Quase aniversariantes, Pelé e Maradona dividem glórias, problemas e rivalidade

Brasileiro completa 80 anos nesta sexta (23), e argentino faz 60 na próxima (30)

São Paulo

Para comemorar os 50 anos de Pelé, a CBF organizou um amistoso da seleção brasileira contra uma equipe batizada de "Resto do Mundo", com atletas de diversos países. O jogo aconteceu em 31 de outubro de 1990, em Milão, na Itália, oito dias após o aniversário do Rei do Futebol. Havia uma surpresa programada: a participação de Diego Maradona, então astro do Napoli.

Pelé e Maradona em evento de fabricante suíça de relógios que patrocina os dois ex-jogadores, em 2016
Pelé e Maradona em evento de fabricante suíça de relógios que patrocina os dois ex-jogadores, em 2016 - Patrick Kovarik-9.jun.16/AFP

Segundo pessoas ligadas a Pelé na época, ocorreu uma negociação intensa nos dias que antecederam ao evento. Na véspera da partida, houve acordo sobre o cachê de Maradona. Mas ele tinha uma última demanda: entrar na partida no início do segundo tempo, no lugar do brasileiro. Seria como uma passagem de cetro de um rei para o outro.

Pelé não gostou. Disse que a festa era para ele, não para o argentino e vetou a ideia. Perdeu-se a única chance de ver Maradona com a camisa amarela do Brasil.

Desde o final da década de 1970, quando Diego surgiu como fenômeno argentino, a trajetória dos dois se cruzam. No início, de maneira harmoniosa. A partir do início deste século, com conflitos.

Pelé chega aos 80 anos nesta sexta (23). Maradona completa 60 no próximo dia 30. Ambos convivem com problemas de saúde e questões familiares. Permanecem idolatrados e eternos rivais.

"Até mais ou menos 1998, o Maradona era visto como herdeiro do Pelé, não como rival. Nos anos 1980, a disputa era quem era melhor, Zico ou Maradona? Mas quando o Diego venceu com a Argentina o Mundial de 1986 entrou em outro patamar [em relação a Zico]", afirma o sociólogo e professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Ronaldo George Helal.

Ele, que estudou a rivalidade futebolística dos dois países e a cobertura midiática, lembra de amistoso no Maracanã entre Flamengo e Boca Juniors, em 1981, em que os cartazes de divulgação faziam a comparação entre Maradona e Zico.

A disputa se tornou intensa quando a Fifa elegeu o melhor jogador do século 20, em dezembro de 2000. O brasileiro venceu entre os especialistas escolhidos pela entidade. No voto popular, pela internet, o argentino ficou em primeiro. Ao receber o seu prêmio, Pelé convidou o rival para subir ao palco, mas ele havia ido embora, revoltado.

"Não poderia ter jogado ao lado de Pelé porque não teria gostado de ter um mau companheiro. Somos a água e o azeite. Quando se diz de um jogador que ele se entrega aos dirigentes, não me agrada. E a carreira dele foi assim", disse Maradona em 2001.

Alguns anos antes, o discurso do argentino era diferente. "Pelé deve substituir [João] Havelange na [presidência da] Fifa, isso me encantaria. Sabe mais de futebol, defenderia os jogadores com a criação de sindicato e é um homem que respira futebol, não um jogador de polo aquático", afirmou em 1995.

Pelé também já teve idas e vindas em opiniões sobre Diego. Criticou o desempenho do argentino na Copa de 1982, o fato de ele ter sido pego no doping com cocaína e passou anos dizendo que não poderia ser comparado ao rival, porque Maradona não sabia chutar com a perna direita e não fazia gols de cabeça.

Mas em entrevista à Folha em 2018, disse que o campeão mundial de 1986 foi "bem melhor" que Lionel Messi.

O brasileiro foi o primeiro convidado do programa La Noche del Diez (A noite do dez, em espanhol), apresentado por Diego na TV argentina, em 2005. Os dois trocaram elogios, e Pelé cantou uma música que falava sobre como ele queria ser Maradona e vice-versa.

"Nossa relação está excelente. Não poderia ser melhor", afirmou Pelé na mesma entrevista de 2018.

Em dezembro de 2017, em Moscou, antes do sorteio dos grupos da Copa do Mundo do ano seguinte, Maradona deu um beijo na cabeça de Pelé, que estava em uma cadeira de rodas devido a problemas físicos.

O Rei do Futebol ainda carrega sequelas de três cirurgias nos últimos anos, uma para colocação de prótese no quadril e outras duas para corrigi-la. Também convive com problemas no joelho direito. No ano passado, na França, precisou ser internado por causa de uma infecção urinária.

Maradona, 20 anos mais jovem, tem dores crônicas nas costas, joelho e tornozelo esquerdo. Atual técnico do Gimnasia y Esgrima de La Plata, fica sentado a maior parte do tempo durante os jogos e caminha devagar quando precisa.

Por causa da disputa com sua ex-mulher Claudia Villafañe, rompeu com as filhas Giannina e Dalma, em uma relação que também tem idas e vindas.

Pelé até hoje recebe críticas por ter reconhecido a paternidade da filha Sandra Regina apenas mediante ordem judicial e por não ter comparecido ao enterro dela, morta em decorrência de um câncer em 2006.

A Folha publicou em agosto deste ano que Assíria do Nascimento, ex-mulher de Pelé, com quem ele tem dois filhos, entrou com uma ação no Tribunal de Justiça de São Paulo alegando atrasos no pagamento da pensão alimentícia dela e dos filhos Celeste e Joshua.

O ex-jogador também precisou encarar a prisão do filho Edinho, condenado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O ex-goleiro, que nega os crimes, saiu da prisão no ano passado.

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