Tom Brady, 43, e outros quarterbacks veteranos renascem na NFL

Sucesso deles se deve a mais do que apenas talento residual e experiência de vida

Mike Tanier
The New York Times

Com idade combinada de 85 anos e 30 dias, Tom Brady e Drew Brees serão os quarterbacks titulares mais velhos da história da NFL quando o Tampa Bay Buccaneers receber o New Orleans Saints, no jogo de fundo da rodada de domingo (8), às 22h20 (de Brasília).

O recorde anterior, de 84 anos e 243 dias, foi estabelecido pelos dois quando Saints e Buccaneers se enfrentaram na rodada de abertura desta temporada regular da NFL. A dupla voltará a estabelecer um recorde nessa categoria quando os dois voltarem a se encontrar, o que é provável nos playoffs.

Brady, 43, e Brees, 41, em companhia de Ben Roethlisberger, 38, do Pittsburgh Steelers, e Philip Rivers, 38, do Indianapolis Colts, são a geração veterana dos quarterbacks da NFL –lendas vivas do esporte que continuam móveis e parecem capazes de ensinar uma coisa e outra aos novatos da liga, pelo menos enquanto continuarem protegidos por linhas ofensivas que parecem fortalezas, e apoiados por elencos de astros.

Esses quarterbacks com idades em torno dos 40 não deveriam ser tomados por jogadores com validade vencida que vivem da reputação acumulada no passado.

Buccaneers, Colts, Saints e Steelers têm 23 vitórias e seis derrotas, combinados, até a semana oito da temporada. Brady está empatado na terceira posição do ranking da NFL, com 20 passes para touchdown, e Roethlisberger lançou 15 passes para touchdown e está empatado na sétima posição do ranking.

Brees e Brady ocupam o sétimo e nono postos, respectivamente, em termos de rating de eficiência. Brady e os demais estão mantendo seus times na frente, na corrida pelos playoffs, e apresentando desempenho superior ao de muitos aspirantes a rivais que são 10 ou 20 anos mais jovens.

Isso não quer dizer que os veteranos jamais mostram sinais de idade. Roethlisberger costumava escapar de tackles como se o adversário não existisse, para lançar mísseis campo abaixo, e agora prefere passes mais curtos, destinados a um forte elenco de colegas jovens.

Rivers tem um estilo esquisito de passe, e as bolas que lança oscilam e dançam misteriosamente entre os defensores a caminho de seus alvos. Brees divide jogadas com o veloz Taysom Hill, para compensar sua mobilidade cada vez menor.

Mesmo Brady às vezes parece uma lenda do rock clássico que está fazendo uma turnê de despedida acompanhado por uma orquestra e coral que cobrem, em alto volume, os momentos em que ele já não atinge aqueles agudos.

Tom Brady prepara um lançamento, enquanto seu companheiro de time bloqueia um rival
No Tampa Bay Buccaneers, Tom Brady tem sido ajudado por seus companheiros - Sarah Stier - 2.nov.20/AFP

E caso isso não baste, esta semana Antonio Brown, wide receiver que já foi selecionado para o Pro Bowl, vai se tornar parte da orquestra, depois de ser suspenso pela liga quando se admitiu culpado por acusações de roubo e agressão relacionadas a uma disputa em janeiro, e por ameaçar uma mulher que o acusava de conduta sexual indevida.

Os quarterbacks veteranos pareciam estar a caminho da saída, pelo final da temporada de 2019.

Roethlisberger passou a maior parte do ano parado, com uma lesão no cotovelo. Teddy Bridgewater substituía Brees em algumas das jogadas mais complicadas. Rivers foi interceptado 20 vezes em sua temporada final pelo Los Angeles Chargers.

O New York Giants encostou Eli Manning, talvez por piedade, já que aos 38 anos ele não conseguia mais acompanhar os colegas jovens. Brady parecia acabado, enquanto o elenco do New England Patriots implodia ao seu redor.

Parecia que enfim havia chegado a hora de eles cederem o lugar diante dos holofotes a novos superastros como Patrick Mahomes e Lamar Jackson, ou a qualquer dos outros 10 candidatos que ainda não conseguem apresentar sequências de três jogos em que se mantenham tanto saudáveis quanto produtivos.

