Descrição de chapéu

Jordan e LeBron podem ser comparados, e escolha se torna pessoal

Nostalgia muitas vezes confunde, mas emoção do ao vivo também toma conta da razão

Gustavinho Lima

Após Lebron James, 35, conquistar seu quarto anel de campeão da NBA pela terceira franquia diferente (Miami Heat, Cleveland Cavaliers e agora Los Angeles Lakers), para muitos ele entra definitivamente na discussão de quem foi o melhor jogador da história, ao lado de Michael Jordan.

MJ, 57, era um jogador sem dúvida à frente do tempo. Atlético, competidor, preciso, plástico e decisivo, mudou o jeito de se jogar basquete.

Há realmente uma dificuldade de se comparar jogadores de diferentes eras, mas nesse quesito acredito que Jordan jogaria com exatamente o mesmo impacto no basquete atual.

Vestindo a camisa 23 do Chicago Bulls, quebrou inúmeros recordes em pontos. O fato de nunca ter perdido uma final, 6 vitórias em 6 decisões, é argumento sólido para que seja visto como o melhor da história da bola laranja.

Jordan, com a língua de fora, tenta passar pelo marcador
Michael Jordan nas finais da NBA em 1997, contra o Utah Jazz - Vincent Laforet - 4.jun.97/AFP

Dominante de ambos os lados da quadra, é o único jogador a ser eleito melhor defensor do ano e cestinha da competição na mesma temporada. Registra a maior média de pontos da história da NBA, com 30,1, e conseguia ser ainda mais decisivo nos playoffs, com média de 33,4.

Jordan tinha o faro da cesta, e dificilmente esses recordes de pontuação vão ser quebrados, porém Lebron James vem mantendo a longevidade há mais tempo.

O astro dos Lakers é o jogador que mais pisou em quadra e o maior cestinha da história dos playoffs, com 7.431 pontos. Faz de tudo dentro de quadra e, na fase de mata-mata, consegue a proeza de estar entre os dez primeiros em praticamente todos os fundamentos.

LeBron com o uniforme amarelo dos Lakers segura a bola
LeBron James levou o Los Angeles Lakers ao título em sua segunda temporada na equipe - Kateyln Mulcahy - 3.mar.20/AFP

Passou recentemente o símbolo do armador de ofício, John Stockton, e agora é o segundo em total de assistências, perdendo só para Magic Johnson. Nas bolas de três, quesito em que é frequentemente criticado, também está na vice-liderança, atrás apenas de Stephen Curry.

Evidentemente, estamos falando do hall dos gênios, que deveríamos somente elogiar, mas o que acaba acontecendo muitas vezes é o descredenciamento de um para promover o outro.

Eles podem sim ser comparados, mas nunca menosprezados. São ícones que inspiraram gerações e merecem o máximo respeito.

A escolha se torna pessoal. A nostalgia muitas vezes pode confundir a memória, mas a emoção do ao vivo também pode tomar conta da razão.

O ponto que gera mais discórdia é capacidade de decidir jogos. Jordan tem a incrível marca de nove bolas vencedoras (que definem o placar) nos últimos segundos.

Na dinastia dos Bulls nos anos 1990, todos sabiam para quem iria a bola, e mesmo assim era quase impossível brecá-lo.

Kobe Bryant, que bebeu exatamente da mesma fonte e imitou os movimentos de MJ com perfeição, é o segundo maior em poder de definição, com oito bolas decisivas.

LeBron paga o preço por seguir o seu próprio caminho e coleciona detratores por muitas vezes não tentar a última bola do jogo. Acontece que sendo esse jogador faz-tudo, costuma atrair a atenção dos defensores e precisa tomar a melhor decisão, quase sempre deixando um companheiro totalmente livre para tentar ganhar a partida.

Esse tema voltou à tona no jogo cinco das finais, quando LeBron bateu para dentro da defesa, chamou três marcadores do Miami Heat com ele e achou Danny Green solto na linha de três para dar o título para Los Angeles.

Green é o sétimo em bolas de três na história dos playoffs e já possuía dois anéis de campeão (agora três), porém não converteu. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de senso coletivo sabe que o passe foi uma ótima escolha. Um gesto que demonstra confiança na sua equipe de trabalho.

Há teorias de que a motivação para Jordan liberar as filmagens que se tornariam a espetacular série “The Last Dance” foi o terceiro título conquistado por LeBron, no Cleveland Cavaliers, e os questionamentos de que talvez ele já tivesse ultrapassado o ex-jogador.

O documentário tem registros belíssimos e narra toda a saga do possivelmente maior time de basquetebol da história e seus seis títulos conquistados. MJ surge no sofá da sala com uma franqueza inédita, mas, como é um dos produtores do filme, a intenção não é só reviver a última dança, mas também lembrar o mundo de quem é o verdadeiro GOAT (sigla pra melhor de todos os tempos).

Cena de Michael Jordan em The Last Dance
Cena de Michael Jordan em The Last Dance - Netflix/Reprodução

No meu caso, não precisaria nem dos dez capítulos para recordar. Talvez seja aquela dose de nostalgia que mencionei, mas para mim Jordan ainda é insuperável dentro das quatro linhas.

Cresci vendo Mike nos anos 1990 e me tornei jogador profissional muito inspirado pelo seu legado.

O maior jogador de basquete do planeta na atualidade também sofreu essa influência. LeBron James usa o numero 23 justamente em homenagem ao ídolo de Chicago, o que é muito significativo.

Michael virou astro do filme Space Jam, e Lebron será protagonista da continuação Space Jam 2.

Hoje meu maior ídolo no esporte é o camisa 23 dos Lakers, por tudo o que faz em quadra e por ser um líder na luta por justiça social, engajado no movimento negro e um grande incentivador da reforma educacional. Ele é a mudança e conscientiza tantas pessoas pelo mundo.

A discussão de quem foi melhor é extremamente válida, e respeito quem diz ser LeBron —até porque, vai que MJ fica ressabiado com isso e resolve soltar o "The Last Dance" parte 2.

Poder ter desfrutado por tanto tempo dessas duas lendas é o real privilégio que temos que entender, agradecer e curtir antes que acabe. Menos julgamento e mais apreço pela história.

Outro deus do basquete, que faz uma falta enorme, sintetizou bem do que se trata esse debate. “Heróis vem e vão, mas lendas são para sempre”, definiu Kobe Bryant.

Gustavinho Lima foi jogador profissional de basquete por 17 anos, de 2002 a 2019. No NBB, passou por clubes como Pinheiros, Mogi das Cruzes, Caxias do Sul, Basquete Cearense e Corinthians. Atualmente é supervisor do time sub 19 do Corinthians e apresentador do Diquinta Podcast

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