Agente português é o grande vencedor do mercado da bola na pandemia

Jorge Mendes, que cuida das carreiras de Mourinho e Cristiano Ronaldo, parece ignorar crise

Tariq Panja
The New York Times

A economia do futebol está balançando. A cada semana parece surgir um número novo e estonteante para destacar o aperto financeiro que o setor vem enfrentando como resultado da pandemia do coronavírus.

Mais de 115 milhões de dólares em prejuízo só no Barcelona (cerca de R$ 643 milhões). Centenas de milhões de dólares adicionais em restituições aos detentores dos direitos televisivos. Na Europa, o prejuízo total deve chegar a US$ 4,5 bilhões (R$ 25 bilhões).

Mas a crise também criou alguns vencedores. Entre os maiores está Jorge Mendes, empresário e agente de jogadores português que pelas duas últimas décadas vem recebendo uma fatia suculenta dos US$ 7 bilhões (R$ 39 bilhões) que o mercado de transferências movimenta a cada ano. Este ano, a despeito do colapso do futebol, Mendes parece estar se saindo ainda melhor do que no passado.

Na janela de transferências que se fechou na noite de segunda-feira na Europa, Mendes enviou Rúben Dias do Benfica para o Manchester City por US$ 80 milhões (R$ 447 milhões) e o substituiu no time português por outro de seus clientes.

Ele facilitou a saída de James Rodríguez, que estava esquentando o banco no Real Madrid, e encontrou um papel estelar para ele no Everton, e organizou as transferências do lateral irlandês Matt Doherty ao Tottenham –US$ 20 milhões (R$ 112 milhões)– e do atacante português Diogo Jota ao Liverpool –US$ 53 milhões (R$ 296 milhões).

E enquanto concluía essas duas últimas vendas, o prestativo Mendes persuadiu o Wolverhampton a gastar parte do dinheiro que recebeu contratando outros clientes de sua agência: o time substituiu Doherty por Nelson Semedo, outro dos clientes de Mendes, e usou a maior parte do dinheiro da venda de Jota para recrutar dois talentos em ascensão, vindos do FC Porto, em transações intermediadas por Mendes.

No quadro geral, de contratações que passam despercebidas a transferências que geram manchetes, Mendes deixou sua marca no futebol europeu uma vez mais. As transações desta janela resultaram em centenas de milhões de dólares em vendas de jogadores, e –o que talvez seja mais importante para Mendes e sua agência, Gestifute– dezenas de milhões de dólares em comissões.

“Parece que a crise não o afeta”, disse Pippo Russo, autor de um livro que acompanhou a ascensão de Mendes de gerente de uma casa noturna portuguesa a uma das figuras mais influentes do futebol. “Podemos afirmar que a rede de poder econômico de Jorge Mendes resistiu ao coronavírus. É como se ele fosse a vacina."

Permanentemente bronzeado, vestido impecavelmente e quase sempre equipado com um par de fones de ouvido brancos reluzentes para lidar com os telefonemas ininterruptos que recebe, Mendes nunca tem folga, e jamais interrompe seus esforços para cultivar novos espaços que podem resultar em transações ainda mais polpudas. O modelo de negócios de Mendes tem por base os relacionamentos, e a janela de transferência recém-encerrada o viu aproveitá-los com toda a força.

Operando agilmente em um mercado instável, Mendes trabalhou tanto com clubes fragilizados financeiramente, que estavam procurando acertar suas contas, quanto com as poucas equipes dotadas de caixa irrestrito, que percebiam oportunidades em meio às incertezas financeiras.

As raízes de seu negócio estão fincadas com tamanha força, hoje, que em alguns casos ele e sua empresa estavam representados em todas as partes envolvidas –clube comprador, clube vendedor e atleta– em uma determinada transação.

Em um exemplo recente, a transferência do lateral direito Doherty, 28, do Wolverhampton ao Tottenham, Mendes orientou todas as partes do negócio.

