Descrição de chapéu racismo

Atletas contam por que se manifestam politicamente e abraçam causas

Damiris Dantas, Diogo Silva, Joanna Maranhão e Lucas Santos explicam seus perfis ativistas

São Paulo

Se 2020 ficará marcado, dentre várias outras coisas, pelas manifestações políticas e sociais dentro do esporte, a responsabilidade é de atletas com diferentes personalidades. Cada um ao seu modo, eles construíram seu perfil ativista ao longo dos anos e se transformaram em vozes potentes.

As ligas de basquete NBA e WNBA viram os jogadores boicotarem partidas em protesto contra a violência policial. Astro do Los Angeles Lakers, LeBron James, 35, é um dos atletas mais vocais do mundo nessa e em outras causas raciais e sociais.

A tenista japonesa Naomi Osaka, 23, mais silenciosa, também abandonou uma partida e motivou a paralisação do torneio de Cincinnati, além de usar máscaras com nomes de vítimas da violência policial em todos os setes jogos do US Open, Grand Slam que venceu pela segunda vez na carreira.

Lewis Hamilton, 35, igualou o recorde de títulos de Michal Schumacher na F1 enquanto, antes das corridas e no pódio, levantou diversas vezes a bandeira antirracista.

Para pesquisador Neilton Ferreira, da USP, as manifestações no esporte seguem difusas e individuais, e falta instrumentos que deem segurança a atletas menos tarimbados que os citados, para reduzir o risco de perda de poatrocínios, contratos ou de fim da própria carreira.

A Folha ouviu atletas e ex-atletas brasileiros para entender o que os motiva a quebrar o silêncio e o que pode ser feito para que o ambiente esportivo dê liberdade e amparo para quem decide se posicionar.

Lucas Santos, 21, jogador de futebol

“Posto porque me interesso, me sinto no dever de me posicionar. Passei por muita coisa na minha vida, então tento expressar isso de alguma forma. Também vi minha mãe passar por muita coisa”

Lucas Santos sempre foi considerado um jovem promissor. Desde criança no Vasco, teve uma passagem curta pelo CSKA, da Rússia, e ainda luta para se firmar no time titular cruz-maltino. Já chegou a uma final da Copa São Paulo e integrou as categorias de base da seleção brasileira.

Teria de tudo para seguir a trajetória de muitos garotos do futebol brasileiro, que por mais que tenham vontade de se posicionar publicamente, de dizer o que pensam, aguardam terem uma carreira consolidada para fazê-lo. Quando o fazem.

Mas aos 21 anos, uma rápida olhada no histórico e nas redes sociais do volante mostra que no seu caso, não é bem assim. Ele, inclusive, já teve que enfrentar a ira dos torcedores quando, durante um treino, fez a saudação de Wakanda, da ficção “Pantera Negra”, com os braços cruzados, gesto que acabou confundido com o da torcida organizada do Flamengo.

“Acho que o futebol está mudando, e nem só o futebol. Estamos numa época onde temos liberdade para nos expressar, nos posicionar”, diz.

Conta que tem lido sobre o tema e que seu ídolo é o piloto Lewis Hamilton, mas a vontade de se posicionar vem de antes, das experiências da mãe e de sua própria vivência. Sente, por tudo isso, que é um dever.

“Vivemos num mundo capitalista. Temos que ter consciência que todos nossos atos vão ter reações. Acho que, quanto mais os jogadores começarem a se posicionar, isso [as represálias] vai diminuindo, e o número de vozes ativas vai ser maior."

Damiris Dantas, 28, jogadora de basquete

“Eu usava alisante no cabelo, muito, tive até problema capilar. Decidi cortar e usar trança, e vi muitas pessoas questionando que era feia, que fede, ‘como você lava?’. Também recebi mensagens de garotas que cortaram o cabelo e estavam se amando. Quando assumi o meu cabelo, foi quando comecei a me posicionar. É a minha luta, a minha dor”

Atualmente no Campinas para a disputa do Paulista Feminino de Basquete, Damiris Dantas reconhece que teve um 2020 privilegiado. E não foi só por ter ido à fase final da WNBA, nem por ter sido um dos destaques de sua equipe por lá, o Minnesota Lynx.

Segundo ela mesma, o que mais a marcou foi a experiência de viver uma liga efervescente nos protestos antirracistas, na qual as jogadoras decidiram boicotar uma rodada do campeonato como forma de protesto contra a violência policial contra negros.

Damiris Dantas com uma camiseta escrito "diga o nome dela", protesto contra a morte de Breonna Taylor
Damiris Dantas com uma camiseta escrito "diga o nome dela", protesto contra a morte de Breonna Taylor - Instagram/@dantadamiris

“Eu acho que atletas de peso e nome tem que se posicionar. Porque por exemplo, se o Neymar se posicionar, qual vai ser o time que não vai querer ele? Isso fortalece quem está chegando, cria união. Se todos estiverem no mesmo barco, não tem como dirigente mandar todo mundo embora”, defende.

Conta que recentemente a irmã tem brincado que parece que ela vai largar o basquete, de tanto que tem lido livros. A verdade é que ver e viver o racismo a cansou.

