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O que esperar do Brooklyn Nets com Harden ao lado de Durant e Kyrie Irving

Uma bola de basquete só pode não bastar para o novo supertime de Nova York

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Sopan Deb
The New York Times

A troca bombástica que o Brooklyn Nets organizou para adquirir James Harden, que estreou neste sábado (16) pela franquia com 32 pontos na vitória por 122 a 115 sobre o Orlando Magic, representa o início de um grande experimento em uma escala jamais tentada.

Três jogadores que gostam de reter a bola serão capazes de coexistir, depois de passarem a maior parte de suas carreiras como parte de ataques montados para satisfazer suas necessidades individuais?

“Sempre que é preciso integrar personalidades diferentes, temos de esperar para ver como tudo se encaixa em quadra em termos mais amplos”, disse Sean Marks, o diretor de operações dos Nets, a jornalistas na quinta-feira (14).

“Creio que esses caras tenham nos dado as respostas certas. Eles declararam que gostariam de jogar juntos. E conseguem ver um encaixe entre eles."

Harden, Kevin Durant e Kyrie Irving não são o primeiro trio de astros montado pelos Nets, e muito menos da NBA: Chris Bosh, Dwyane Wade e LeBron James ganharam dois títulos jogando juntos pelo Miami Heat; Ray Allen, Kevin Garnett e Paul Pierce também conquistaram um título para o Boston Celtics.

James Harden cumprimenta Kevin Durant em sua estreia pelo Brooklyn Nets, contra o Orlando Magic
James Harden cumprimenta Kevin Durant em sua estreia pelo Brooklyn Nets, contra o Orlando Magic - Sarah Stier/AFP

Mas para oferecer um indicador de o quanto esse novo trio é incomum, vale a pena apontar por quanto tempo seus integrantes tiveram posse de bola ao longo de suas carreiras. Um bom indicador disso é o chamado “índice de uso”, que mostra a porcentagem de tempo que cada jogador fica com a bola em mãos, seja para arremessá-la ou até perdê-la para o adversário.

Os astros do basquete costumam deter a bola em suas equipes por entre 25% e 30% do tempo. No caso de Durant, o índice é de 30,2%, e no de Irving 29,3%. Mas Harden está em patamar diferente. Ele é um dos dois jogadores na história da NBA a atingir os 40% durante toda uma temporada, o que fez em 2018/2019; o outro é Russell Westbrook, colega de time de Harden na temporada passada, que superou os 40% em 2016/2017.

Na era dos supertimes da década de 1980, Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar, colegas de equipe no Los Angeles Lakers, não chegaram nem perto dos 30% em qualquer temporada. Larry Bird fez isso uma vez com o Boston Celtics, mas por pouco.

Seu colega de time Kevin McHale, um dos melhores jogadores de garrafão de todos os tempos, nunca chegou aos 25%. Michael Jordan, com 33,26%, tem o maior índice médio de uso em sua carreira. Seu colega de equipe, Scottie Pippen, mais facilitava jogadas para os companheiros que finalizava (22,52%).

O estilo de jogo de Durant, Harden e Irving tem muitos aspectos em comum, mas há variações importantes entre eles. Os três são fenomenais na condução de bola, por exemplo, mas costumam obter seus pontos de maneiras diferentes.

Para determinar de que maneira eles podem trabalhar juntos nos Nets, vamos usar principalmente estatísticas da última temporada completa de Durant na liga, quando ele jogava com Stephen Curry, outro astro que retém muito a bola, no Golden State Warriors. Para Irving (20 jogos) e Harden, usaremos os números da temporada passada.

Nenhum homem é uma ilha (a não ser James Harden)

Os astros dos Nets prosperaram jogando basquete de um para um, ou seja, eles conduzem a bola e batem adversários em jogadas individuais.

Em Houston, sob o treinador Mike D’Antoni, os Rockets enfatizavam as jogadas individuais em um momento no qual o restante da liga estava se distanciando desse estilo de jogo, muitas vezes entregando a bola a Harden enquanto seus colegas se espalhavam pela quadra à espera de que ele criasse oportunidades de finalização.

Na temporada passada, 45% das posses de bola de Harden aconteceram em situações de isolamento, uma porcentagem quase duas vezes superior à de Westbrook, o segundo colocado nesse quesito, entre os jogadores da NBA.

E o sistema funcionou. Não só Harden registrou alguns dos melhores números ofensivos na história da NBA como os Rockets, sob o comando de D’Antoni da temporada de 2016/2017 à de 2019/2020, foram um dos melhores ataques da liga. Agora, Harden voltará a trabalhar com D’Antoni, que é assistente técnico do treinador Steve Nash nos Nets.

