Descrição de chapéu
Copa Libertadores 2020

Cuca opta pela cautela no Maracanã, e Santos perde chance do tetra

Cabeçada de palmeirense impede coroação do técnico e do time, que tiveram caminhos improváveis

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

A opção de Cuca pela cautela funcionou por 95 minutos. Mas a partida teve 99, com os acréscimos. Foi a partir dos 50 do segundo tempo que tudo deu errado.

O treinador resolveu disputar uma bola que saiu pela lateral com o palmeirense Marcos Rocha. O ato foi inexplicável, mas o resultado, previsível. Acabou expulso, enquanto pedia que o árbitro argentino Patricio Loustau consultasse o VAR.

Cuca agachado e com as mãos na cabeça à beira do campo durante a final da Libertadores entre Santos e Palmeiras, no Maracanã
Cuca agachado à beira do campo durante a final da Libertadores entre Santos e Palmeiras, no Maracanã - Staff Images/Conmebol

Pouco depois, aos 53, Pará quase não saiu do chão em cruzamento de Rony para Breno Lopes marcar.

O futebol é capaz de marcar a trajetória de jogadores por causa de um segundo. O gol que decidiu a Libertadores foi anotado na mesma trave em que, há pouco mais de seis anos, Mario Gotze deu o título mundial para a Alemanha. Depois disso, ele quase nada fez no futebol. Mas está na história.

Foi na mesma área que o atacante Rodrigo Palacio teve a chance de fazer da Argentina campeã minutos antes. Ele tentou encobriu o goleiro Neuer em vez de dar um chute rasteiro. Ficou como a imagem definitiva da carreira do jogador. Não só pelo lance, mas também pela expressão “era por abajo”, que entrou no folclore do país.

O Santos de 2020 foi improvável, mas todo o sucesso pode ficar manchado por causa do segundo em que Breno Lopes acertou o canto direito.

Cuca não acreditou no que viu seus próprios olhos. Depois de ver seu time golear Grêmio e Boca Juniors nas quartas de final e semifinal da Libertadores, respectivamente, ele resolveu mudar.

Na partida contra os gaúchos (4 a 1), havia escalado Lucas Braga na vaga de Soteldo, que estava com Covid-19.

Diante do Boca (3 a 0), colocou o time com o venezuelano, Lucas Braga, Kaio Jorge e Marinho. Os argentinos não viram a cor a bola.

Cuca desconfiou do que havia visto e optou pela cautela na final. No lugar de Lucas Braga, escalou Sandry, volante que sabe sair para o jogo. Mas ainda assim, um volante. Ele formou linha de três com Diego Pituca e Alison.

A ideia era recuperar a bola e acionar Soteldo e Marinho. Os pontas teriam mais liberdade. Na questão defensiva, o plano deu certo. Pelo menos até os acréscimos. Mas o Santos quase não criou.

Soteldo demorou para entrar na partida e, quando isso aconteceu, de forma apagada. Marinho esteve longe do jogador que seria eleito, logo após a final, o melhor da Copa Libertadores.

Cuca guardou Lucas Braga, um atacante que começou a temporada na Internacional de Limeira, time da Série A1 do Campeonato Paulista, para o segundo tempo. Seria opção de velocidade quando os marcadores palmeirenses, na teoria, estariam cansados.

O Santos não teve nenhuma chance clara para marcar. A cabeçada que Lucas Veríssimo não conseguiu chegar a tempo e o chute de fora da área de Felipe Jonatan não entram nesta categoria.

Depois da final, Alison exaltou a juventude da equipe, que chegou mais longe do que se esperava.

O imediatismo do futebol pode fazer a cabeçada de Breno Lopes apagar tudo de bom feito por Cuca e pelo time.

O Santos era pouco lembrado como candidato para chegar à decisão continental e, no início do Brasileiro, foi considerado como possível rebaixado. A seis rodadas do fim, ocupa a décima posição. Ainda está na briga para voltar à Libertadores em 2021.

A derrota traz problemas de caixa para Andres Rueda, presidente que assumiu o cargo em 1º de janeiro. Se fosse campeão, o clube receberia US$ 15 milhões (cerca de R$ 82 milhões) como prêmio. O vice vai lhe dar US$ 6 milhões (cerca de R$ 33 milhões). A diretoria ainda tem dois meses de direito de imagem a acertar com o elenco.

A folha de pagamento do departamento profissional está em cerca de R$ 7,5 milhões mensais.

Se a cautela tática, a pouca inspiração de peças importantes e a falha defensiva no fim impediram o Santos de se tornar de maneira isolada o maior campeão brasileiro da Libertadores (com quatro troféus), os erros serão lamentados por Cuca. Impediram que ele tivesse seu maior momento como treinador. Mais do que na campanha do título continental pelo Atlético-MG em 2013.

Aquela equipe mineira tinha Ronaldinho Gaúcho, Jô no ataque, Victor no gol e peças de reposição.

Na Vila Belmiro, o treinador teve de navegar entre uma crise política e outra, blindar o elenco, pedir pagamento de salários atrasados e buscar soluções em garotos da base.

Quando ele chegou, o Santos estava punido pela Fifa e não podia registrar jogadores. A situação ainda persiste.

Um título do time seria a coração de um dos grandes trabalhos recentes de um técnico no futebol nacional.

Depois de afastamento de presidente, escândalos políticos, contratação cancelada de Robinho e falta de dinheiro, seria também uma mostra de que organização e planejamento podem ser superadas por outras coisas no futebol.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.