Descrição de chapéu The New York Times

A NBA voltou, mas não para os artistas que se apresentam nos intervalos

Pandemia mantém profissionais afastados, apesar do retorno dos times aos seus ginásios

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Scott Cacciola
The New York Times

Steve Max costuma passar seus invernos instruindo torcedores em arenas de basquete, ordenando que ergam os braços, toquem seus ombros ou cubram seus olhos. Ele comanda brincadeiras de “o mestre mandou”, nos intervalos de partidas de basquete da NBA, e viaja pelos Estados Unidos divertindo os torcedores de basquete.

Ou essa era sua linha de trabalho até março, quando a pandemia do coronavírus esvaziou as arenas e silenciou seu microfone. Max passou os últimos nove meses em casa, em White Plains, Nova York, procurando ocupações. Além de atualizar seu site, ele tentou se adaptar à estranheza do momento em curso, com estímulo de sua mulher, Linda Harelick.

Depois de ler que um santuário de animais estava oferecendo bodes para participação em conversas corporativas via vídeo, ela fez uma sugestão: se os bodes conseguem ganhar dinheiro, você também deve conseguir.

“E por isso transformei minha saleta em um estúdio de Zoom”, disse Max, cujo nome real é Steve Harelick, em uma entrevista por telefone. “Na quinta-feira vou fazer um trabalho para a Ernst & Young."

Max, 58, e muitas outras pessoas, encontraram um nicho de mercado entretendo torcedores da NBA, mas esse nicho desapareceu por conta da pandemia.

Embora alguns poucos times de basquete tenham começado a temporada recebendo número limitado de torcedores em seus ginásios –e alguns estejam permitindo que suas equipes de dança se apresentem nas arquibancadas—, nenhum está contratando pessoal para entreter a torcida nos intervalos dos jogos. Contorcionistas, acrobatas, cachorros treinados para apanhar frisbees –todos eles estão esperando o momento de voltar, esperando que o espetáculo seja retomado.

Gary Borstelmann, que se apresenta como Amazing Sladek e planta bananeiras sobre uma pilha alta de cadeiras posicionada na quadra, vem suplementando seu regime diário de condicionamento –muito alongamento, muitas acrobacias– com exercícios sobre um par de cadeiras no jardim de sua casa, algumas vezes por semana. Ele sabe que precisa manter a forma.

“Se você me visse treinar, não prestaria muita atenção: sou só um cara se equilibrando sobre duas cadeiras”, ele diz. “Mas a intensidade de fazê-lo sobre seis cadeiras sempre retorna à minha memória."

Simon Arestov e Lyric Wallenda Arestov, um casal que faz um número de equilibrismo sobre um equipamento circense conhecido como “rolla bolla”, teve de explicar as realidades da vida a seu filho Alex, 3, que muitas vezes participa do encerramento do número.

O artista Steve Max, durante evento esportivo
O artista Steve Max, durante evento esportivo - @simonsezguy no Instagram

“Ele vê nossas fantasias, porque eu preciso remendá-las e garantir que tudo esteja preparado quando nos chamarem de volta”, disse Wallenda Arestov. “Comenta que aquela é a fantasia dele e quer saber se vamos a um jogo de basquete. Isso me entristece, porque fica claro que ele também sente falta dos jogos."

Além do efeito financeiro –os artistas que se apresentam nos intervalos costumam receber cachês entre US$ 1,5 mil (cerca de R$ 8 mil) e US$ 5 mil por jogo (R$ 26,5 mil)—, os efeitos da pandemia se fazem sentir também em suas comunidades. David Maas, que se apresentava com a mulher, Dania Kaseeva, em uma dupla chamada Quick Change, morreu de Covid-19 em novembro.

“Eu realmente sinto muito pelos amigos do ramo”, disse John Terry, do Oklahoma, que trabalha como agente de artistas que se apresentam no intervalo de jogos de basquete. “São pessoas criativas, e em muitos casos essa é sua única fonte de renda. Alguns deles faturavam centenas de milhares de dólares por ano, e quando perdem esse dinheiro, não há como substituí-lo."

Todos eles se recordam detalhadamente do dia em que tudo mudou.

