Por bi mundial e Olimpíada, Italo Ferreira não para nem em ano perdido

Surfista planeja início forte de temporada em dezembro, após cancelamento da edição 2020

São Paulo

Italo Ferreira, 26, é um homem agitado. Na última semana de 2019, após conquistar o título mundial de surfe, o brasileiro encarou seu último compromisso profissional da temporada, uma entrevista coletiva, e tirou alguns dias de descanso.

Entretanto, a pausa não chegou a completar uma semana inteira, e Italo já estava treinando novamente, de olho em um ano especial para a sua carreira, com a possibilidade do bicampeonato mundial e a disputa da Olimpíada de Tóquio.

O adiamento dos Jogos Olímpicos, porém, forçou ele e todo o circuito de surfe a uma mudança de planejamento. Mas enquanto as autoridades da Liga Mundial de Surfe montavam o novo calendário, o potiguar não parou.

No Rio Grande do Norte, o filho ilustre de Baía Formosa ajudou famílias durante o período de isolamento social, levou seus pais para dentro de casa a fim de cuidá-los e seguiu treinando. Em busca de ondas maiores, foi a Saquarema, no Rio de Janeiro, onde também produziu conteúdo para seus patrocinadores.

Somado à pré-temporada que pôde realizar antes da pandemia, com viagens às Maldivas, ao Havaí e a Portugal, o período de atividade constante manteve Italo confiante para encarar 2021.

"Do fim do ano para cá, eu não parei. Depois que a poeira começou a baixar, fui para Saquarema duas vezes seguidas pegar ondas mais pesadas, fiz bons treinos e evoluí meu surfe. Eu estou sempre na atividade. Isso é bom porque eu mantenho meu ritmo e, quando começarem as competições, acredito que estarei um passo à frente dos adversários", diz o campeão mundial à Folha.

Com os cancelamentos de provas impostos pela Covid-19, a Liga Mundial de Surfe decidiu cancelar a temporada 2020 e planejou a retomada do circuito para dezembro deste ano, com final previsto em setembro de 2021.

O modelo de disputa será diferente da temporada passada. Os cinco melhores surfistas ao longo das nove primeiras etapas ganharão classificação a um playoff final, que decidirá o campeão —essa etapa decisiva ainda não tem local definido.

Em meio ao circuito, haverá a Olimpíada de Tóquio, na qual o surfe fará sua estreia no evento.

Italo sonha com a medalha olímpica, mas não quer abrir mão de tentar o bicampeonato mundial em seu melhor momento na carreira. Por isso, planeja começar forte o circuito e garantir bons resultados logo no início, para dosar a carga assim que os Jogos Olímpicos se aproximarem.

"Quando chegar a Olimpíada, eu vou dar um pouco mais de atenção umas semanas antes, dar uma desacelerada no circuito mundial por causa das lesões. Eu tento sempre dar 100% e às vezes me machuco, como no ano passado", afirma o brasileiro, que na etapa de Bali, em maio de 2019, surfou com uma lesão no tornozelo.

"Competir por tudo é um pouco de ambição também, um desejo que é muito grande e por isso que eu não parei até hoje. Quando eu chegar lá, no fim das competições, vou ver o quanto me dediquei e fazer valer a pena todo o esforço."

O potiguar sempre diz que não gosta de prestar atenção no adversário. Isso, pensa o atleta, tira o foco de seu próprio surfe. Por isso, Italo Ferreira prefere às vezes não assistir aos seus rivais na água.

Em Pipeline, a etapa decisiva do ano passado, Italo descobriu que havia assegurado uma vaga nos Jogos Olímpicos quando o chamaram pelo celular para avisá-lo. Enquanto os surfistas disputavam a terceira rodada, na qual foi definida a sua classificação graças à derrota do compatriota Filipe Toledo, ele estava com amigos e a namorada na praia de Waikiki.

Na semifinal, que disputou contra o norte-americano Kelly Slater, ele conta que evitou olhar diretamente nos olhos do onze vezes campeão mundial. Faz parte do seu comportamento, de se fechar no seu mundo e pensar apenas na sua performance.

O que não o impede de reconhecer que outros surfistas têm qualidades que ele precisa aprimorar. É o caso do desempenho nas ondas tubulares.

Italo Ferreira surfa em Baía Formosa, sua cidade natal 
Italo Ferreira surfa em Baía Formosa, sua cidade natal  - IF15 Sports/Divulgação

"Kelly [Slater], John John [Florence], Owen [Wright], o próprio Gabriel [Medina] são muito bons em onda tubular. Por isso que estou me dedicando nessa área. Eu vim de um lugar que a onda não é tão legal, ela é pequena e só dá quando tem vento. Tem caras que eu acredito que são bem melhores que eu e por isso estou buscando evoluir sempre. O resto é não me preocupar com os adversários e ir para cima", analisa Italo, que aproveitou as viagens a Portugal e Saquarema para aprimorar esse aspecto.

Apesar de ignorar o que seus concorrentes estão fazendo, o atleta inevitavelmente é colocado ao lado de Gabriel Medina como favorito para a medalha de ouro em Tóquio. Afinal, são os últimos dois campeões do mundo, que podem voltar a brigar por um título depois da final em Pipeline, que consagrou Italo Ferreira como o melhor surfista da última temporada.

"Se a gente não se encontrar em uma chave nas quartas de final ou numa semi, é provavel que aconteça novamente [uma disputa por título]. Vai ser interessante ter outro brasileiro na final. É isso que me move, a gente tem os melhores atletas do circuito mundial. Gabriel, Filipe... Não é que eu tento ser melhor que eles, mas tento mostrar para mim mesmo que eu consigo. E é bom ter essas pessoas como inspiração", completa.

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