Leia o que Maradona escreveu na Folha sobre Romário e violência durante a Copa de 98

Morto na quarta (25), ídolo argentino assinou três textos no jornal durante Mundial na França

São Paulo

Morto nesta quarta-feira (25) aos 60 anos, o ex-jogador argentino Diego Armando Maradona escreveu textos de opinião para a Folha durante a Copa do Mundo de 1998, disputada na França.

Sua primeira participação no caderno especial sobre o Mundial tratou da estreia do Brasil no torneio, contra a Escócia. Ele abordou os problemas relacionados ao corte de Romário e atribuiu à imprensa o clima ruim que pairava no ambiente da seleção às vesperas da competição.

Na sequência, o craque argentino também escreveu sobre a violência em campo e fora dele, provocada por hooligans, e o nível técnico da Copa realizada na França, a primeira com 32 equipes.

Leia na íntegra os três textos de autoria de Maradona no jornal.

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Quando os fatos viram uma tempestade

(10.jun.1998)

Vocês, brasileiros, seguramente estão muito preocupados com a partida contra a Escócia, hoje, na abertura da Copa do Mundo da França.

Existe uma quase-tradição de que o time campeão do Mundial anterior tropeça na abertura da Copa. Vivenciei esse infortúnio, defendendo a Argentina, no Mundial de 1990, na Itália, quando fomos derrotados por Camarões por 1 a 0. Essa não é uma regra. Estou certo de que os jogadores brasileiros honrarão a condição de favoritos.

A seleção brasileira enfrentou problemas nos últimos dias, muitas especulações, ora em torno dos jogadores, ora motivadas pelas atuações nas partidas preliminares ao Mundial. Uma situação que acostumei a ver na seleção Argentina. Coisas assim não trazem bem para nenhum grupo, muito menos para uma seleção que daqui a instantes estará defendendo o título de campeã do mundo.

Creio que parte desse ambiente é criado pela própria imprensa. Para os jornalistas, qualquer fato, por mais pequeno, mais insignificante que seja, basta para logo se criar uma tempestade.

A saída de Romário é um problema sério para os brasileiros, mas, por ter ocorrido antes da Copa, evita o abalo psicológico como o que se viu no selecionado da Argentina, quando eu fui excluído do último Mundial, nos Estados Unidos.

Estávamos muito bem na competição, fazendo boas apresentações e com qualidades para maiores ambições. Depois de minha saída, o time sentiu muito psicologicamente, e eu fiquei muito abalado por toda a situação e por não poder ajudá-los.

O que me chamou a atenção no caso do Romário, que eu acompanhei por meio da imprensa, foi a dimensão que os fatos tomaram no Brasil.

O Romário é um jogador importantíssimo, mas a saída dele poderia ter sido feita com uma repercussão menor, para preservar o grupo de jogadores que estão prestes a disputar um Mundial.

Às vezes, alguns problemas servem para unir o grupo.

Em 1982, a seleção da Itália não falava com os jornalistas italianos, o time foi muito mal na primeira fase, sofreu várias criticas e acabou rompendo com a imprensa. Era uma situação muito ruim, mas, por outro lado, tudo isso serviu para que os jogadores se unissem mais e, todos sabem, alcançaram o título naquela Copa, que ficou marcada para todos os brasileiros.

Não digo que a imprensa seja o problema. O fato é que no futebol, isso não só no Brasil, na Argentina e creio que em outros lugares, todo mundo se acha especialista. Hoje, há muita gente dando opiniões em programas nas TVs, nas rádios, nos jornais. Pessoas que não acompanham a equipe, que não acompanham os treinos nem sabem o que está acontecendo.

Quem lê ou escuta essas pessoas acha que é verdade. Mas, quando você está num grupo, você sabe que a situação não é bem aquela que sai retratada na imprensa.

Um dos pontos positivos do trabalho que o técnico Daniel Passarella, da Argentina, vem fazendo é o de tentar implantar um relacionamento profissional com a imprensa.

As entrevistas com os jogadores, com o técnico têm data e horário marcados, ele exige que sejam organizadas entrevistas coletivas, o acesso à equipe não é livre, como em outros tempos.

A imprensa sempre deve ter o direito de trabalhar. O que eu creio é que muitas vezes é importante se fazer algo para evitar especulações.

França-98 exige mais empenho das equipes

17.jun.1998

As pessoas que acompanham o Mundial da França com mais detida atenção devem compartilhar a idéia de que esta Copa está mais equilibrada do que foram a da Itália, em 1990, e a dos EUA, em 1994.

Creio que, por participarem 32 equipes, diferentemente das 24 de Copas anteriores, e, desta vez, apenas duas equipes de cada grupo se classificarem (nos últimos Mundiais, o terceiro colocado ainda poderia continuar na competição), os jogos da primeira fase ganharam em importância.

Uma derrota numa partida agora na primeira fase é muito mais significativa do que era em 1994. Embora as equipes estejam mais cuidadosas, temendo sofrer gols, os jogos têm sido bastante disputados _o que não se traduz em partidas de excelente nível, que foram bem poucas. Mesmo assim, não houve até agora nenhuma grande surpresa.

Os principais favoritos —Brasil, Argentina, Alemanha, Inglaterra— estão vencendo. A Itália passou por momentos de dificuldade, mas o empate com o Chile, uma equipe bem armada e de atacantes de qualidade como Zamorano e Salas, não foi de todo ruim.

A partir das oitavas-de-final, os jogos para os favoritos vão se tornar muito mais difíceis. Até agora, nenhuma seleção está sendo muito superior às demais.