Moradora de Poá, na zona leste de São Paulo, conta que já na quarentena, em um dia em que limpava o quintal, um homem passou pela rua e pediu para ela chamar “a patroa”, supondo que a atleta era a empregada doméstica da casa.

“Fiquei sem reação. Pensei ‘não é possível, todos os vizinhos me conhecem aqui’. Falei que era dona [da casa] e ele riu”, conta.

Em contraste com o apoio geral que sente na WNBA, ela diz que no Brasil os atletas têm medo, pela dependência do salário —muitos inclusive sustentam a própria família.

“É difícil falar o que falta para a galera começar a se unir e começar a falar, porque de verdade, a gente está cansada de ligar a TV e ver uma tragédia racista todo dia”, afirma.

Damiris integra o movimento Atletas pela Democracia e torce pela criação de uma instituição forte representante dos atletas no Brasil.

Joanna Maranhão, 33, ex-nadadora

“Eu treinei na melhor escola de natação da minha cidade, só aí saí na frente de um monte de menina. Não tira meu mérito, mas meus privilégios foram gritando para mim ao longo da minha jornada. Se junta a isso eu ter sido vitima de abuso sexual e ser mulher numa sociedade patriarcal. Aí, quando você quebra o silêncio, não se cala nunca mais”

Não é de agora que Joanna Maranhão é ativa além das piscinas. Ela recorda quando questionava a direção da confederação responsável pela natação sobre a distribuição da verba de patrocínio entre atletas e levou a questão até o então presidente Lula (PT).

Hoje mãe de Caetano, 1, e mestranda em Ética e Integridade no Esporte, na Bélgica, ela recorda a mãe, militante do PT, e revela as dificuldades de ser ativista e atleta ao mesmo tempo.

“As pessoas cobram para se posicionar sobre tudo o tempo inteiro. Não quero que me vejam só como atleta, mas como ser humano completo, que questiona a sociedade. Mas não consigo atender à demanda, como não conseguia atender todas as expectativas de atleta”, diz sobre o momento que vive hoje.

Ex-funcionária da Secretaria Executiva de Esportes de Recife, foi inclusive cotada para ser vereadora nas últimas eleições municipais.

Diz que, quando alguém a procura pedindo conselhos de como fazer uma denúncia no esporte, primeiro fica feliz, mas logo pondera e tenta conscientizar a colega de que o preço é alto e que é necessário ter estrutura para lidar com “o que sai da caixa de pandora”.

Na opinião de Joanna, falta amparo para que os atletas possam se posicionar sem serem reféns de contratos, patrocínios e outros vínculos.

“A partir do momento em que a gente, como ex-atleta, ocupar os espaços dos clubes, vai ter outro olhar para isso e vai começar a mexer a estrutura. O esporte é feito por atletas e para atletas. E de modo geral não é assim, os cartolas se perpetuam e decidem como as coisas são feitas”, diz.

“O Diogo Silva foi o mais votado [da Comissão de Atletas do COB], isso diz muito do que nós queremos. Não precisa de uma revolução, mas ter sensibilidade de lembrar de onde veio”, conclui.

Diogo Silva, 38, ex-lutador de taekwondo

“Como fui um jovem negro da periferia, essas situações aconteceram inúmeras vezes comigo. O que vimos no Carrefour acontece com a gente desde a infância. O vigia está sempre caminhando atrás da gente”

Em 2004, Diogo Silva se despediu dos Jogos de Atenas erguendo o braço com o punho fechado ainda no tatame, repetindo o gesto dos Panteras Negras eternizado no esporte por John Carlos e Tommie Smith, na Olimpíada de 1968.

O protesto tinha como pauta a falta de estrutura para os atletas de taekwondo na época.

Dezesseis anos depois, ele foi mais votado para a próxima gestão da Comissão de Atletas do Comitê Olímpico do Brasil. Longe dos tatames, mas sempre ativo e engajado, diz querer agora transformar o esporte de dentro para fora.

"Atletas que estão no dia a dia do treinamento, sabendo que outros atletas já foram punidos por se manifestarem, acabam ficando silenciados”, afirma.

Segundo ele, primeiro é preciso mudar a formação do atleta, para quem deveria ser ensinado o que é racismo, por exemplo. Aponta como uma das dificuldades para isso acontecer o fato de, nas suas palavras, "vivermos numa sociedade acostumada à violência e sob um governo negacionista".

Diogo Silva entende que atualmente, por outro lado, essas questões tem muito mais projeção, e lembra seu episódio em 2004 para afirmar que, se tivesse acontecido hoje, ele possivelmente teria recebido o apoio de nomes como Lewis Hamilton e LeBron James.

“Quando as referências quebram o silêncio, pressionam uma cadeia esportiva. Então aquele jogador que ficou isolado por muito tempo, quando vê os maiores astros se manifestando, se sente envergonhado pelo silenciamento ou motivado a aprender, se posicionar”, opina.

“Essa é a importância de se expor, mesmo se as marcas não apoiarem, se perdermos nosso patrocínio, a vaga de titular. Temos uma série de punições e consequências, mas, por uma questão de humanidade, não temos como não fazer."

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