Djokovic assume riscos que propiciam espetáculos, bons e ruins

Sérvio é um dos raros atletas que permitem que as pessoas vejam porções maiores de sua persona

Matthew Futterman
The New York Times

Com Roland Garros se aproximando do fim, os olhos do tênis, pela primeira vez em anos, não estão voltados apenas para Rafael Nadal, 12 vezes campeão do torneio.

Novak Djokovic, o cabeça de chave número um, está em busca de absolvição, para fechar um ano no qual ele atraiu mais atenção por questionar a vacinação, contrair o coronavírus em um evento mal organizado, e perder a calma no US Open, o que resultou em sua exclusão do torneio.

Djokovic vinha dizimando seus adversários com eficiência cruel, antes que dores musculares no torso o fizessem perder um pouco de velocidade nas quartas de final contra Pablo Carreño Busta, na quarta-feira (7).

Djokovic venceu e depois superou Stefanos Tsitsipas em cinco sets na sexta-feira (9). Mas forehands e backhands não são o motivo para que ele atraia os holofotes, recentemente.

O mais jovem e menos previsível dos "Três Grandes" do tênis masculino –grupo que além dele inclui Nadal e Roger Federer—, o sérvio Djokovic, 33, é um exibicionista e adepto do tênis espetáculo, e os riscos que ele assume costumam mesmo propiciar espetáculos, tanto bons quanto ruins.

Essas qualidades parecem tê-lo ajudado em sua partida de quarta de final na quadra Philippe Chatrier, quando ele disparou farpas contra seu treinador e em dado momento soltou uma série de gritos primais ruidosos para se livrar do desânimo de que parecia estar sofrendo em certo período do jogo.

Ele não lidou tão bem assim com a situação três semanas atrás, em Nova York. Na quarta rodada do US Open, e também em um momento de frustração em jogo contra Carreño Busta, Djokovic acertou uma raquetada violenta na bola, que atingiu na garganta de uma fiscal de linha que estava a cerca de 12 metros de distância.

O incidente resultou em sua desqualificação do torneio e em promessas de se policiar melhor e de buscar o crescimento pessoal.

Diferentemente de seus colegas na elite do esporte, Djokovic há muito tempo se sente confortável com a ideia de que o público o veja como algo diferente de uma máquina do tênis, e se dispõe a aceitar as consequências.

“Não sou uma pessoa que gosta de separar a vida privada da vida profissional, e de dizer que sou um cara completamente diferente em quadra e em minha vida privada”, disse Djokovic na segunda-feira, depois de sua vitória na quarta rodada contra Karen Khachanov, da Rússia. “Acho que isso é muito difícil de fazer."

Federer exibiu um pouquinho de sua vida privada, o que é uma raridade, no segundo trimestre, no pico dos lockdowns na Europa, divulgando um vídeo que o mostrava mascarado e praticando jogadas de efeito contra uma parede na Suíça.

Djokovic, um dos raros atletas modernos que permitem que as pessoas vejam porções maiores de sua persona, produziu uma série de conversas desconexas em estilo de terapia New Age, com seu amigo e guia espiritual Chervin Jafarieh, tratando de uma ampla variedade de tópicos, entre os quais a importância das intenções e uma discussão –que causou problemas a ambos– sobre se a claridade espiritual pode tornar potável a água contaminada. (Não pode.)

Em quadra, Djokovic busca há anos o balanço perfeito entre controlar suas emoções e irreverência e exibir uma personalidade que se alterna entre momentos ferozes, sarcásticos e de autoanálise.

A questão é determinar se Djokovic precisa ser o atleta exibicionista e imprevisível que Federer e Nadal claramente não são, para jogar seu melhor tênis –mesmo que isso lhe cause problemas às vezes.

“Tudo é um aprendizado”, disse Djokovic sobre sua mentalidade em quadra. “É bem sério. Às vezes você se diverte com o que acontece. Às vezes fica frustrado."

A elite do esporte em geral tolera Djokovic por conta de seu tênis sublime e por ele sempre atrair a atenção do público, mesmo durante o lockdown.

Enquanto Nadal mantinha a discrição e Federer se limitava a divulgar o vídeo que o mostrava treinado sozinho, Djokovic decidiu iniciar o que ele chama de “projeto de autodomínio”, com Jafarieh, “meu irmão por outra mãe”, como o tenista o descreve.

Jafarieh, antigo executivo imobiliário e de fundos de hedge que agora comanda uma empresa que vende suplementos de nutrição, é uma espécie de “life coach”, guia espiritual e fonte de afirmação, para Djokovic.

Jafarieh não respondeu a um pedido de entrevista.

Os vídeos de baixa tecnologia que eles postam estão repletos de “lags”, defeitos de imagem, câmeras oblíquas. Djokovic claramente não ensaia sua parte, e é sempre inquisitivo, passional e propenso a embarcar em discussões que oscilam em direção a destinos difíceis de definir.

Essa paixão pode ser uma faca de dois gumes. Foi o que o levou a organizar a Adria Tour, uma série de partidas de exibição realizadas em Belgrado, Sérvia, em junho, quando o índice de contágio pelo coronavírus continuava elevado. Djokovic e seus colegas lotaram estádios, e não respeitaram muito as regras de distanciamento social.

Poucos dias depois dos jogos, Djokovic e três outros tenistas conhecidos foram apanhados como portadores do coronavírus em seus exames médicos. Os jogos adicionais que seriam realizados como parte da série foram cancelados.

E no US Open, em Nova York, no mês passado, Djokovic se tornou o primeiro cabeça de chave número um a ser desqualificado de um torneio de Grand Slam na história do tênis profissional moderno. Irritado por estar jogando de forma descuidada, Djokovic apanhou uma bola no bolso e a disparou com a raquete para trás de onde estava, sem intenção de atingir a fiscal.

Horrorizado e embaraçado pelo que fez, Djokovic correu na direção dela quando ela caiu no chão. O tenista pediu que os dirigentes do torneio não o desqualificassem, mas sabia que eles não tinham muita escolha.

Djokovic foi embora do Billie Jean King National Tennis Center imediatamente, e uma hora mais tarde divulgou um pedido de desculpas veemente à fiscal de linha e à direção do US Open, e prometeu que a experiência o levaria a crescer “como jogador e como ser humano”.

Djokovic disse na quarta-feira que não está pensando nem um pouco naquele momento desagradável no US Open. “Zero por cento”, ele disse.

Mas na segunda-feira, uma de suas tentativas de responder a um saque ricocheteou em sua raquete e atingiu outro fiscal de linha no rosto.

Ele imediatamente começou a pensar de novo em Nova York, e correu para garantir que o juiz de linha estava bem.

“Meu Deus”, ele disse, “foi um déjà vu muito desagradável". E mais um momento que vai entrar para a lista de imagens marcantes de sua carreira.

Tradução de Paulo Migliacci

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