Mas em lugar de ser um propulsor do ataque, como costumava fazer no estilo dos Rockets, Harden será uma das três opções de elite do novo time.

Mesmo na atual temporada, sem D’Antoni no comando do time, os Rockets lideravam a NBA em jogadas de isolamento, por causa de Harden. Os Nets eram o nono colocado nessa categoria, antes da troca da quinta-feira, ainda que seja razoável presumir que sua posição provavelmente seria mais alta se Irving não estivesse afastado por motivos pessoais (não joga desde 5 de janeiro) e se Durant não tivesse ficado três jogos fora do time por conta dos protocolos do coronavírus.

Durant esteve entre os 20 líderes da NBA em termos de porcentagem de jogadas de isolamento, com 15,6% em sua última temporada completa, um número bem inferior ao de Harden. Nesta temporada, ele está partindo para jogadas individuais com frequência menor do que fazia no Warriors (13,7%).

É quanto a isso que terá de haver um grande ajuste, por parte de todos os jogadores. Harden está acostumado não só a receber a bola, mas também a retê-la e estar em completo controle do ataque do time.

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Onde Harden mais se diferencia de Irving e Durant é na frequência com que ele busca atrair faltas e ir à linha de lance livre. Harden tem média de pelo menos 10 lances livres por jogo em 7 das últimas 8 temporadas. Ele muitas vezes frustra os oponentes, às vezes ao propositadamente emaranhar seus braços nos deles quando realiza tentativas não muito convictas de arremesso.

Irving é o oposto. Ele busca evitar contato, optando por arremessos em “fade” em lugar de se deixar atingir. Seu pico em termos de lances livres por jogo aconteceu na temporada passada, quando ele jogou apenas 20 jogos, com 5,1. Durant atingiu os 10 lances livres por jogo apenas uma vez em sua carreira, mas ainda assim supera Irving, com média de 7,7 lances livres por partida em sua carreira.

Kyrie Irving e Kevin Durant receberão o novo astro em busca do título da NBA
Kyrie Irving e Kevin Durant receberão o novo astro em busca do título da NBA - Sarah Stier - 1º.jan.2021/AFP

Harden também apresenta a maior probabilidade, entre os três, de penetrar até a cesta, o que aumenta a chance de atrair faltas —41% dos arremessos de Harden no ano passado aconteceram a menos de três metros da cesta, ante 29,7% para Durant e 34,9% para Irving, de acordo com estatísticas da NBA.

Timing é tudo

Harden segura a bola por mais tempo antes de arremessar –55,6% de seus arremessos vieram depois de ele segurar a bola por pelo menos seis segundos. Para Durant, isso acontece em 28% das ocasiões, e para Irving em 44,7%.

Isso é propositado, em parte. Nos Warriors, o treinador Steve Kerr insistia em que a bola fosse movimentada constantemente, enquanto nos Rockets o sistema foi montado para dar tempo a Harden para fustigar a defesa. Mas mesmo nesta temporada, a proporção de arremessos de Durant depois de seis segundos continua a ser a mesma que era no Golden State.

Depois que Durant deixou o Warriors e assinou com os Nets, ele se queixou do sistema ofensivo de movimento de bola do ex-time, dizendo que isso o limitava.

Traçando uma linha no garrafão

Durant é o único dos três que teve muito sucesso jogando perto da cesta, ou mostrou inclinação a fazê-lo. Harden e Irving passaram suas carreiras recebendo a bola fora da linha de três pontos, enquanto Durant, por causa da altura, foi capaz de causar impacto no garrafão.

Na temporada 2018/2019, 10,6% dos arremessos de Durant aconteceram perto da cesta, e ele converteu metade deles. Este ano, ele vem jogando um pouco menos no garrafão (9,3% de arremessos perto da cesta), mas mostrando mais eficiência, convertendo 64,7% deles.

Contra-ataque rápido

Harden gosta de correr nas jogadas de transição, mais do que seus novos colegas de time. Além de jogadas individuais, os pontos marcados em contra-ataques respondem por boa proporção da pontuação total dele. Na temporada passada, Harden foi o terceiro melhor pontuador da liga nesse tipo de jogada. Durant ficou em nono lugar nessa estatística, em sua última temporada com os Warriors.

Irving certamente tem o domínio de bola necessário a puxar contra-ataques rápidos como Harden e Durant fazem, mas ele prefere manobrar na meia-quadra, usando seus rodopios e dribles para tirar defensores da jogada, em lugar de conduzir a bola rapidamente quadra acima.

Tradução de Paulo Migliacci

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