Naomi Osaka é bicampeã do US Open com frieza e ativismo

Tenista japonesa bate Azarenka de virada e conquista terceiro Grand Slam na carreira

São Paulo

A tenista japonesa Naomi Osaka, 22, é a campeã do US Open 2020, após bater de virada a bielorrussa Victoria Azarenka, 31, na decisão deste sábado (12), por 2 sets a 1 (1/6, 6/3 e 6/3).

Esse é o terceiro título de Grand Slam da jovem japonesa, que já liderou o ranking feminino por 25 semanas no ano passado, e o primeiro desde o Australian Open de 2019, que a fez chegar ao topo.

Ela também venceu o US Open em 2018, numa final marcada pela polêmica entre Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos.

Na ocasião, a americana foi advertida por receber orientação do seu técnico durante o jogo (algo proibido em Grand Slams) e deu início a uma longa discussão com o juiz de cadeira, o que provocou punições subsequentes até a perda de um ponto.

Na ocasião com 20 anos, Osaka já demonstrava a frieza de que precisou também neste sábado, quando largou muito mal e saiu um set atrás da bielorrusa, mas conseguiu crescer no jogo, impor seu estilo agressivo e alcançar a virada num terceiro set parelho.

Depois da rápida ascensão nos últimos anos, a japonesa parecia ter perdido um pouco do ímpeto que a levou ao topo. A queda na terceira rodada do Australian Open deste ano, quando defendia o título, a derrubou no ranking, e ela entrou no US Open na nona colocação. Ainda assim, devido a várias desistências de atletas causadas pela pandemia, era a cabeça de chave número 4.

Com o título, Osaka, a atleta mais bem paga do mundo da atualidade segundo a Forbes, coroa um momento de grande visibilidade na carreira, em que se tornou uma das principais vozes na luta por justiça racial.

A filha de mãe japonesa e pai haitiano, que vive nos EUA desde a infância, é forte apoiadora do movimento "Black Lives Matter" e participou de manifestações de rua após a morte de George Floyd, homem negro filmado com um policial branco pressionando o joelho contra seu pescoço em maio.

No torneio Premier de Cincinnati, prévio ao US Open e realizado neste ano no mesmo complexo de Flushing Meadows, em Nova York, para evitar mais deslocamentos em meio à pandemia de Covid-19, ela provocou a suspensão do evento por um dia ao anunciar que não iria jogar a partida de semifinal.

A atitude de protesto se deu após a morte de outro homem negro pela polícia nos EUA, Jacob Blake, e no mesmo dia em que os jogadores da NBA decidiram boicotar os playoffs da liga para chamar a atenção para o tema. Com a decisão do torneio de suspender os jogos por um dia, ela concordou em voltar à disputa.

No US Open, em que os tenistas precisaram usar máscaras antes e depois das partidas, Osaka homenageou sete vítimas negras de violência em suas sete partidas com os nomes delas nas máscaras: Breonna Taylor, Elijah McClain, Ahmaud Arbery, Trayvon Martin, George Floyd, Philando Castile e Tamir Rice.

Quando questionada na cerimônia que mensagem queria enviar com esse gesto, respondeu: "Qual é a mensagem que você recebeu seria a pergunta. Sinto que o importante é fazer as pessoas começarem a falar."

Após vencer neste sábado, ela se deitou na quadra e ficou alguns segundos parada, em silêncio.

Naomi Osaka deitou na quadra após vencer o US Open
Naomi Osaka deitou na quadra após vencer o US Open - Robert Deutsch/USA TODAY Sports

Desde a retomada do circuito do tênis, na metade de agosto, Azarenka estava invicta. Antes do US Open, ela venceu o Premier de Cincinnati.

A decisão desse torneio seria jogada justamente contra Osaka, mas a japonesa desistiu horas antes devido a uma lesão na coxa. No US Open, ambas confirmaram seus bons momentos para avançarem até a final.

O Grand Slam americano foi realizado sem a presença de público. Apenas as equipes das finalistas e poucas pessoas envolvidas no torneio puderam acompanhar a decisão no estádio Artur Ashe, maior arena de tênis do mundo, com capacidade para 24 mil espectadores.

Ainda que tenha ficado com o vice, a campanha da atleta de Belarus coroa o renascimento de uma das principais jogadoras do começo da década. Nesse período, Azarenka ganhou o Australian Open duas vezes (2012 e 2013) e liderou o ranking feminino por 51 semanas (é a 11ª na lista das atletas que passaram mais tempo na ponta).

No ano de 2012, também conquistou duas medalhas olímpicas em Londres (ouro nas duplas mistas e bronze em simples).

Depois disso, caiu de rendimento em 2014 (ano em que uma lesão no pé a tirou de ação por várias semanas) e 2015, voltando a obter resultados mais expressivos em 2016. No meio desse mesmo ano, anunciou que estava grávida e se retirou do circuito. Leo nasceu em dezembro.

Ela voltou a jogar na metade de 2017, mas conseguiu atuar em apenas dois torneios no ano. Uma batalha judicial pela guarda do filho com o pai da criança fez com que Azarenka não pudesse deixar o estado da Califórnia, onde vive, por vários meses.

Sua vitória nos tribunais veio no início de 2018, quando ela enfim pôde retomar uma rotina normal no circuito. No fim do ano, ficou perto de entrar no top 50, mesma faixa em que acabou a temporada de 2019 e permaneceu nos três primeiros meses de 2020 (com a paralisação dos circuitos por cinco meses, os rankings foram congelados).

O grande salto veio nesta retomada do esporte. O título de Cincinnati, seu primeiro desde 2016, a levou à 27ª posição do ranking, mas mesmo assim ela não entrou no US Open como cabeça de chave.

Agora, saltará para a 14ª posição, enquanto Osaka subirá para a terceira colocação.

O próximo Grand Slam, Roland Garros, em Paris, começará daqui a duas semanas.

Erramos: o texto foi alterado

Jacob Blake foi baleado pela polícia nos EUA, e não morto, como publicado em versão anterior do texto.

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