Há 40 anos, Diego Maradona marcava o seu único gol contra o Brasil

Argentino anotou no 1 a 1 diante da seleção brasileira no Mundialito do Uruguai

São Paulo

Diego Armando Maradona, que morreu no último dia 25 de novembro, aos 60 anos, disputou alguns confrontos memoráveis contra o Brasil ao longo de sua carreira.

Como o da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, no qual foi expulso após dar uma solada em Batista em derrota da Argentina por 3 a 1. Ou o duelo pelo Mundial de 1990, em que, mesmo com o tornozelo esquerdo inchado, deixou Caniggia na cara do gol para o cabeludo atacante driblar Taffarel e eliminar a equipe de Sebastião Lazaroni.

A breve lista de grandes encontros entre Maradona e os brasileiros nas Copas já é maior, por exemplo, do que o número de gols que o argentino marcou no clássico entre essas seleções. Em seis enfrentamentos com a equipe brasileira principal, o camisa 10 anotou apenas uma vez. Foi em 4 de janeiro de 1981, na cidade de Montevidéu.

O Mundialito, disputado no Uruguai, foi um torneio que reuniu campeões mundiais na virada de 1980 para o ano seguinte. A competição foi iniciada em 30 de dezembro e se encerrou duas semanas depois, em 10 de janeiro.

Apenas a Inglaterra, das seleções campeãs do mundo até então, recusou o convite, abrindo vaga para a Holanda, que havia terminado as duas Copas do Mundo anteriores (1974 e 1978) com o vice-campeonato.

A Fifa, organizadora da competição, justificou a realização do evento como um marco recordatório dos 50 anos do primeiro Mundial, em 1930. Por isso, o local escolhido para sediar o Mundialito foi o Uruguai, sede da edição inaugural das Copas.

O pano de fundo da reunião futebolística, entretanto, tinha viés político.

O Uruguai vivia uma ditadura militar desde 1973 e esperava utilizar o torneio como um meio de celebrar uma vitória que eles acreditavam como certa. Em novembro, um mês antes da competição, estava marcada a realização de um plebiscito para ratificar o regime cívico-militar.

As urnas, contudo, responderam o que os militares não queriam ouvir. O regime recebeu 57% de votos contrários à sua manutenção no poder. Um indicativo da perda de força da ditadura, que entraria em um processo de abertura e se encerraria em 1984.

"Na noite em que os militares perderam o plebiscito estava proibido festejar nas ruas. Muita gente saiu com o carro e ligou o limpador de parabrisas mesmo sem estar chovendo. O simples movimento do instrumento era tudo que indicava o No (voto pelo não no plebiscito)" disse Andrés Varela, coprodutor do documentário "Mundialito", sobre o encontro da política com o futebol naquele contexto do Uruguai.

João Havelange, presidente da Fifa à época, falou ao documentário e negou que a realização do torneio, que até hoje só teve uma única edição, serviria como apoio institucional da Fifa à continuidade do governo militar uruguaio.

"Eu não faço política, eu faço esportes", afirmou Havelange, que morreu em 2016, aos 100 anos.

Em meio a esse ambiente de tensão política, Uruguai, Itália e Holanda ficaram no grupo 1 do torneio, enquanto Brasil, Argentina e Alemanha formaram o grupo 2.

Na estreia do Brasil no torneio, em 4 de janeiro, argentinos e brasileiros não saíram de um empate em 1 a 1.

Maradona ergue os braços e é abraçado por um companheiro
Maradona comemora seu gol contra o Brasil no Mundialito de 1981 - Reprodução

O Brasil, comandado por Telê Santana, foi a campo no Estádio Centenário com Carlos (João Leite), Edevaldo, Oscar, Luizinho e Júnior; Batista, Toninho Cerezo e Renato (Paulo Isidoro); Tita, Sócrates e Zé Sérgio.

A Argentina, treinada César Luis Menotti, campeão do mundo em 1978, foi escalada com Fillol, Olguín, Galván, Passarella e Tarantini; Barbas (Luque), Gallego e Ardiles; Bertoni (46 Valencia), Maradona e Ramón Díaz.

Diego Armando Maradona marcou o gol argentino, aos 30 minutos de jogo.

O camisa 10 ganhou dividida de Batista, que tentou parar o lance com a mão enquanto já estava caído, invadiu a área pela direita e driblou o zagueiro Oscar antes de chutar para o gol. O goleiro Carlos, que seria reserva no Mundial de 1982, não conseguiu segurar o chute do argentino e apenas amorteceu a bola, que entrou lentamente na meta.

No início da segunda etapa, aos 2 minutos, o lateral direito Edevaldo, do Fluminense, aproveitou bola alçada que passou por toda a grande área argentina e emendou um chute forte da direita, no ângulo do goleiro Fillol, para deixar tudo igual no placar.

No final da partida, jogadores das duas seleções se envolveram em uma confusão no meio de campo. Maradona e Valencia, do lado argentino, e Batista e Paulo Isidoro, do lado brasileiro, protagonizaram as cenas lamentáveis, que não foram registradas pelo árbitro Eric Linemayer na súmula.

Na edição do dia seguinte ao empate, a Folha se rendeu às qualidades de Maradona. "Don Diego fez de tudo em campo", dizia o título do texto com a avaliação das atuações da seleção argentina.

"Um gol, vários lançamentos e muito espírito de luta. Mais uma vez, Diego Maradona foi o maior destaque da Argentina. Mostrou por que é considerado um dos melhores jogadores do mundo na atualidade", publicou o jornal.

Os repórteres que participaram da cobertura também relataram o clima quente nos bastidores do Estádio Centenário, uma espécie de continuação da confusão nos minutos finais do jogo.

De acordo com o publicado, o lateral esquerdo argentino Alberto Tarantini agrediu um repórter brasileiro enquanto se dirigia para o exame antidoping, após a entrevista coletiva.

"Tarantini agrediu o repórter da Rede Globo Paulo Paulino Sendre. O jogador argentino, próximo da sala de conferência de imprensa, dirigia-se para o exame anti-doping. Ao passar defronte à sala de conferências, o repórter parece ter lhe dito algo. Tarantini voltou com muita rapidez e deu um violento soco, jogando o repórter para dentro da sala", registrou a Folha.

Na sequência do torneio, o Brasil goleou a Alemanha Ocidental por 4 a 1 e, com melhor saldo de gols que os argentinos, que haviam vencido os alemães na estreia por apenas 2 a 1.

No outro grupo, o anfitrião Uruguai venceu tanto os holandeses como os italianos pelo placar de 2 a 0 e foi à decisão do Mundialito contra a seleção brasileira.

A final foi disputada no dia 10 de janeiro de 1981, no Centenário, com mais de 70 mil torcedores presentes no estádio que assistiu à primeira final de Copa do Mundo da história.

Barrios abriu o placar aos 5 minutos do segundo tempo, e Sócrates empatou, de pênalti, aos 17. Mas Victorino, que termina o campeonato como artilheiro, anotou aos 35 da etapa final, marcou o seu terceiro no Mundialito e decretou o título da Celeste.

Nas arquibancadas, tão forte comos os gritos de gol dos uruguaios foi a canção "Se va acabar, se va acabar, la dictadura militar!", em uma oportunidade que o povo encontrou para celebrar, além do futebol, o enfraquecimento da ditadura após o plebiscito que escancarou o descontentamento do país com o regime.

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