Treinar a seleção é mais complexo do que pensar só em Marta, diz Pia

Técnica sueca busca melhora de intensidade e compactação no Brasil para a Olimpíada

São Paulo

Desde que chegou ao Brasil, há um ano e meio, para comandar a seleção feminina de futebol, a sueca Pia Sundhage, 60, fez reverência a Pelé, cantou Alceu Valença e até se acostumou ao atraso rotineiro dos brasileiros.

Mas apesar de saber a letra de "Anunciação", o aprendizado do nosso idioma ainda é uma barreira. "Esse português está me deixando louca, é muito difícil!", diz a treinadora, aos risos, em entrevista à Folha.

O perfil brincalhão, que já caiu nas graças de torcedores e torcedoras, dá lugar à seriedade quando o assunto é o que acontece dentro das quatro linhas.

Pia busca uma melhora do nível de desempenho da seleção, que passa pelo desenvolvimento de três aspectos que ela identifica como problemáticos do futebol brasileiro: controle emocional, intensidade inferior à da Europa e compactação das equipes.

"Eu assisti à final do Brasileiro que o Corinthians venceu o Kindermann. Há trechos do jogo em que se chega a essa intensidade, mas não se sustenta. Os times se soltam, ficam espaçados", analisa. "Nós temos a técnica, só precisamos de um pouco mais de velocidade no jogo."

De olho na Olimpíada, a sueca também fala sobre os papéis das veteranas Marta e Formiga e diz que não há lugar cativo na convocação para os Jogos de Tóquio. "Se elas tirarem o pé, não terão chance."

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Já faz um ano e meio que a senhora assumiu a seleção. Como tem sido sua vida no país até aqui? É muito diferente de tudo o que eu já fiz. O futebol é o mesmo. Você tem dois gols, dois times, as estrelas, espírito de equipe e tal. A diferença é a cultura. Quando eu estava nos Estados Unidos, o inglês, ainda que não seja meu idioma nativo, era mais fácil. Mas esse português está me deixando louca, é muito difícil! Ser treinadora de futebol é pura comunicação. Dar indicações, feedbacks. No início, eu também ficava impressionada que ninguém chegava no horário. Eu sou sueca, sempre pontual. Precisei escolher minhas batalhas. E se uma técnica quer ter sucesso, é importante conhecer com quem está falando. Então esse [o idioma] é o meu maior desafio, um desafio divertido.

Na seleção dos Estados Unidos, você ilustrou o seu trabalho com uma música do Bob Dylan, que fala sobre mudanças. Há alguma música que já simbolize o seu trabalho no Brasil? Aquela canção, "The Times They Are a-Changin", significava na época que eu estava em um outro país e precisaria mudar se eu quisesse chegar às atletas. E as atletas também precisariam mudar para chegar a mim e ter sucesso. Então acho que é uma ótima canção. Tem a música do Alceu Valença, a do "tu vens" [Anunciação], que foi a primeira música que cantamos. O estafe estava cantando, minha assistente sueca [Lilie Persson] não entendia uma palavra, mas ela estava sorrindo. Foi algo muito legal criar isso ao redor dessa música.

Que outros aspectos da cultura brasileira já a impactaram de alguma forma? Eu venho da Suécia e sou muito organizada. E isso me lembra como as jogadoras brasileiras são emocionais. Pode ser uma força, mas também uma fraqueza. Quando não vão bem, não quero que nenhuma delas entre em um processo de resolver as coisas sozinhas. Se algo não funciona, eu quero que elas mantenham uma organização sueca. Com emoções, mas organizadas. Estive muitos anos nos Estados Unidos e elas são as líderes em tirar o melhor de cada uma. Não sabem perder e há uma razão para isso: elas amam competir. As brasileiras também amam competir, mas a chave é, quando você não vence, transformar isso em força para o time.

Quando a senhora chegou em 2019, mostrou admiração pelo futebol brasileiro. Qual a sua primeira lembrança com relação ao Brasil? Minha primeira memória é o meu irmão e a minha irmã dizendo que a Suécia havia enfrentado o Brasil na Copa do Mundo de 1958. E que um jovem jogador chamado Pelé marcou gols. Eu queria marcar gols também, então eu com cinco, seis anos de idade dizia que eu era Pelé. Não havia futebol feminino na época, eu jogava com meninos. Eu corria no quintal e dizia ser Pelé. Foi a minha primeira conexão com o Brasil.

A senhora trará mais um assistente, Anders Johansson, para trabalhar ao seu lado em 2021. O que ele irá incorporar ao seu trabalho? Ele esteve na elite masculina do futebol sueco, também na elite feminina, e quero que trabalhe com a defesa. Nós temos sido seguras na defesa, mas precisamos ser mais precisas no posicionamento e um pouco mais rápidas na tomada de decisão. E também nas bolas paradas. Ele esteve com a gente já para os jogos contra o Equador, trabalhando nisso. Tenho Lilie [Persson] responsável pelo ataque e Anders responsável pela defesa.

Mulher idosa com roupas esportivas em pé em gramado olha para outra mulher, de azul, que segura bola nas mãos
A treinadora sueca Pia Sundhage durante partida com a seleção brasileira feminina de futebol - Lucas Figueiredo/CBF

De que forma o adiamento da Olimpíada de Tóquio para 2021 atrapalhou seu planejamento? Nós tínhamos um planejamento muito bom trabalhando junto com [Luciano] Capelli [fisiologista] e Fábio [Guerreiro, preparador físico] para o nosso calendário. A Covid-19 fez com que a gente não se encontrasse. Enquanto isso, as seleções europeias jogaram, disputaram a classificação à Euro. Então estão um pouco na frente.