Em 11 de março, Arestov, 36, e Wallenda Arestov, 36, estavam em casa em Sarasota, Flórida, se preparando para viajar a Nova York, onde se apresentariam no torneio de basquete universitário da Big East Conference, no Madison Square Garden –um dos cerca de 30 shows que eles fazem por ano para a NBA e para a NCAA.

Mas naquela noite, Rudy Gobert, do Utah Jazz, foi apanhado em um exame de coronavírus antes de uma partida contra o Oklahoma City Thunder, e o casal logo recebeu um telefonema de um dirigente da NCAA: o torneio limitaria a presença de público. Pouco depois, foi cancelado em definitivo.

Na época, o casal tinha uma longa lista de apresentações marcadas para o restante da temporada da NBA. Também estavam planejando viajar durante o verão, em seu motorhome de 14 metros de comprimento, se apresentando em festivais e circos, às vezes duas ou três vezes por dia. Eles fazem em média 400 shows por ano.

De março para cá, porém, eles se apresentaram exatamente quatro vezes. O retorno ao trabalho, depois de seis meses de pausa, aconteceu em setembro, na Feira Rural do Condado de Juniata, em Port Royal, Pensilvânia. Os dois choraram.

“Eu tinha esquecido a sensação de me apresentar diante de uma audiência”, disse Arestov.

Borstelmann costumava dizer que se aposentaria aos 65 anos. Aos 62, ele já se descreve como –respire fundo antes de dizer– o mais velho acrobata que planta bananeira sobre cadeiras nos Estados Unidos. Existe um elemento de risco físico que Borstelmann assume a cada vez que ele se equilibra sobre a pilha de cadeiras, cerca de 7,5 metros acima do círculo central da quadra.

“Eu sou o único dos artistas que se apresentam nos intervalos que arrisca de verdade a vida, sabe?”, disse Borstelmann. “Se eu cair, não é provável que consiga me levantar."

Mas a pandemia alterou seus planos –e de maneira surpreendente. “Agora quero continuar até os 70 anos”, ele disse. “Não vou deixar que a pandemia me pare."

Depois de fazer uma apresentação no intervalo de um jogo na Grand Canyon University, em Phoenix, no dia 7 de março, Borstelmann embarcou sua bagagem em sua minivan Chrysler e atravessou o país de carro, em quatro dias, para chegar a Greensboro, na Carolina do Norte, onde se apresentaria durante o torneio de basquete masculino universitário da Atlantic Coast Conference.

Cerca de 15 minutos depois de ele se registrar no hotel, em 11 de março, recebeu a notícia de que o torneio havia sido cancelado. Borstelmann ficou sentado na cama, assistindo ao programa “SportsCenter” da ESPN e tentando digerir o que aquilo significaria para ele.

“Perdi meus últimos 12 contratos”, disse Borstelmann. “Isso foi um baque. Meu Deus. Seria provavelmente o único dinheiro que eu conseguiria guardar na temporada, depois de pagar minhas despesas e tudo mais."

O basquete é o ganha-pão de Borstelmann. Ele faz cerca de 40 apresentações por ano nos intervalos de jogos, percorrendo o país em sua minivan (não confia nas companhias de aviação para transportar suas cadeiras construídas sob encomenda).

Mas Borstelmann passou os últimos nove meses em casa, em New Smyrna Beach, Flórida, com Grace, 90, sua mãe, e Kerri Grace, 33, sua filha, que voltou à Flórida depois de deixar seu trabalho como professora em Hong Kong.

“Sou um cara de família”, disse Borstelmann. “Por esse lado, foi bom."

Ele está ciente de que não pode fazer o que faz pelo resto da vida. E saberá que é hora de parar, diz, quando perder o sangue frio ou a força, e deixar de se sentir seguro. Mas a pandemia de certa forma ofereceu um vislumbre de uma vida longe dos holofotes, e ele não pretende encostar as cadeiras, por enquanto.

“Nos cinco minutos em que estou no centro da quadra, me comunicando com a plateia, sou o Amazing [maravilhoso] Sladek. Mas quando não puder mais fazê-lo, vou ser só o Sladek, cara."

Tradução de Paulo Migliacci

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