Descrição de chapéu Maradona (1960-2020)

Maradona viveu entre 'tapas e beijos' com Grondona e chamou Havelange de ladrão

Ídolo argentino se notabilizou por bater de frente com principais dirigentes do futebol

São Paulo

Uma das raras exceções no futebol, Maradona não era de ficar em cima do muro ante os mandos e desmandos da cartolagem.

Se confabulou com o ditador cubano Fidel Castro, também mostrou o dedo médio para Julio Grondona, presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) entre 1979 e 2014, e azedou a sua relação com Pelé, quando o brasileiro se aproximou de João Havelange, então mandatário da Fifa.

A discussão sobre o atleta poder ou não se manifestar sobre temas políticos era descabida para Maradona.

No ano de 1986, o camisa 10 ganhou beijos e abraços de Don Julio –como o poderoso dirigente era chamado pelos argentinos– após a vitória sobre a Alemanha Ocidental na decisão da Copa do Mundo, no México. Vinte anos depois, chamou o cartola de mafioso.

"Grondona é mafioso demais para tirá-lo da AFA", disse o ex-jogador em entrevista ao canal de televisão TyC Sports. "Quando é posto sob pressão, Grondona diz: 'Cuidado, não sou o presidente da AFA, sou o vice-presidente da Fifa'. Então ele ameaça a todos os argentinos", declarou, em novembro de 2006.

Naquele momento, o cartola estava sendo acusado de corrupção. Segundo Andrés Ducatezeiler, ex-presidente do Independiente, o mandatário da entidade que comanda o futebol no país obrigou o clube a comprar um sistema de câmeras de monitoramento de público "de uma empresa que não foi licitada e era amiga" sua.

A relação ganhou uma trégua em parte dos 19 meses em que Maradona foi técnico da seleção argentina. Mas a eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010 colocou fim na paz entre eles. Após o resultado, Grondona queria a saída de sete integrantes da comissão técnica de Diego, o que causou um desgaste muito grande e culminou na não renovação de contrato. ​

A forma como o ex-jogador foi desligado, contra a sua vontade, dinamitou qualquer esperança de novos beijos e abraços.

No Mundial seguinte, sob o comando de Alejandro Sabella, a Argentina venceu o Irã por 1 a 0 em sua estreia na competição. Grondona, então, teria dito: "foi-se o pé-frio e ganhamos", segundo o Diário Olé.

“Chamá-lo de pé-frio foi um absurdo. Eu já escrevi isso e vou repetir. Se Diego é pé-frio, eu quero ser pé-frio ao lado dele para sempre", disse o ex-zagueiro Oscar Ruggeri, campeão com o camisa 10 no México, em 1986, em entrevista à Folha, em 2014.

Quando o cartola morreu, no dia 30 de julho de 2014, Maradona postou uma foto em uma de suas redes sociais, dos tempos de jogador, e escreveu: "minhas condolências à família Grondona".

Mesmo após a morte do cartola, Maradona seguiu com críticas e acusações. Ele afirmou que o ex-chefe da AFA teria negociado a derrota da Argentina para a Alemanha na final da Copa de 1990. Na ocasião, os alemães venceram por 1 a 0.

Maradona ao lado de Julio Grondona durante apresentação como técnico da Argentina - Marcos Brindicci 4.nov.2008/Reuters

A sua indisposição explícita com o chefe da AFA é incomum entre os atletas. No Brasil, por exemplo, o ex-volante Alemão, amigo e parceiro de Maradona no Napoli (ITA), foi exceção e pagou o preço ao criticar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por ter lucrado US$ 1 milhão da Pepsi na época, com o patrocínio para a seleção brasileira, sem oferecer qualquer recompensa aos jogadores.

Na preparação para a Copa de 1990, em Teresópolis, a primeira com Ricardo Teixeira à frente da entidade que comanda o futebol brasileiro, o elenco da seleção tapou com esparadrapo o logotipo da marca de refrigerante em seus uniformes ao posarem para a foto oficial.

Quando o Brasil foi eliminado do torneio pela Argentina de Maradona, Teixeira acusou Alemão de fazer corpo mole. “Esse não vestirá mais a camisa da seleção enquanto eu for presidente da CBF”, disse o mandatário em entrevista ao jornal O Globo, em dezembro de 1990.

Maradona também nutriu rivalidade com o brasileiro João Havelange, presidente da Fifa entre 1974 e 1998.

Primeiro, criticou a organização da Copa do México, em 1986, que colocou jogos ao meio-dia para aumentar a audiência na Europa. Depois da final de 1990, recusou-se a apertar a mão do cartola e o chamou de ladrão por entender que o pênalti que deu a vitória por 1 a 0 para a Alemanha não tinha existido.

No Mundial de 1994, disputado nos EUA, Maradona foi pego no exame antidoping pelo uso de efedrina e acusou o brasileiro de fazer um complô para tirá-lo da competição.

Anos depois, Maradona afirmou: "A Fifa fez uma campanha contra mim quando assumi meu vício pela cocaína. A Fifa tem viciados em outras coisas", ele afirmou. "Havelange fez coisas bem piores que consumir drogas. Ele roubou milhares e milhares de dólares. E não tem vergonha disso", completou.

O cartola, morto em 2016, era investigado por receber propinas e por fraudes na venda de direitos de transmissão, conforme mostram documentos da Justiça da Suíça.

Curiosamente, em sua biografia, Joseph Blatter –que sucedeu Havelange na presidência da Fifa e era outro desafeto de Maradona– conta que Havelange tentou abafar o caso de doping em 1994.

Segundo o relato, o brasileiro tentou propor justamente a Grondona que a questão fosse resolvida depois do Mundial.

Embora tenha feito muito barulho ao entrar em conflitos com as principais cabeças do futebol mundial, o craque argentino não conseguiu mudar os rumos do mundo da bola fora dos gramados.

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