Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Pênalti perdido por Garrincha e 'jogo do osso' marcam dérbis na segunda-feira

Corinthians e Palmeiras só se enfrentaram nesse dia da semana quatro vezes na história

São Paulo

Palmeiras e Corinthians farão neste dia 18 um raro clássico de segunda-feira. A partir das 19h, os arquirrivais vão duelar no Allianz Parque, em São Paulo, com transmissão do Premiere, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro.

Ainda que tenha sido incluído nos últimos anos na grade do futebol nacional, o primeiro dia útil geralmente é reservado a partidas menores. Faz muito tempo que os tradicionais adversários não se encontram logo após o fim de semana.

Em quase 104 anos de história, apenas quatro das 366 edições do confronto conhecido como dérbi foram realizadas nesse dia. A última ocorreu em 1966, há mais de meio século, e teve em campo Mané Garrincha com a camisa do Corinthians.

O Palmeiras venceu aquele embate, com pênalti perdido pelo craque no final, e tem vantagem no retrospecto de segunda. São duas vitórias e dois empates, embora um desses empates seja considerado uma jornada marcante para o clube preto e branco, conhecido como “o jogo do osso”.

O confronto se deu em 13 de maio de 1918, quando tomava forma a umbilical rivalidade entre o Corinthians e o então Palestra Itália. O começo dessa disputa foi favorável ao Palestra, que conseguiu três triunfos e um empate nos quatro primeiros combates.

Então, antes do quinto, válido por um Campeonato Paulista que seria vencido pelo Paulistano, a vidraça da pensão onde almoçavam os jogadores alvinegros foi quebrada por um osso de boi. A peça coletada no chão do refeitório tinha uma frase provocativa: “O Corinthians é canja para o Palestra”.

Não foi. A batalha, muito dura, terminou empatada por 3 a 3. Caetano, Picagli e Heitor marcaram para o Palestra no campo da Floresta, perto de onde hoje fica a ponte das Bandeiras, às margens do rio Tietê. Neco, duas vezes, e Basílio balançaram a rede pela equipe do Bom Retiro.

Não era o resultado buscado pelos corintianos, mas a partida virou um símbolo. O velho osso está até hoje no memorial do clube, que se mudou do Bom Retiro para o Tatuapé, com uma inscrição adicional: “Este osso era para a canja, mas não cozinhou por ser duro demais”.

O osso atirado pelos palestrinos na pensão alvinegra em 1918 é guardado até hoje como uma espécie de troféu do Corinthians - Rivaldo Gomes - 25.jul.14/Folhapress

Os arquirrivais voltaram a se encontrar em uma segunda-feira em 7 de setembro de 1931. Era um amistoso no Parque Antarctica, cuja renda seria revertida a uma reforma no próprio campo do Palestra, no terreno onde atualmente está o Allianz Parque.

O problema foi a chuva que castigou São Paulo naquele dia e limitou o público. Em um “lamaçal”, como descreveu a Folha da Manhã, os donos da casa contaram com gols de Romeu Pellicciari e Heitor para fazer 2 a 0 no desfigurado rival, que acabara de perder jogadores para o futebol italiano e escalava vários reservas.

“Lamacento e encharcado, nas partes bem gramadas, o campo não permitia que os jogadores praticassem jogadas technicas e precisas como a que estão acostumados a praticar. O numero de faltas, proveniente dos continuos escorregões levados pelos jogadores, attingiu uma somma bastante elevada”, relatou o jornal, com o português particular da época.

Folha da Noite de 8 de setembro de 1931 relatava vitória por 2 a 1 do Palestra Itália sobre o Corinthians, em amistoso realizado no Parque Antarctica
Palestra triunfou no "lamaçal" do Parque Antarctica - Folha da Noite - 8.set.31/Folha da Noite

Trinta anos depois, o Palestra já era Palmeiras e voltou a encontrar o Corinthians em uma segunda-feira. Foi em 3 de abril de 1961, em confronto válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Rio-São Paulo, conquistado pelo Flamengo naquela temporada.

