Bielsa não desvia de seu caminho para saciar sede, nem na Premier League

Técnico argentino do Leeds foi afagado por Guardiola e ex-companheiros após empate com City

Rory Smith
Leeds | The New York Times

O lugar em que a cena foi filmada em “The Damned United” [“Maldito Futebol Clube”] é um terreno baldio, hoje e já há algum tempo: um pedaço de terra à beira da Eland Road, reservado há muito tempo para um projeto imobiliário qualquer.

Antes que ele fosse isolado por cercas de segurança, com um par de escavadeiras desocupadas servindo como sentinelas ociosas, o terreno foi um estacionamento, e antes disso foi o centro de treinamento do Leeds United.

E foi aqui que, no começo de sua passagem paranoica, vingativa e malfadada como treinador do Leeds Unted, Brian Clough –ou melhor, Michael Sheen no papel de Clough– reuniu a equipe de jogadores vitoriosos em campos internacionais que haviam sido seus inimigos por muito tempo, mas tinham se transformado em seus empregados, para todos os efeitos, e fez seu discurso.

“No que me toca, vocês podem jogar todas as suas medalhas e flâmulas e taças e panelas na maior lata de lixo que encontrarem’ disse Clough, pelo menos na cena imaginada por David Peace, o autor do livro no qual o filme se baseia. “Porque vocês jamais venceram esses títulos de modo justo."

Esse discurso —com o qual, pelo menos no relato de Peace, Clough atacou a atitude famosamente liberal de sua nova equipe quanto ao uso da violência em busca da vitória, uma brutalidade que havia valido ao time o apelido “Dirty Leeds” [Leeds Sujo]— é interpretado no filme como o início do declínio. Passados 44 dias, Clough foi demitido pelo Leeds United.

Em 1974, foi um escândalo e uma sensação, e uma fonte de recriminações amargas. Com a passagem do tempo, parte da inimizade se atenuou, parte da história se abrandou, e o acontecido aos poucos foi incorporado ao mito e ao folclore não só de Clough, mas do Leeds.

Embora aquele possa ter sido o momento que condenou Clough ao fracasso no Leeds —e condenou o Leeds a perder o homem que ainda, 16 anos depois de sua morte, continua a definir o culto do futebol inglês ao “manager” [treinador com poderes de contratação de jogadores]—, em algum lugar por sob toda a acidez e provocação, a mensagem de Clough continha um grão de uma verdade maior.

O esporte, como ele disse, não gira só em torno daquilo que você ganha, mas também da maneira pela qual você joga. Não é uma crença que normalmente receba muito oxigênio no moderno complexo industrial do esporte. Os resultados imperam. Ficar parado é fracassar, e fracassar é intolerável. Tudo mais, como José Mourinho sempre faz questão de nos dizer, é sofisma.

Como então explicar a estima —que beira a idolatria— que tantos de seus colegas sentem por Marcelo Bielsa, um treinador que admite francamente que descrever sua lista de títulos não requer muito tempo e que, até algumas semanas atrás, não havia vencido qualquer taça à frente de um time desde 1998?

Afinal, foi Bielsa a quem Pep Guardiola fez uma peregrinação para visitar antes de iniciar sua carreira como treinador. Foi com Bielsa que ele ficou acordado por 12 horas falando sobre futebol, por sobre as brasas de um “asado” no interior da Argentina. Era Bielsa que, como disse Guardiola a um amigo, “mais sabia sobre futebol”.

Guardiola é um esteta, é claro, mas é um sujeito tão implacável, tão ambicioso e tão faminto de sucesso quanto Mourinho. Mas por acaso acredita que um futebol bonito, de toque de bola, é a melhor maneira de vencer. Ao longo dos anos, ele acumulou provas consideráveis em favor de suas convicções: dois títulos de Champions League, uma pilha de títulos de campeonatos nacionais e copas de ligas, uma lista quase interminável de recordes.

Mas é Bielsa que ele considera “inspirador”, que merece a descrição de “pessoa que mais admiro no futebol”. Guardiola disse que “ele é único”, um par de dias antes de levar o seu Manchester City a Eland Road, no sábado. “Ele é o treinador mais autêntico, em termos de como conduz os seus times."

Bielsa quer vencer tanto quanto Mourinho. Mas acredita, como Guardiola, que um futebol aventuroso oferece um caminho melhor para o sucesso do que a cautela. E ele sabe, como Clough sabia, que a maneira pela qual você joga importa tanto quanto as vitórias.

Houve um momento revelador, não muito depois do apito final em Eland Road na noite de sábado. Leeds e Manchester City haviam batalhado e chegado um empate por 1 a 1. Foi um jogo exatamente como se esperava: incansável, absorvente e eletrizante, repleto dos floreios, ideias e experiências que o futebol inglês no passado teria visto como heresias, como uma espécie de invasão alienígena, mas que agora, graças em boa medida a Guardiola e Bielsa, são vistos como o sistema de jogo mais avançado.

Quando o jogo acabou, Bielsa pausou por um momento antes de cumprimentar Guardiola. Eles trocaram algumas palavras, um sorriso, um tapinha no ombro. Por trás do treinador do City, uma fila estava se formando.

Bielsa agachado e Guardiola de pé na beira do gramado
Marcelo Bielsa e Guardiola comandam Leeds e Manchester City em jogo no último sábado - Paul Ellis - 3.out.20/AFP

Primeiro veio Lorenzo Buenaventura, o preparador físico do City; ele trabalhou com Bielsa na Copa do Mundo de 2002. Eles se abraçaram. Aymeric Laporte, zagueiro francês do time de Manchester, esperava a alguns passos de distância, mas ele em seguida também abriu um sorriso satisfeito ao cumprimentar Bielsa, o treinador que lhe sua primeira oportunidade, no Athletic Bilbao.

Depois, do banco, Benjamin Mendy veio para dar um tapinha no ombro de Bielsa. Eles trabalharam juntos no Marseille. O uso prolífico da mídia social por Mendy oferece um vislumbre da afeição que ele guarda pelo argentino.

Nenhuma dessas pessoas conquistou títulos ao lado de Bielsa. A Argentina foi eliminada na fase de grupos em 2002. O Athletic chagou a duas finais de copa e foi derrotado em ambas. O Marseille parecia estar a caminho de um título francês mas terminou o campeonato em quarto lugar. Mas nada disso parece ter maculado as lembranças das pessoas sobre Bielsa. Ele lhes deu algo tão memorável quanto medalhas: lembranças.

Talvez seja isso que Guardiola queira dizer com “autêntico”. Bielsa jamais se desviou de seu caminho para saciar sua sede, nem mesmo uma vez, ainda que seus times não tenham conseguido realizar o que ele planejava. As ideias dele continuam inalteradas, impolutas, íntegras. Porque o esporte não gira só em torno do que você vence. Também também a ver com como você joga.

Tradução de Paulo Migliacci

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