Descrição de chapéu racismo

Atletas relatam pressão para depor em dossiê sobre abusos no Pinheiros

Relatório do clube fala em 'estrutura ensaiada para prejudicar indivíduos específicos'

São Paulo

Após a revelação de denúncias de assédio e racismo em sua equipe de ginástica, o Esporte Clube Pinheiros vive dias turbulentos, com acusações de que uma diretora pressionou atletas a depor contra treinadores e relatos de que a entidade pouco faz para tratar dos problemas desde que eles vieram à tona.

O caso passou a ser apurado no TJD-SP (Tribunal de Justiça Desportiva da modalidade em São Paulo).

A Folha obteve quatro depoimentos dessa investigação, todos de adolescentes que treinam ou treinaram no clube e terão seus nomes preservados.

Dentre outras coisas, eles afirmam que, na auditoria interna instaurada para apurar as denúncias, foram pressionados pela diretora adjunta de comunicação, Ana Paula Adami, para dizer o que ela havia pedido. Falam ainda que tiveram medo de retaliações caso se negassem a fazer isso.

Adami foi vice-presidente da Federação Paulista de Ginástica de 2013 a 2016 e tentou se eleger presidente em 2017, mas acabou derrotada. Também foi a primeira mulher a ocupar a diretoria executiva do Pinheiros e trabalhou no departamento de ginástica da entidade.

A investigação do TJD começou após uma reportagem da Globo revelar a existência de um dossiê interno do Pinheiros com denúncias contra os treinadores. Os casos de abuso e racismo teriam ocorrido de 2013 a 2019.

A defesa dos técnicos citados, os atletas ouvidos e a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) não tiveram acesso ao teor completo desse dossiê.

Um segundo documento do clube, o relatório final de governança, produzido a partir da apuração da auditoria interna, corrobora o descrito pelos ginastas à justiça desportiva, ao apontar possíveis inconsistências e direcionamentos nos primeiros relatos. A Folha teve acesso a ele.

“Alguns depoimentos tinham uma estrutura ensaiada com foco em prejudicar indivíduos específicos e a seção [da ginástica]", afirma o relatório assinado por Renata Pinheiro, diretora de governança do clube. "Houve mudanças bruscas nas respostas quando a pergunta era realizada de forma diferente”, continua.

O ginásio de ginástica do Pinheiros, em 2016
O ginásio de ginástica do Pinheiros, em 2016 - Adriano Vizoni - 25.fev.2020/Folhapress

“Atletas confidenciaram que o ambiente da ginástica sempre foi de medo, pois ‘pessoas importantes’ interferiam na dinâmica do dia a dia com promessas e em alguns casos intimidação”, completa Pinheiro.

Quanto à liberdade para depor na sindicância interna, um dos atletas relata ao TJD-SP ter se sentido pressionado a "dizer inverdades" [sobre os treinamentos] em seu depoimento. Outro afirma que "as declarações que prestei para essa auditoria foram a pedido da sra. Ana Paula Adami. Os quatro ginastas também defendem seus respectivos treinadores.

A Folha procurou o departamento de comunicação do Pinheiros, chefiado por Adami, e questionou quando o relatório final ficou pronto, quais foram as medidas tomadas, se o clube reconhece os casos de racismo e assédio denunciados e o que tinha a dizer sobre as acusações feitas à justiça desportiva sobre a pressão feita pela diretora adjunta da agremiação.

"O Esporte Clube Pinheiros desconhece qualquer ação dessa natureza e ratifica que a Sra Ana Paula Adami é Diretora Adjunta de Comunicação", afirmou a entidade em um email enviado por sua assessoria de imprensa.

Em que pesem as falas dos atletas de que foram pressionados, o relatório final, assinado pela diretora de governança, não isenta o departamento de ginástica do clube de responsabilidade e reconhece comportamentos abusivos.

O documento aponta suas conclusões em quatro tópicos (assédio moral, racismo, episódios violentos e gordofobia) e faz considerações.

Entre elas, a de que o clube não tem "estrutura necessária" para admitir atletas "militantes" (que não são sócios e recebem salário para fazerem parte da equipe) abaixo de 14 anos, prática comum na ginástica, e que a equipe de nutricionistas e psicólogos deve ser usada com mais frequência.

“Existe um ambiente na Ginástica Olímpica que é mais hostil do que o encontrado em outras seções do clube. São empregadas palavras rudes que em alguns casos podem ser interpretadas como assédio [moral]”, consta no documento.

“Existe uma pressão por parte da comissão técnica para que os atletas mantenham a forma física. Existe cobrança na frente de outros colegas e comentários desagradáveis, porém não foram encontrados indícios de discriminação aos atletas”, aponta ao tratar de gordofobia.

Sobre racismo e episódios violentos, o relatório conclui não ter sido possível comprovar as denúncias com as evidências obtidas.

Recomenda ainda que sejam feitos treinamentos sobre racismo, assédio e outros temas aos profissionais do clube, além da instalação de câmeras nos ginásios.

Pessoas ligadas à agremiação disseram à reportagem que pouco mudou internamente no tratamento aos atletas desde que as denúncias foram reveladas, mas que as palestras têm sido realizadas e que as câmeras foram instaladas.

Na opinião de quem vive de perto a ginástica brasileira e internacional, não há como negar que houve inúmeros casos de preconceito e abuso dentro do ambiente do esporte nos últimos anos.

Um exemplo de quão complexo e estrutural é o problema está no fato de que Angelo Assumpção, ginasta que denunciou o Pinheiros por racismo e acabou demitido no fim de 2019 sob alegação de indisciplina, é acusado por ex-colegas de equipe em depoimentos ao TJD-SP de fazer piadas homofóbicas e também racistas dentro do clube. Procurado, o atleta disse desconhecer o assunto.

O grande desafio para todos que estão nesse meio é como combater condutas negativas tão enraizadas.

“Nem todo dispositivo que parece coibir comportamentos inadequados é efetivo. Colocar câmera pode coibir agressão física, mas dificilmente vai registrar agressão verbal. Os ginásios em geral não têm dispositivos capazes de registrar esses fatos de forma adequada para que seja investigado e para possivelmente punir no futuro”, afirma Marco Bortoleto, professor da Unicamp.

Integrante da Comissão de Educação da Federação Internacional de Ginástica, ele pesquisa o tema do assédio no esporte e entende que faltam canais formais de denúncias e protocolos transparentes para casos de discriminação ou indisciplina, por exemplo. A consequência é que o esporte fica permeado de arbitrariedades que prejudicam a apuração dos fatos.

“Quando você denuncia só num nível, pode ser abafado e desaparecer, e é isso que temos visto. Se é reportado em diferentes canais, é difícil esconder. Se ele [atleta] denunciar e as entidades atuarem, não vai mais se repetir, porque fica no radar. Quando há mais de um canal, as entidades ficam mais vigilantes”, argumenta.

Para Michelle Cabinato, pesquisadora da educação física da USP, parte das reações às denúncias tem construído muros de negação do acontecimento, quando o melhor seria que o episódio servisse para criar pontes de reflexão e transformação.

“Temos que entender que não dá para ter racismo no esporte, e precisamos refletir isso em atitudes. As discussões estão muito em quem é culpado", afirma.

Ela diz que a exigência de retidão dos movimentos própria da modalidade contribui para criar esse ambiente. "Talvez, o retorno da credibilidade da ginástica e do esporte perpasse isso: uma necessidade de regenerar-se, ressignificar conceitos do que é o atleta, o corpo dele, o treinamento, a formação do atleta e do treinador”.

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