarar ondas tão assustadoras de novo

São Paulo

A maior surfista de ondas gigantes do planeta tem medo de altura.

Maya Gabeira, 33, diz sentir pavor de subir, por exemplo, no topo da Pedra da Gávea, no Rio. A parte final da trilha, quando é recomendado o uso de cordas para terminar a subida, marca o limite da aventura para ela, que dá meia volta e desce.

É a mesma pessoa que em fevereiro deste ano se arriscou mais uma vez na imprevisibilidade do mar para surfar uma onda de 22,4 metros (73,5 pés), superando o seu próprio recorde –os 20,7 metros de 2018– e estabelecendo a nova marca inédita para a modalidade feminina.

O resultado foi anunciado neste mês e também confirmou que a onda surfada por ela foi a maior entre homens e mulheres na temporada.

Há dois anos, quando se tornou a mulher que surfou a maior onda do mundo, Maya queria o recorde e trabalhava para atingir isso na carreira. Agora, depois de reafirmar a sua capacidade de vencer as águas de Nazaré, em Portugal, ela já não deseja repetir a dose.

"Eu não quero um terceiro recorde mundial. Não tenho a mínima intenção de surfar uma onda de 75 pés. Vou começar a rezar para [Nossa Senhora de] Nazaré não me dar uma onda daquelas de novo", diz Maya à Folha.

Assim que foi puxada pelo alemão Sebastian Steudtner, seu parceiro de equipe e piloto do jet ski, a brasileira sabia que aquela onda era brutal. O que lhe deu essa certeza foi o som da explosão no encontro da crista com a base.

Apesar de engolida pela espuma, foi resgatada rapidamente e se sentiu encorajada a enfrentar outra onda. Maya ainda não sabe explicar os motivos.

"Fiquei aterrorizada. Quando eu cheguei na base e escutei o barulho, pensei: 'Onde é que eu fui me meter?'. Na próxima onda eu faço a mesma coisa, vou pra dentro, tomo uma explosão e acontece de novo. Cheguei lá fora e disse chega. Isso está muito perigoso. É disso aqui pra baixo, não estou afim de me arriscar mais", conta.

"A onda do recorde, por mais que eu não tenha passado perrengue, aquele medo já foi suficiente para me alertar de que o negócio podia ter ido mal. Quando você chega muito próximo de uma situação dessa diz: 'Como assim? Você está se expondo a isso. Isso não é legal.' Quando eu fiz duas [ondas], falei que era hora de começar a andar pra trás. Já deu."

O relato de Maya Gabeira pode soar como um aceno à despedida do esporte que lhe deu reconhecimento mundial. Seu discurso é uma contradição de quem avalia os riscos que corre, como o acidente que quase lhe tirou a vida em 2013, mas que ao mesmo tempo ama e não consegue largar o que faz.

Há também um desgaste com a modalidade nos processos que acontecem fora da água. Em 2018, Maya precisou lutar nos bastidores para que a WSL (Liga Mundial de Surfe) convencesse o Guinness sobre a necessidade de haver um recorde para as mulheres.

Até então, era considerado apenas a marca do surfista americano Garrett McNamara como parâmetro, sem distinção entre gêneros.

A brasileira contou com a ajuda de pessoas importantes nos bastidores da WSL para levar a luta adiante e terminou recompensada com o reconhecimento de sua marca.

Agora em 2020, para estabelecer o novo recorde, Maya insistiu que a medição da onda fosse feita por uma comissão independente de cientistas, e não pela WSL. Isso porque a surfista francesa Justine Dupont, de 29 anos, também havia surfado uma onda de altura muito próxima, o que desencadeou na liga uma dúvida sobre qual teria sido a maior.

Na opinião de Maya, que já se desgastara com a entidade há dois anos, somente um grupo de fora do mundo do surfe traria a isenção necessária para realizar a avaliação.

Os cientistas determinaram que Maya surfou de 2 a 3 metros acima de Dupont e confirmaram o novo recorde da brasileira. A francesa contestou a marca estabelecida pela comissão.

Maya Gabeira em uma onda do mar de Nazaré, em Portugal
Maya Gabeira em Nazaré (Portugal), onde ela bateu o recorde mundial feminino de maior onda já surfada - Divulgação/WSL

"O masculino foi feito no método antigo de medição, e o feminino foi adiado em um mês para sair o resultado. Isso foi uma coisa nova para a liga. Eles nunca tinham feito uma medição com alguma base científica antes. Tem que ser uma norma, você não pode agora dar um passo pra trás", afirma a brasileira.

Justine Dupont também mora em Nazaré, está sempre na água treinando e chegou muito perto de superá-la no Tow Surfing Challenge, de fevereiro. Em outras palavras, a francesa se mostrou uma ameaça ao reinado de Maya Gabeira nas ondas gigantes.

Essa concorrência é um dos fatores que fazem com que a brasileira considere alongar um pouco mais a carreira na modalidade.

"Por mais que os homens me inspirem também, é diferente quando você vê uma mulher nesse nível. Tem alguma coisa que faz com que seja diferente, não sei explicar. Você vê aquilo como uma competição mais direta. Isso leva a estar sempre se comparando", diz.

Aos 33, Maya Gabeira treina menos hoje do que há dois anos, mas gosta mais do ritmo de preparação atual. Isso apesar dos difíceis meses de março, quando o seu corpo denuncia o desgaste de toda uma temporada.

Enquanto reflete permanentemente sobre voltar a encarar ou não uma onda de 20 metros, ela segue na água, recordista e dominante no esporte que a consagrou.

"Se eu tivesse um segundo talento, eu já teria aposentado. Mas não tenho. Quando eu vejo, acontece um desafio, alguma coisa que me instiga. Às vezes é uma onda, um campeonato, alguém que vem surfando muito bem. E eu gosto muito do meu estilo de vida", afirma.

"Eu adoro treinar, adoro acordar cedo, adoro passar o dia na água. O esporte me traz muito prazer no meu dia a dia. Não sei quando que vou querer abrir mão disso", completa Maya, para quem o fim está sempre próximo, ainda que ele demore a chegar.

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