A tendência é que, dos 16 times que se classifiquem para as oitavas, pelo menos 12 ou 13 estejam no mesmo nível. Apenas três equipes devem se apresentar para essa fase em condições aquém da média.
Penso que não será desta vez que as seleções africanas e asiáticas vão conseguir chegar até as semifinais. Esse sonho, espero estar errado, deve ficar para 2002.

Dos africanos, os que me surpreenderam foram Marrocos e —de modo especial— a seleção de Camarões, por suas partidas de estréia. A Nigéria conseguiu uma surpreendente vitória contra a Espanha. Não questiono a qualidade técnica do time, mas eles vinham de resultados muito ruins nos amistosos antes da Copa. A Nigéria não pode dar como consolidada sua classificação por apenas esse resultado. Esse Grupo D é um dos grupos mais equilibrados do Mundial, com ainda duas boas equipes, a Bulgária e o Paraguai.

O futebol africano continua à frente do asiático. Mas os africanos ainda são muito irresponsáveis em relação à defesa. Atiram-se ao ataque constantemente e, muitas das vezes, o fazem de forma desordenada, guiados pelo entusiasmo. Por esse motivo, não chegarão às finais.

É visível a evolução das equipes asiáticas, apesar de só um milagre ser capaz de fazê-las avançar além da primeira fase. O Irã perdeu para a Iugoslávia (1 a 0) depois de uma falha de seu goleiro. O Japão perdeu da Argentina, mas mostrou que tem preocupações táticas e conta com alguns jogadores de alguma técnica.

A Argentina mereceu vencer aquela partida. Em outras Copas os asiáticos serão adversários mais temíveis. Como a Copa de 2002 é em seu continente, creio que essa é a grande chance de obterem sucesso sobre os favoritos.

Nos próximos anos, com a proximidade do Mundial, os investimentos no futebol dessas nações será muito maior.

O interesse por esses mercados crescerá, com técnicos e futebolistas migrando para os torneios locais. É provável que isso resulte na melhoria da qualidade dos jogadores e do futebol asiáticos.

A violência preocupa no campo e nas ruas

24.jun.1998

A essência do futebol está no drible, na jogada executada com arte e técnica, na busca obsessiva pelo gol. Por essas razões, considerei muito importante a decisão tomada pela Fifa e pelo co-presidente do Comitê Organizador da Copa, Michel Platini, de exigir que os árbitros sejam mais rigorosos na aplicação das regras para coibir o jogo violento, desleal. Muitas equipes realmente abusaram da violência na rodada inicial do torneio.

A melhoria na qualidade dos jogos, ajudada pela arbitragem, foi significativa a partir da rodada seguinte. Quem sai ganhando são os atacantes, os jogadores mais caçados em campo. Eu creio que, a partir de agora, será muito importante que haja uma padronização nos critérios usados pelos juízes. Em algumas partidas, eles são mais flexíveis. Em outras, não.

Ronaldo, da seleção brasileira, por exemplo, sofreu algumas faltas nas quais o agressor não foi punido de forma adequada. Lances menos graves, em outros jogos, resultaram em expulsão. É essa diferença de interpretação que me preocupa. Durante as competições nacionais, seja na Argentina, no Brasil ou em outro grande centro de futebol, os jogadores e os árbitros não estão acostumados a esses critérios. Eles jogam e agem de uma forma. Quando chega o período de uma competição importante, como a Copa do Mundo, a cobrança aumenta. A Fifa deveria se preocupar também em exigir o cumprimento das regras em todos os torneios.

Enquanto o futebol parece estar tomando um bom rumo dentro de campo, é uma pena que aconteça violência entre as torcidas fora dos estádios. Foi muito bonito o exemplo dado pelos jogadores de EUA e Irã no jogo de domingo. Os distúrbios causados por hooligans, skinheads são lamentáveis. É uma coisa que pode manchar a Copa, quando o esperado por todos, imprensa, mídia, jogadores e, aqueles que mais importam, os torcedores, é um espetáculo bonito.

Na Argentina também acontece isso, com os barrabravas (torcedores violentos). Felizmente, eles ainda não causaram problemas no Mundial da França. Talvez um dos motivos para esses incidentes seja o fato de os estádios serem pequenos, com 40 ou 60 mil lugares. Há muito espaço reservado para mídia e para as autoridades. Acabou faltando para os espectadores. Resta àqueles que apreciam o futebol esperar a boa ação das autoridades francesas.

O público parece estar estranhando o intervalo entre as partidas que cada equipe cumpre na Copa. Não vejo muitos problemas por causa disso.

Para os torcedores essa expectativa é ruim, causa ansiedade, mas há um lado positivo. Aqueles que estão num país belíssimo como a França, podem aproveitar o intervalo para o turismo.

Para os jogadores, não há quase problemas. Eles podem se recuperar de forma mais adequada das partidas, tratar contusões.

A ansiedade é um mal menor. Eles estão acostumados a enfrentar competições.

O aumento do número de participantes, de 24 para 32, está tendo influência no nível técnico das partidas, porque nem todas as seleções, como mostraram os jogos desta primeira fase, estão em condição de disputar uma Copa. Para o calendário, a influência foi muito pequena, porque este Mundial tem apenas dois dias a mais em relação à edição anterior, nos Estados Unidos.

Diego Armando Maradona, à epoca com 37 anos, ex-jogador de futebol e campeão do mundo com a Argentina, em 1986

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