Iker Casillas guarda memórias de goleiro com '98% de precisão'

Campeão do mundo e ídolo do Real Madrid descobriu problema no coração no ano passado

Rory Smith
The New York Times

​Ocasionalmente, em momentos de descontração no centro de treinamento do Real Madrid, Iker Casillas era convidado a mostrar seu truque especial. Um colega de time ou alguém da comissão técnica mencionava a data de uma partida que ele tinha jogado e o nome de um adversário: 5 de janeiro de 2002, Deportivo La Coruña. Casillas fazia uma breve pausa. E em seguida disparava o placar do jogo.

De acordo com sua estimativa muito específica, ele acertava cerca de 98% das vezes. Se considerarmos o contexto, é um índice de sucesso impressionante. A categoria “jogos disputados por Iker Casillas” é extensa, mesmo para ele. Sua carreira passou por três décadas e dois séculos. Entre o Real Madrid, o Porto e a seleção espanhola, ele disputou mais de mil jogos.

Em um mundo ideal, essa lista ainda estaria crescendo. Casillas anunciou sua aposentadoria em agosto, aos 39 anos. Não teve muita escolha. Em maio de 2019, durante uma sessão de treino no Porto, ele sentiu dores no peito, boca e braços. Os médicos do clube o levaram ao hospital, e foi só depois da cirurgia que ele foi informado de que havia sofrido um ataque cardíaco.

Casillas ergue a taça da Champions League 2013/14, conquistada pelo Real Madrid sobre o rival Atlético de Madrid
Casillas ergue a taça da Champions League 2013/14, conquistada pelo Real Madrid sobre o rival Atlético de Madrid - Franck Fife - 24.mai.14/AFP

Enquanto se recuperava, ele pensou sobre voltar aos gramados. Estava curtindo sua passagem por Portugal, apreciando a “tranquilidade” que encontrou lá no outono de sua carreira. Casillas continuou a fazer parte do elenco do Porto na temporada passada. E alguns meses depois do ataque cardíaco, retomou o condicionamento físico.

Mas a opinião dos médicos não demorou a se tornar clara. “Os médicos disseram que o melhor que eu poderia fazer era parar”, disse o goleiro. É difícil para um atleta largar o esporte, abandonar o campo –afinal, o esporte é tanto uma identidade quanto um emprego, nas palavras de Casillas—, mas ele também é marido, e pai de dois filhos pequenos. “Havia um risco”, ele disse. “E, se existe risco, seria absurdo prosseguir.”

E por isso, agora só lhe restam as memórias: vívidas, reluzentes e 98% corretas, e não só quanto aos placares dos jogos, mas quanto às sensações.

Ele se recorda do que estava pensando quando caminhou para receber a taça em Viena, em 2008, nos poucos segundos antes que a Espanha fosse coroada como campeã da Europa, a primeira grande conquista internacional da seleção de seu país desde 1964. “Nós conseguimos acabar com a maldição que existia sobre o futebol espanhol”, disse Casillas.

Ele também se lembra de como a mesma caminhada pareceu normal, dois anos mais tarde, no estádio Soccer City, em Joanesburgo, depois que o gol de Andrés Iniesta deu à Espanha o título mundial. “Foi histórico, mas não é algo a que você dê valor no momento”, disse Casillas. “Você pensa que é normal. Ganhamos a Euro, ganhamos a Copa do Mundo, somos um time forte.”

Casillas levanta o troféu do bicampeonato da Eurocopa conquistado pela Espanha, em 2012, após bater a Itália na final, em Kiev, na Ucrânia
Casillas levanta o troféu do bicampeonato da Eurocopa conquistado pela Espanha, em 2012, após bater a Itália na final, em Kiev, na Ucrânia - Kai Pfaffenbach - 1º.jul.12/Reuters

E ele se recorda do bicampeonato espanhol na Euro em 2012, da sensação de que o time poderia ter jogado “contra o Globetrotters ou o Dream Team da Olimpíada de 1992 e teria vencido”.

São memórias reais, ele disse, e não fantasmas de memórias, memórias de fotografias, compostas, empilhadas e compactadas ao longo do tempo. E uma benção, claro, recordar com tamanha clareza todos aqueles pontos altos: os troféus conquistados e os triunfos obtidos, pelos seus clubes e pela seleção. Mas essa benção vem acompanhada por uma maldição, porque Casillas também se lembra das derrotas, com a mesma precisão. Sua memória, afinal, funciona igualmente bem quanto a coisas que ele preferiria esquecer.

