Descrição de chapéu Tóquio 2020

Antes de pensar em medalhas, Brasil inicia ano olímpico preocupado com vírus

Jogos de Tóquio estão marcados para julho, mas incertezas na preparação deixam COB em alerta

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Curitiba

O diretor de esportes do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Jorge Bichara, notou uma mudança importante com a chegada de 2021. Normalmente, perto da virada para um ano olímpico, ele costumava ser questionado a respeito da meta de medalhas da delegação brasileira. Agora, praticamente só responde a perguntas sobre os impactos do coronavírus em sua área de atuação.

Após o adiamento da Olimpíada de Tóquio, decisão inédita tomada em março do ano passado, pouco tempo depois de a pandemia ter começado a assustar o mundo, milhares de atletas, treinadores e dirigentes iniciam 2021 apreensivos não apenas com suas performances e as dos rivais. A primeira dúvida a ser respondida é que tipo de Jogos será possível realizar.

Em novembro, a organização do megaevento apresentou quatro cenários de preparação, divididos segundo o grau de preocupação com a pandemia. Atualmente, os japoneses têm como base o segundo plano mais otimista, chamado de "aprendendo a viver com [o vírus]”.

Esse cenário prevê que a vacinação não será uma realidade universal até 23 de julho, data marcada para a cerimônia de abertura, e que portanto haverá uma série de restrições para garantir distanciamento social e medidas sanitárias num evento com dezenas de milhares de pessoas envolvidas —11 mil delas atletas.

Até o momento, a presença de público está confirmada na Olimpíada, mas medidas mais exatas sobre esse tema, além do fluxo de chegadas e saídas do Japão e da hospedagem na Vila Olímpica só serão definidas por volta de abril e maio, datas em que estão marcados eventos-teste.

Por enquanto, cabe aos comitês nacionais trabalhar a partir das informações que recebem dos organizadores, sabendo que tudo pode mudar rapidamente.

O COB atua com duas médicas para definir as adaptações. Estas incluem itens como o material em que os uniformes serão distribuídos para a delegação, a forma de alimentação no Japão —estavam previstos buffets, que deverão ser trocados por serviço à la carte— e a maneira de organizar os lugares nos ônibus.

O comitê fechou uma parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e espera em breve oferecer um programa massificado de testagem e análise ao time brasileiro durante o primeiro semestre. Não há perspectivas de que o esporte seja incluído como prioridade no plano nacional de vacinação.

“Existem prioridades no atendimento. Os esportistas, mesmo em preparação para os Jogos, têm que entender isso. Trabalhamos com a expectativa de que a vacina possa ser usada em algum momento, mas com a realidade de que isso possa não vir a acontecer. Então temos que apostar nas medidas de controle, desde higiene pessoal ao distanciamento e uso de máscara”, afirma Bichara à Folha.

O diretor vê com preocupação o aumento de casos de infecção no país, também entre atletas. Em julho e agosto, o COB distribuiu um questionário para 1.200 deles. Dos 939 que responderam, 7% tinham contraído a Covid-19.

“Já nos causou apreensão. Dois desses chamaram a atenção em relação a sequelas que têm relação direta com capacidade cardiopulmonar. Estamos monitorando. Devemos ter no final de janeiro nova avaliação, mas pelas informações preliminares esses números já são bem superiores. Gera preocupação não só pelo desempenho esportivo, mas de vida”, diz.

Para preservar os esportistas que tiveram as complicações mais graves, o diretor não cita seus nomes. Na sua avaliação, esse aumento de casos no esporte não deve ser colocado na conta do retorno das competições no segundo semestre, mas ao relaxamento da sociedade brasileira de uma forma geral. “Isso traz uma apreensão muito grande. Não se brinca com 190 mil mortes.”

Existe ainda o temor com a saúde mental daqueles que estão acostumados a terem suas rotinas de treinos e competições bem planejadas, mas que tiveram que se adaptar às incertezas.

“Isso gera insegurança e efeitos de nível emocional. Os primeiros meses [após o adiamento dos Jogos] foram bem complicados, mas, conforme os psicólogos foram atuando, entendo que terminamos o ano numa situação bem melhor do que tínhamos como perspectiva em março”, afirma Bichara.

Com o calendário prejudicado, as planilhas de resultados do diretor ficaram mais vazias em 2020. Houve uma variação grande entre esportes que retornaram com grandes competições e recordes, outros com eventos menores e alguns que nem sequer tiveram disputas no ano passado.

Por isso, ficou difícil medir a evolução de desempenho. Entre os destaques possíveis estão as performances de Henrique Avancini no ciclismo mountain bike e de Ana Sátila na canoagem slalom. Hugo Calderano, que joga tênis de mesa na Alemanha, ficou pouco tempo fora dos treinos e competições. Já esportes de combate sofreram mais, e nos coletivos as seleções pouco ou nada se reuniram.

O canoísta Isaquias Queiroz, 26, que conquistou três medalhas na Rio-2016 e tem grandes chances de voltar ao pódio em Tóquio, conseguiu cumprir suas semanas de treinos planejadas em 2020, tirou férias e voltou ao batente. Ajudou o fato de a seleção brasileira de canoagem velocidade já treinar em condições mais isoladas em Lagoa Santa, região metropolitana de Belo Horizonte.

Isaquias relata que pôde aprimorar sua técnica e se adaptar melhor a um novo barco no ano passado. O treinador Lauro de Souza Júnior optou por diminuir a intensidade dos treinos para que os atletas não cansassem desnecessariamente numa temporada quase perdida.

“A dificuldade foi ficar um ano sem competição, sem saber como está meu nível em relação aos adversários. Estava pensando em depois de Tóquio ter férias mais prolongadas, por causa da idade e de vários anos de preparação intensa, mas isso teve que ser adiado também”, diz o atleta.

A pandemia impediu que ele viajasse mais para encontrar a família, mas dentro de casa, com a mulher e o filho, fez como muitas outras pessoas e aproveitou o tempo livre para se aprimorar na culinária.

“Minhas férias não foram as mesmas. Não pude ir à praia, lavar a alma com a água do mar da Bahia para renovar a força. Mas fiquei um pouco mais craque na gastronomia. Comprei uma churrasqueira elétrica e no fim de semana a gente faz uma carne para passar o tempo", conta.

Em 2020, o COB enviou 238 atletas de 24 modalidades para o que chamou de "Missão Europa". O objetivo principal foi proporcionar períodos de treinos no continente, especialmente no centro esportivo da cidade portuguesa Rio Maior, e testar protocolos sanitários.

De máscara, velejadoras mexem no barco
Treino das campeãs olímpicas de vela Martine Grael e Kahena Kunze em Cascais, Portugal - Marcello Bravo - 27.jul.20/COB

O Brasil tem atualmente 180 vagas garantidas em Tóquio e depende de definições dos calendários das modalidades no primeiro semestre para saber quando poderá confirmar outras mais. Mas isso será assunto para os próximos meses. “Resultado não é o mais importante agora. É o momento de estar saudável e bem emocionalmente”, conclui Bichara.

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