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Schumacher tem recordes alcançados, mas legado ainda visível na F-1

Igualado ou batido por Hamilton nas principais marcas, alemão revolucionou a categoria

São Paulo

Ainda que Lewis Hamilton tenha batido as marcas de pódios e vitórias em 2020 e igualado o número de títulos mundiais de Michael Schumacher na F-1, ao conquistar o heptacampeonato no último domingo (15), o legado do alemão vai além dos recordes que ele ostentou sozinho por anos na categoria.

O ex-piloto de 51 anos, de quem pouco se sabe a respeito do estado de saúde, continua em recuperação de um gravíssimo acidente sofrido enquanto esquiava nos Alpes Franceses, em 2013.

Schumacher é visto por especialistas como aquele que estabeleceu os mais altos níveis de estratégia para vencer corridas, além de ter capacidade singular de extrair o máximo desempenho do carro. Essas características também são atribuídas justamente a Hamilton.

As habilidades do alemão se sobressaíram nos anos em que ele correu pela Ferrari, sobretudo de 2000 a 2004, quando conquistou 5 dos seus 7 títulos mundiais. Ao lado do engenheiro Ross Brawn e do estrategista Luca Baldesserri, Schumacher inovou nas táticas de corrida, com um estilo difícil de ser copiado.

Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu no GP da França de 2004, quando ele decidiu junto à equipe fazer um pit-stop a mais em relação aos rivais, incluindo o espanhol Fernando Alonso, da Renault.

Numa época em que o reabastecimento ainda era permitido na F-1, a ideia do ferrarista era correr com o carro o mais leve possível. "Com pouco peso de gasolina, além de trocar os pneus, ele podia dirigir o carro no máximo de eficiência", explica o jornalista italiano Cesare Maria Mannucci, que cobriu a F-1 por mais de 35 anos pela revista Autosprint.

A tática do alemão de fazer quatro paradas surpreendeu os adversários e garantiu a ele uma das 13 vitórias no ano em que se tornou heptacampeão mundial.

Ao todo, ao longo de sua carreira, ele venceu 91 corridas, marca que só foi superada recentemente por Hamilton, que agora já soma 94. O terceiro nessa lista é Sebastian Vettel, com 53.

Uma dos jornalistas brasileiras que há mais tempo acompanha a F-1, Mariana Becker, da TV Globo, diz que Schumacher era quem mais sabia usufruir das regras da categoria em sua época e fez isso na maioria das corridas que venceu.

"Ele tinha como se fosse duas corridas em mente, uma até o reabastecimento e outra depois. Com isso, podia utilizar todos os recursos que tinha sem preocupar em poupar nada, que é uma coisa que hoje em dia os pilotos fazem muito."

Mannucci acrescenta que a Ferrari também sabia aproveitar a liberdade para o desenvolvimento do carro. "Cada semana, a Ferrari fazia teste em três circuitos diferentes. Os sistemas de eletrônica também eram livres. Só na Ferrari havia mais de 200 pessoas trabalhando nisso, o que hoje não se vê mais. A vantagem técnica do Schumacher era enorme."

Atualmente, os sistemas de eletrônica dos carros da categoria são padronizados. Os testes de pré-temporada e ao longo do campeonato também são limitados.

Apesar das mudanças de regulamento, Hamilton tem hoje na Mercedes a mesma autonomia que Schumacher possuía na Ferrari para definir as melhores estratégias para as corridas.

Segundo o jornalista Flavio Gomes, comentarista da Fox Sports e criador do site Grande Prêmio, o alemão também tinha a capacidade de seguir à risca tudo o que era estabelecido pela equipe. "Ele foi o primeiro grande piloto a saber usar esse apoio externo da equipe, a partir do uso da telemetria e dos cálculos", diz.

Em vários casos, era daí que ele tirava os segundos que lhe davam vantagem sobre os adversários, tanto nas corridas como nos treinos classificatórios, nos quais conquistou 68 poles —outra marca batida por Hamilton, dono de 97.

Gomes se recorda de um episódio no qual o brasileiro Rubens Barrichello perdeu a disputa de uma pole para o alemão, em Ímola, na Itália, e ficou inconformado. "O Rubinho foi ver a telemetria do Schumacher e viu que, durante uma única volta, ele conseguiu fazer oito alterações no acerto do carro. Para cada curva, mudava o controle de tração, o balanço dos freios ou o mapa do motor. Ele entendia muito do carro."

Para tirar a Ferrari de um jejum de 21 anos sem títulos, Schumacher ganhou carta branca da equipe na montagem de um time de profissionais capazes de dar todo o suporte que ele julgava ser necessário.

"Ele atuou como arquiteto da mudança da equipe. Tinha todos os poderes para trazer quem quisesse para transformar a Ferrari em uma equipe vencedora e deu certo, porque ele foi buscar caras competentes, como o Ross Brawn, com quem havia trabalhado na Benetton", afirma o jornalista Fábio Seixas, que cobriu de perto os anos do alemão na Ferrari.

Brawn e Jean Todt, chefe da equipe italiana nos tempos de Schumacher, ainda colhem frutos do prestígio conquistado no período vitorioso com o alemão. O primeiro é diretor esportivo da F-1, e o segundo tornou-se presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

Michael Schumacher no pódio do GP da Espanha de 2003
Michael Schumacher no pódio do GP da Espanha de 2003 - Lluis Gene - 4.mai.03/AFP

A forma como a equipe italiana tratava o ex-piloto também gerou polêmicas internas, especialmente com Rubinho. Em 2002, no GP da Áustria, a Ferrari deu ordem para o brasileiro ceder uma vitória ao alemão. Ele cumpriu, mas o fez em cima da linha de chegada, para explicitar sua frustração. O chamado jogo de equipes não acabou, mas passou a ser mais combatido pela F-1 depois disso.

Para Seixas, o ex-piloto era quase um computador pilotando. "Quantas corridas o Schumacher ganhou por meio das estratégias definidas junto com o Ross Brawn? Acontecia muito de ele estar, durante uma prova, alguns segundos atrás de um adversário, e a equipe indicava quantos segundos ele precisava ganhar em determinado número de voltas para ganhar posições. Ele fazia isso como se fosse um relógio."

Erwin Jaeggi, repórter do site Motorsport.com na Holanda, o define como alguém que "redefiniu quase completamente o conjunto de habilidades que um piloto de corrida deve ter para ter sucesso, ao definir novos padrões em várias áreas".

Por todos esses motivos, ainda que os principais recordes escapem de seus domínios, o legado de Schumacher ainda se faz muito presente na F-1.

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