Descrição de chapéu Financial Times

Negócios do esporte contrariam crise e atraem fundos de investimentos

Valores dos direitos de transmissão e de franquias americanas continuam em alta

Sara Germano James Fontanella-Khan Arash Massoudi
Nova York e Londres | Financial Times

A transação esportiva de maior destaque em 2020 —a venda do New York Mets, time de beisebol de Nova York, ao administrador de fundos de hedge Steve Cohen, por US$ 2,4 bilhões— representou tanto um valor recorde para a venda de uma franquia de esportes nos Estados Unidos quanto, de acordo com administradores de fundos e executivos do setor de esporte, talvez o começo do fim para a era da propriedade de equipes esportivas por indivíduos ricos.

“Não existem tantas pessoas como Steve Cohen assim no planeta, que possam simplesmente assinar um cheque e fechar a compra” de uma grande franquia, disse um investidor no setor de esportes.

A pandemia do coronavírus devastou o esporte mundial neste ano, levando ao cancelamento ou adiamento de eventos e virtualmente eliminando a presença de torcedores nos jogos que foram realizados. Mas, enquanto as ligas esportivas e os clubes buscam equilíbrio financeiro, o tumulto de 2020 serviu para acelerar uma tendência nascente no negócio do esporte: o influxo de capital institucional.

Com o ingresso de uma sucessão de companhias formadas especialmente para aquisições e o estabelecimento de fundos especializados em investir em ligas e equipes esportivas, o capital privado começa a influenciar o negócio do esporte de duas maneiras.

Grupos de capital privado estão na corrida por obter uma fatia nos direitos de mídia sobre o futebol europeu, e as ligas esportivas dos Estados Unidos estão afrouxando sua regulamentação a fim de permitir novas formas de investimento.

Por sob essas mudanças está o fato de que o valor dos direitos de transmissão e das franquias individuais continua em ascensão.

“Os ativos esportivos demonstraram uma baixa correlação com relação ao mercado mais amplo, e equipes esportivas foram vendidas por preços recorde em meio à crise financeira de 2008 e à crise da Covid-19”, disse Michael Kenworthy, o encarregado do setor de investimento esportivo no banco Goldman Sachs.

Em alguns casos, ele disse, o valor de mercado dos times apresentou desempenho superior ao de indicadores tradicionais de investimento, como o índice S&P 500.

“Se você está pensando sobre a melhor maneira de construir uma carteira e deseja diversificar, existe o potencial de que incluir ativos esportivos em seu portfólio tenha mérito”, acrescentou Kenworthy.

Há 35 anos, era possível se tornar sócio majoritário de um time da National Basketball Association (NBA) por apenas alguns poucos milhões de dólares, nos Estados Unidos, como aconteceu quando Larry e Gail Miller adquiriram o Utah Jazz por US$ 24 milhões em 1985/86.

Donovan Mitchell no ginásio do Utah Jazz, franquia de basquete recentemente negociada
Donovan Mitchell no ginásio do Utah Jazz, franquia de basquete recentemente negociada - Jeffrey Swinger - 12.dez.20/USA Today Sports

No final deste ano, a família vendeu sua fatia controladora no time a um grupo de investidores liderado por Ryan Smith, o empreendedor que comanda o grupo Qualtrics, por US$ 1,6 bilhão, ou mais de 66 vezes o valor original de seu investimento.

“O universo de pessoas [capazes de comprar] não é tão grande assim”, disse Kenworthy. “É preciso que existam outros mecanismos para ajudar a tornar esses investimentos mais acessíveis e para facilitar um pouco a aquisição desse tipo de ativo."

Foi essa forma de pensamento que conduziu à decisão tomada pela NBA, em maio, de alterar suas regras e selecionar a Dyal Capital, uma divisão do grupo de gestão de patrimônio americano Neuberger Berman, como compradora de participações acionárias em mais de um time, de acordo com três pessoas informadas sobre a situação.

A Dyal estava a ponto de completar a formação de um novo fundo de US$ 2 bilhões exclusivamente para adquirir participações minoritárias em franquias da NBA; o objetivo era adquirir as participações de proprietários atuais, muitos dos quais adquiriram suas fatias nos times quando os preços eram significativamente mais baixos, disseram duas das pessoas.