O Wolves, vejam só, é controlado pelo Fosun International, um conglomerado chinês que é dono de uma participação minoritária na Gestifute. E Doherty, que assinou com Mendes no começo do ano para que ele gerenciasse sua carreira, deixou um clube cujo treinador foi o primeiro cliente de Mendes, Nuno Espírito Santo, e passou a defender um clube treinado por um dos clientes mais famosos do agente, José Mourinho.

O relacionamento do Wolverhampton com Mendes foi causa de escrutínio no futebol inglês, com times rivais se queixando dos elos estreitos entre ele e o Fosun, e entre o agente e Espírito Santo e diversos dos jogadores do elenco.

Uma investigação da Football League, que responde pelas três divisões profissionais do futebol inglês abaixo da Premier League, constatou que não havia violações na forma pela qual o Wolverhampton –reforçado por um grupo de jogadores portugueses ligados a Mendes– conquistou acesso à principal liga da Inglaterra em 2018.

Mas ligações de Mendes com o clube, e com outros clubes, são profundas. O Wolverhampton e Mendes também tiveram posição central em duas transações curiosas nos últimos meses, envolvendo o campeão português Porto, cujas conexões com o agente já duram mais de uma década.

À beira de um colapso financeiro, e com grandes dívidas próximas do vencimento, o Porto se voltou a Mendes para encontrar compradores para alguns de seus jovens astros em ascensão.

Em uma façanha da alquimia que Mendes parece ter aperfeiçoado, ele convenceu seus parceiros chineses do Fosun a pagar um total que pode chegar a US$ 70 milhões (R$ 391 milhões) por dois jovens muito bem avaliados, mas ainda inexperientes: o meio-campista Vitor Ferreira, 20, conhecido como Vitinha, e Fábio Silva, 18, um atacante.

Um quarto dos 40 milhões de euros (cerca de R$ 262 milhões) pagos pela transferência de Silva se destinava a comissões de agentes, informou o Porto, e o grosso desse dinheiro foi para Mendes.

O tamanho da comissão de Mendes pela transferência de Silva chamou a atenção, e é consideravelmente superior à média do setor, mas não é incomum. No ano passado, quando Mendes intermediou a transferência do adolescente João Felix do Benfica ao Atlético de Madrid, ele supostamente faturou US$ 35 milhões (R$ 196 milhões) sobre a transação de US$ 138 milhões (R$ 772 milhões).

Foi mais um sinal de que, não importa que medidas a Fifa tome para restringir os excessos no mercado de transferências, os operadores mais astutos sempre são capazes de gerar retornos estratosféricos.

O Porto, que é regulamentado pelo mercado de ações português, se recusou a explicar por que havia aceitado pagar 25% do preço de venda de Silva em comissões.

Um porta-voz de Mendes se recusou a comentar sobre quaisquer transações do agente, passadas ou atuais, e afirmou que Mendes jamais discute seus negócios publicamente.

Mendes raramente concede entrevistas, mas em 2017 teve de explicar como seu negócio funcionava em uma audiência em um tribunal espanhol, país em que as autoridades acusaram diversos de seus clientes, entre os quais Cristiano Ronaldo e Mourinho, de sonegação de impostos. A maioria dos casos foi resolvida por meio de admissões de culpa e pagamento de multas.

Mendes disse ao tribunal que nada sabia sobre os arranjos tributários de seus clientes, afirmando que contratava profissionais para lidar com esse tipo de coisa. O foco dele, disse, era puramente orientar as carreiras dos jogadores.

“Dedico-me apenas a isso, a tentar encontrar as melhores soluções para meus jogadores, e passar um ano é como passar um minuto”, ele disse, de acordo com reportagens publicadas na época. “Tento dedicar meu tempo à minha família e passo a vida trabalhando; fico no telefone até a meia-noite.”

Este ano, mesmo com o futebol paralisado, Mendes continuou a trabalhar. Ele ainda é o agente que sempre tem uma solução, desde que os clubes sejam capazes de arcar com seus honorários.

Tradução de Paulo Migliacci

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