A senhora conquistou duas medalhas de ouro olímpicas com os EUA. O que poderá trazer dessas experiências, mentalmente falando, para a seleção brasileira nos próximos Jogos? Escolher as prioridades corretas. É muito importante apontar para onde você quer que as jogadoras olhem, mais importante que ganhar o próximo jogo. Primeiro de tudo, você tem um jogo a cada dois dias, e isso é muito difícil. Com a equipe americana, nós treinamos bastante. Já com a Suécia, em 2016, algumas jogadoras não chegaram nem a treinar entre uma partida e outra. Organização é importante. E eu já estive em todos os tipos de situações.

Formiga terá 43 anos na Olimpíada. Marta, 35, e Cristiane, 36. Depender de atletas veteranas é um problema no desenvolvimento de atletas jovens? Nunca é um problema. Mas é muito importante, até pelo respeito ao futebol feminino do Brasil, olhar para as mais novas. E nós temos feito isso ultimamente. Não é sobre a idade, é sobre performance. A coisa mais perigosa é conquistar as coisas de graça. É por isso que gosto da mistura. Você tem jogadoras experientes, mas também as jovens que lembrem as mais velhas de que isso não vai durar para sempre. Enquanto uma jogadora como Formiga, como Marta, fizer o melhor em cada treinamento, elas terão chance de formar o time da Olimpíada. Mas se elas tirarem o pé um pouco, não.

A senhora já encontrou o papel que Marta poderá desempenhar na sua equipe? Eu não sei. A questão não é sobre a performance individual de Marta, é sobre o time. Debinha, por exemplo, está marcando muitos gols, mas a questão é: por quê? Não só com Debinha, mas com Ludmila, Formiga, Luana... É mais complexo do que pensar só na Marta. A pergunta é importante. Nós iremos discutir bastante como utilizar Marta. Se ela estiver saudável e jogando bem, nosso trabalho é fazer com que ela tenha sucesso. Nós estamos felizes que muitas jogadoras estão desempenhando bem. Antes da Olimpíada, terei uma resposta. Agora, não.

Recentemente ocorreram dois períodos de treinamento com grupos diferentes de atletas. Um com jogadoras do futebol brasileiro, na Granja Comary, e outro com nomes do exterior, em Portugal. Percebeu alguma diferença entre esses dois grupos? A diferença é a velocidade do jogo, intensidade. As jogadoras da Europa, Formiga e Luana, por exemplo, elas jogam no PSG e enfrentam outros times europeus, e a velocidade do jogo se mantém por 90 minutos. Eu assisti à final do Brasileiro que o Corinthians venceu o Kindermann. Há trechos do jogo em que se chega a essa intensidade, mas não se sustenta. Os times se soltam, ficam espaçados. Isso não acontece com frequência na Europa. Fizemos os mesmos exercícios nos períodos da Granja Comary e de Portugal, com GPS nas atletas. A intensidade foi maior entre as jogadoras europeias. A liga brasileira está melhorando nisso.

A senhora já enfrentou o Brasil na carreira e assistiu a muitos jogos antes de assumir a seleção. Há algo nas jogadoras brasileiras que tenha lhe surpreendido no trabalho com elas? Quando enfrentamos o Brasil, a tática era: se você conseguir lidar com a pressão alta delas, elas diminuem o ritmo e aí poderemos controlar o ataque. Eu sentia essa coisa brasileira de "sou atacante, não vou voltar para marcar". A ideia é que todo mundo defenda. O que me surpreendeu foi mudar isso muito rapidamente. Achei que fosse levar uma vida, porque é algo que está no sangue brasileiro. Mas elas são jogadoras coletivas, atletas de equipe. Foi uma surpresa muito positiva.

Manter o time compacto e intenso durante todo o jogo é o seu maior desafio então... Absolutamente, essa é uma ótima forma de explicar. Se a gente se espalha no campo, sinto que não poderemos usar nossa técnica. Em espaços pequenos, somos as melhores do mundo. Mas é preciso ir a algum lugar, ter uma direção. A gente usa uma expressão: "challenge the line" [desafiar a linha]. Se a gente joga espalhado, tem mais dificuldades de trazer o nosso melhor para o jogo.

A senhora mencionou a final do Brasileirão entre Corinthians e Kindermann. Que outros clubes e trabalhos do país vocês destacaria? Às vezes, há muita diferença entre o melhor time e o pior. Mas isso acontece na França, na Suécia, na Alemanha. Times de meio de tabela, quando estão em um bom dia, podem vencer o Corinthians ou o Kindermann. É preciso que isso aconteça com mais frequência para que se tenha um jogo mais competitivo. As equipes têm dificuldade de se manter dentro do plano de jogo. Se você observa a parte final dos jogos, claro que o resultado influencia muito na parte mental e física, mas os times estão espalhados sem razão nenhuma.

Uma das expectativas que sua contratação trouxe foi não apenas o trabalho na seleção, mas também de desenvolvimento da modalidade. A senhora sente essa responsabilidade? Eu espero que as pessoas olhem para mim como uma pessoa generosa. Tenho a chance de compartilhar o meu conhecimento, e você pode fazer o que quiser com esse conhecimento. A questão é que, quando se trata de clubes, leva tempo para criar uma conexão. O que eu tentei desde o início foi mostrar respeito. Um respeito criativo, que possa decidir em conjunto o que os clubes brasileiros podem fazer. Com relação à parte física, por exemplo. É óbvio que o jogo está ficando cada vez mais rápido. E a questão é como você lida tecnicamente com essa velocidade de jogo. Nós temos a técnica, só precisamos de um pouco mais de velocidade, correr sem e com a bola. Então acho que aí poderemos levar o jogo das mulheres ao próximo nível.

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