Mas Roethlisberger se recuperou da lesão e voltou a um Steelers de elenco reconstruído. Rivers foi rejuvenescido pela firme linha ofensiva dos Colts e por um retorno à parceria com o treinador Frank Reich, um guru do jogo ofensivo que havia treinado o quarterback em algumas de suas melhores temporadas recentes. E Brady prosperou desde que um divórcio com os Patriots deixou Bill Belichick jantando sozinho na pia e resmungando raivosamente para qualquer pessoa que se disponha a ouvi-lo.

Ben Roethlisberger prepara lançamento enquanto seus companheiros seguram rivais
Ben Roethlisberger protegido pela linha ofensiva do Pittsburgh Steelers - Todd Olszewski/AFP

A idade traz alguma sabedoria, o que é um dos motivos para que quarterbacks com idade suficiente para ter coleções de CDs da Dave Matthews Band sejam tão efetivos. Não há esquema de cobertura ou pacote de blitz que Brady e os demais não sejam capazes de diagnosticar e combater instantaneamente, depois de entre 17 e 21 temporadas de experiência na NFL.

As peculiaridades de 2020 podem ter até aumentado suas vantagens. Os veteranos estão recorrendo a velhas táticas que têm na memória, enquanto seus oponentes só as aprenderam algumas semanas atrás, em treinos via Zoom.

O sucesso dos quarterbacks veteranos se deve a mais do que apenas talento residual e experiência de vida, no entanto.

Buccaneers, Colts, Saints e Steelers estão apostando tudo para vencer um Super Bowl nos anos dourados de seus quarterbacks. Ampliaram seus arsenais, usaram seus limites salariais ao máximo, e seus planos para o futuro são todos de curto prazo.

Quarterbacks mais jovens às vezes têm de aceitar linhas ofensivas improvisadas ou grupos de recebedores medíocres, enquanto seus times promovem economias e se ajustam estrategicamente em busca do sucesso em longo prazo, mas Brady e os demais estão recebendo todas as vantagens imediatas que é possível lhes dar.

Seus times terão de pagar por isso quando Brady e os colegas se aposentarem ou deixarem de jogar bem.

Os Saints estouram em quase US$ 93 milhões o limite salarial projetado para 2021, de acordo com o site OverTheCap.com, que acompanha os salários do futebol americano. Para equilibrar as contas, o time teria de jogar em uma liga em que as equipes entram em campo com sete jogadores.

Drew Brees comemora com o braço no ar
Drew Brees, veterano quarterback do New Orleans Saints - Jonathan Bachman - 25.out.20/AFP

Colts e Steelers não têm quarterbacks do futuro à espera no banco de reservas, e nenhum dos dois times estará em posição de selecionar um quarterback de qualidade no draft do ano que vem.

Os Buccaneers, que estão pagando US$ 25 milhões garantidos a Brady nesta temporada, fizeram o tipo de barganha fáustica que garante consequências graves no futuro. Cada um desses times pode em breve se parecer um pouco com as ruínas do império dos Patriots, e apenas um deles (no máximo) será capaz de vencer o Super Bowl que justificaria todo esse sacrifício.

A mistura de excelência duradoura, privilégio adquirido e ambição de vencer a qualquer custo faz com que seja possível tanto admirar quanto criticar os quarterbacks veteranos.

De muitas maneiras, eles estão reencenando um conflito de gerações conhecido: veteranos ainda enérgicos, mas também beneficiários de realizações passadas, ostentam seu sucesso em detrimento de jovens agrilhoados a maus treinadores ou expostos a riscos por linhas ofensivas precárias, e por isso incapazes de exibir todo o seu talento –por enquanto.

Isso posto, qualquer pessoa que tenha sofrido para assistir o confronto entre Carson Wentz e Ben DiNucci no jogo do domingo à noite entre o Philadelphia Eagles e o Dallas Cowboys sabe que duelos como Brady versus Brees devem ser aproveitados enquanto ainda acontecem.

Tradução de Paulo Migliacci

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