Diante de 62.584, os arquirrivais empataram por 3 a 3 no Pacaembu. O Corinthians esteve à frente duas vezes, com gols de Rafael, Miranda e Neves, mas o Palmeiras buscou o empate com duas bolas colocadas na rede por Gildo e uma guardada por Zeola, aos 44 minutos do segundo tempo.

“Embora não primasse por elevada tecnica, o jogo teve excelente movimentação e lances empolgantes, seis dos quais redundaram em gols que deram um empate aos dois clubes, classificando-os para o segundo turno”, narrou a Folha.

No segundo turno, houve amplo domínio dos cariocas sobre os paulistas. O Flamengo alcançou o primeiro lugar, seguido por Botafogo e Vasco. Palmeiras, Santos e Corinthians acabaram ficando para trás na fase final, disputada por seis clubes.

Ainda naquela década, em 1966, os times duelaram pela última vez em uma segunda, em nova partida válida pelo Rio-São Paulo. Era uma época na qual a agremiação preta e branca investia para encerrar o longo jejum de títulos iniciado após a conquista do Paulista de 1954 –que só seria encerrado em 1977.

O presidente Wadih Helu buscou o atacante Garrincha no Botafogo. Chegaram da Portuguesa o zagueiro Ditão e o meia Nair. Pintava um “timão”, como foi chamada a equipe pelo jornal A Gazeta Esportiva, e o apelido pegou, ainda que a formação não tenha correspondido à alta expectativa.

Em 21 de março, no Pacaembu, o Corinthians acabou perdendo por 2 a 1 para o Palmeiras. Rinaldo abriu o placar para a formação alviverde, de pênalti, e o centroavante Flávio igualou o marcador, ainda no primeiro tempo, completando de cabeça escanteio batido pelo Mané.

Servílio, mesmo em um ângulo desfavorável, anotou o gol que definiu o placar. Poderia ter sido diferente o resultado, porém Garrincha acabou desperdiçando uma penalidade que acabou nas mãos do arqueiro alviverde.

“Aos 40m do 2º tempo, Djalma Santos cometeu penal (‘alavanca’) em Nei. A falta existiu realmente, embora o avante tivesse feito encenação, procurando dar a impressão de maior gravidade na falta. Garrincha foi o encarregado da cobrança, mas chutou mal e Valdir defendeu no canto, encaixando a bola”, relatou a Folha.

Folha de S.Paulo de 22 de março de 1966 relatava vitória por 2 a 1 do Palmeiras sobre o Corinthians, em duelo válido pelo Rio-São Paulo
O goleiro alvinegro Heitor foi batido pelo atacante alviverde Rinaldo em cobrança de pênalti; Garrincha, do outro lado, não teve a mesma precisão - Reprodução - 22.mar.66/Folha de S.Paulo

Apesar da derrota, o Corinthians acabou ficando entre os líderes daquele Rio-São Paulo, ao fim da disputa em pontos corridos. Com 11 pontos, dividiu a ponta com Botafogo, Santos e Vasco e foi listado como campeão.

O regulamento previa partidas extras para o desempate, mas a preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo tornou impossível a conclusão da competição, por falta de datas. Os quatro times da primeira posição foram declarados vencedores, embora nenhum corintiano tenha tido a coragem de se declarar livre do jejum.

Quase 55 anos depois, Palmeiras e Corinthians voltarão a medir forças em uma segunda-feira, pelo Campeonato Brasileiro. O duelo ocorrerá nesse dia da semana por causa de um arranjo no calendário do time alviverde, finalista da Copa Libertadores e da Copa do Brasil.

O cronograma está apertado pela pandemia do novo coronavírus, que paralisou as competições de 2020 por quatro meses e fez com que elas se estendessem até 2021. O sucesso do Palmeiras tornou necessário espremer jogos em intervalos curtos.

Na última terça (12), a equipe dirigida pelo português Abel Ferreira conseguiu sua classificação à final da Libertadores, apesar de derrota para o River Plate. Na sexta (15), empatou com o Grêmio pelo Brasileiro. Agora, duelará com o arquirrival.

O Corinthians vive franca ascensão na competição, com sete partidas de invencibilidade e quatro vitórias seguidas. O plano agora é mostrar que “não é canja para o Palestra”, dar sequência a seu ótimo momento e, enfim, bater o rival em uma segunda-feira.

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