A decisão da NBA se seguiu a uma mudança das regras da Major League Baseball em 2019, a fim de permitir investimento institucional em múltiplos clubes por uma mesma companhia. Embora adotada antes da pandemia, a emenda nas regras da MLB “não poderia ter sido tomada em momento mais oportuno”, disse uma pessoa informada sobre a liga.

Mudar as posições das ligas sobre quem –ou o que– está autorizado a deter o controle de franquias também vem alimentando a criação de novas empresas com propósitos especiais de aquisição esportiva, conhecidas como “Spacs”, na sigla em inglês. Trata-se de veículos de investimento com cotas negociadas nos mercados, que formam fundos de capital a fim de adquirir negócios existentes.

A empresa de maior destaque nesse novo segmento foi criada por Gerry Cardinale, antigo sócio do Goldman Sachs, e Billy Bean, que ganhou fama com o método “Moneyball” de gestão de beisebol, que estão tentando uma fusão reversa com o Fenway Sports Group, que serve como holding para dois dos clubes de esporte mais valiosos dos dois lados do Atlântico.

Se tiver sucesso, a RedBall Spac levaria à abertura do capital da empresa que controla o Liverpool, no futebol, e o Boston Red Sox, no beisebol.

“A aquisição pela RedBall Spac é o próximo passo em uma transição que está em curso no ecossistema do esporte”, disse um executivo que agora está envolvido na obtenção de fundos para investimento em equipes esportivas. “Esses ativos e essa categoria de ativos ganharam escala e valor, e se tornaram institucionais. Assim, existe um movimento no investimento institucional, e capital aberto é parte disso."

É claro que investir em esporte está longe de ser uma atividade de baixo risco para investidores institucionais, que enfrentam questões sobre se a tendência de alta dos valores de mercado será mantida e se os investimentos em esporte terão liquidez, e quanto a quem esses investimentos poderiam ser vendidos no futuro.

E o setor também apresenta diversos riscos idiossincráticos.

Em novembro, a CVC Capital Partners e a Advent International buscaram adicionar uma cláusula de proteção ao seu acordo no valor de 1,6 bilhão de euros para adquirir uma participação nos direitos de transmissão da Série A italiana, depois que alguns dos principais clubes de futebol da Europa discutiram a possibilidade de estabelecer uma nova superliga continental separada.

A incerteza pode ser um fator em outras propostas nascentes de investimento no futebol, entre as quais o esforço de cerca de 20 grupos de capital privado para investir nos direitos de mídia da Bundesliga alemã.

Nos Estados Unidos, os investidores institucionais se verão sujeitos aos caprichos dos comandos das ligas, porque cabe a elas o poder final de decisão sobre quem é aceitável como proprietário de um time.

O executivo que está envolvido em arrecadar dinheiro para investir em clube disse que a potencial transação da RedBall Spac estabelecerá o tom. “A verdadeira questão no caso do Fenway é se a MLB aprovará a compra. É um risco real, nessa circunstância. A aprovação muda tudo.”

Há negociações em curso entre a RedBall e o Fenway, mas não há qualquer garantia de que surgirá um acordo, especialmente diante do desordenamento atual.

Para a temporada de 2020, o Red Sox deve sofrer um baque de US$ 338 milhões só com a perda de venda de ingressos, de acordo com uma análise do Team Marketing Report.

“Todo o mundo está buscando resolver os problemas de curto prazo da pandemia, e uma das maneiras de fazê-lo é permitir a infusão de capital institucional”, disse outro administrador de fundos independente que trabalha com ambas as ligas e com proprietários de times.

Com o número de casos de Covid-19 voltando a subir em todo o planeta, e com a demora de meses prevista para a distribuição e aplicação completa de vacinas, os atrativos do capital privado devem continuar fortes no mundo do esporte em 2021.

“Há muito sangue no chão por aqui, as franquias estão sangrando”, disse o administrador de fundos.

Tradução de Paulo Migliacci

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