Poucos dias antes de nossa conversa, Casillas indicou no Twitter um vídeo da conta oficial da Champions League da Uefa. Era uma montagem sobre seu desempenho em Anfield, em 2009, quando ele capitaneou o Real Madrid contra o Liverpool nas oitavas de final do torneio. Não foi difícil perceber o motivo para que o vídeo estivesse em destaque: Casillas fez uma série de defesas espetaculares, bloqueando sucessivas finalizações de Steven Gerrard e Fernando Torres.

O que não foi mencionado –e o fato que torna curiosa a recomendação de Casillas quanto ao vídeo– é o placar. O Liverpool venceu por 4 a 0. A torcida no estádio aplaudiu Casillas de pé, mas tanto os torcedores quanto o goleiro sabiam que “o Liverpool poderia ter feito 12 gols”. Ele deixou o campo com lágrimas nos olhos.

“Era uma cara de impotência, não de raiva”, ele disse. “Fiquei frustrado, triste. Aquele resultado significava que o Real completaria sete anos sem ir à final da Champions League. Você pode perder um jogo, em partidas de ida e volta. Perdemos a primeira partida por 1 a 0. Todos os torcedores do Real Madrid em Liverpool, e em todo o mundo... Eu sentia sua frustração”. A despeito de seu desempenho heroico, Casillas também sentia uma enorme “responsabilidade”.

Ele sentia aquela responsabilidade desde os oito ou nove anos de idade, quando começou a jogar pelo seu time de infância. E se acostumou a ela, começou até a apreciá-la, mas ainda assim o sentimento era um peso para ele.

Fernando Hierro, que foi seu colega de time, costumava dizer que um ano no Real Madrid equivale a cinco anos em outro clube. Às vezes, disse Casillas, a sensação dele era de que estava no clube há meio século. “A pressão é constante”, afirmou.

O goleiro espanhol segura o troféu da Copa do Mundo de 2010, vencida pela Espanha
O goleiro espanhol segura o troféu da Copa do Mundo de 2010, vencida pela Espanha - Javier Soriano - 11.jul.10/AFP

Especialmente se considerarmos aquilo que ele experimentou no auge de sua carreira. Nos anos em que ergueu todos aqueles troféus, em que rompeu todas aquelas barreiras para a Espanha, sua carreira no clube foi consumida pela rivalidade mais intensa que oi futebol há conheceu: Real Madrid contra Barcelona; Cristiano Ronaldo contra Lionel Messi; José Mourinho contra Pep Guardiola e Tito Vilanova.

Não admira, portanto, que por volta de 2015 Casillas estivesse pronto para mudar de ares. Seu relacionamento com o Real Madrid havia mudado. Ele admitiu que em determinado momento se sentiu “sozinho”, ao ser ignorado por Mourinho e mais tarde cortado pelo presidente do clube, Florentino Pérez. Ele viu no Porto a oportunidade de encontrar “alguma paz”.

“Eu precisava estar calmo para poder apreciar o futebol de novo”, disse Casillas. “Não gostava de me ver na imprensa todos os dias, ou em meio a certas discussões. A melhor opção era sair, mesmo que aquele fosse o lugar onde cresci, o lugar que foi meu lar, o lugar em que tanta gente sofreu comigo. Eu não queria aquela angústia. Queria sentir menos medo.”

Para o ex-goleiro, o futebol gira em torno de memórias: não os placares, necessariamente, mas as sensações. Os jogadores que tem em mais alta estima são aqueles que jogaram mais partidas, duraram mais tempo –ele menciona Paul Scholes e Francesco Totti–, aqueles que gravaram seu nome a fogo na história de um clube.

Ele gosta daqueles momentos em que torcedores lhe contam onde estavam quando a Espanha ganhou a Copa do Mundo ou o que estavam fazendo quando ele saiu do banco, pouco mais que um adolescente, para conquistar sua segunda Champions League.

“Acontece quando você vai ao parque, ao restaurante, ou encontra uma pessoa espanhola no exterior”, disse. “Eles se lembram de onde estavam: se casando, ou assistindo a um jogo com os filhos. Esses momentos deixam marcas em todos nós. E adorável saber que sou lembrado.”

O goleiro espanhol em seu primeiro ano pelo Porto, após 16 temporadas no Real Madrid
O goleiro espanhol em seu primeiro ano pelo Porto, após 16 temporadas no Real Madrid - Miguel Vidal - 15.ago.15/Reuters

Tradução de Paulo Migliacci

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