Por que Bruno Fernandes, destaque do Manchester United, demorou a ser notado

Português de 26 anos teve paciência e rodou por times menores até chegar à Premier League

Rory Smith
Manchester | The New York Times

O que impressiona Martelinho, sempre que vê Bruno Fernandes jogar, é quão pouco ele mudou. Fernandes pode ser o melhor jogador em um clube de referência da maior liga de futebol do planeta, mas, para Martelinho, o jogador continua a ser o adolescente que ele treinou nas categorias de base de um clube português problemático uma década atrás.

“Ele continua a ser como sempre foi”, disse Martelinho, recordando os dois anos que passou trabalhando com Fernandes na academia do Boavista. “Ele sempre jogou com muita ambição, sempre à frente, jamais tocando a bola para trás, sempre tentando entrar na área. Precisava de mais experiência, mas tudo que se vê agora já existia então."

Essa é a biografia da maior parte dos pares de Fernandes entre os maiores jogadores do planeta, claro. O talento transcendente, evidente para todos, que vale uma vaga na via expressa da grandeza futebolística. Uma temporada ou duas no primeiro time e depois o triunfo de uma transferência lucrativa e que conquista manchetes para um clube na Inglaterra ou Espanha.

Jogador com uniforme vermelho leva um dedo ao olho
Bruno Fernandes durante jogo do Manchester United - Peter Powell - 6.jan.21/AFP

Mas embora o ponto de partida e o de chegada de Fernandes se enquadrem a essa narrativa, não existe uma linha reta a traçar entre o menino que Martelinho conheceu e aquilo que ele e o restante do planeta veem hoje: o jogador que floresceu e —ao longo dos últimos 12 meses— se tornou a força que propele o ressurgimento do Manchester United.

Em lugar disso, Fernandes percorreu um caminho mais tortuoso, que envolveu uma temporada na segunda divisão italiana e mais algumas em quadrantes menos glamorosos da primeira liga do país, anos que o tornariam essencialmente “anônimo” –no termo usado por Martelinho– em seu país até ele chegar perto dos 25 anos.

Risco calculado

Como principal olheiro do Novara —um time italiano de uma cidadezinha perto de Milão e que, naquela temporada, estava batalhando para não cair da Série A—, Cristiano Giaretta estava acostumado a receber telefonemas não solicitados de agentes lhe oferecendo jogadores que poderiam interessá-lo.

Quando um agente português chamado Miguel Pinho entrou em contato com Giaretta em 2012 para recomendar um meio-campista adolescente do Boavista, ele poderia facilmente ter ignorado a recomendação. O trabalho dele envolvia acompanhar centenas de jogadores, em toda a Europa. Ele nunca tinha ouvido falar de Pinho e menos ainda de Bruno Fernandes.

E nem haveria motivo para que isso tivesse acontecido. Ainda que o Boavista seja tradicionalmente o segundo clube da segunda maior cidade do país, a Cidade do Porto, problemas financeiros o haviam derrubado para a terceira divisão, na época.

Suas categorias de base tinham boa reputação, mas o consenso era o de que a nata do talento juvenil inesgotável do país era absorvida pelos times juvenis dos três grandes clubes: Benfica, Sporting e Porto.

Fernandes teve a chance de ser contratado por pelo menos um deles. Nascido em Maia, não muito distante da Cidade do Porto, ele atraiu o interesse do Porto e do Boavista, jogando em um torneio juvenil. Os dois lhe ofereceram vagas em suas escolinhas. Ele escolheu o Boavista, aparentemente, porque o clube se ofereceu para enviar uma perua a fim de levá-lo aos treinos, já que nem o pai e nem a mãe dele dirigiam.

Essa é uma versão da história que o antigo treinador do jovem, Martelinho, e outras pessoas contestam. “Acho que ele acreditou que seria mais fácil chegar ao time principal do Boavista”, disse o técnico. “Fiz a mesma escolha, quando era jogador, e pela mesma razão. É um clube menor, e assim é mais fácil encontrar lugar no time."

Qualquer que tenha sido a razão, essa pode ter sido a decisão que definiria o caminho de Fernandes. As partidas juvenis do Porto atraem olheiros de toda a Europa, que ficam atentos ao gramado para descobrir o próximo grande talento europeu. As do Boavista, não.

Se ele tivesse escolhido o Porto, Fernandes poderia ter seguido o caminho mais habitual para a fama e a fortuna. Poderia no mínimo ter atraído a atenção dos responsáveis pela convocação das categorias de base da seleção portuguesa, outra das vitrines para os jovens talentos do país.

Jogador com uniforme vermelho da seleção portuguesa corre olhando para a bola
Hoje o meia defende a seleção portuguesa com protagonismo - Patricia de Melo Moreira - 14.out.20/AFP

No Boavista, ele para todos os efeitos vivia à sombra. “Nunca era convocado para as seleções nacionais”, disse Martelinho. “Não sei a razão, embora houvesse muitos jogadores talentosos em sua geração”. A vasta maioria deles, claro, vinha com o lustro adicional de jogar por um dos gigantes do futebol português.

Foi essa negligência que deu a Giaretta sua oportunidade e levou Fernandes a tomar um caminho diferente. No telefone, Pinho parecia ser uma pessoa “séria”, disse Giaretta, e por isso ele não descartou a recomendação como só um papo furado de agente. Viajou ao norte de Portugal para ver o jovem de 17 anos em uma partida juvenil.

Giaretta não sabe se o Boavista não tinha grande esperança quanto ao desenvolvimento de Fernandes ou se o clube estava em situação financeira tão debilitada que simplesmente não tinha como dizer não, mas o Novara por fim pagou menos de US$ 50 mil para contratá-lo. “Cada transferência é um risco”, ele disse. “Mas aquela foi um risco calculado. A perda de alguns milhares de euros seria um baque para o clube."

Ele decidiu investir em Fernandes, um jogador de 17 anos que ninguém elogiava, que ninguém parecia avaliar muito bem, de um clube da terceira divisão de Portugal, cujos jogos ninguém parecia assistir. Oito anos mais tarde, Fernandes custaria US$ 97 milhões ao Manchester United.

As lições de seguir o caminho mais longo

Francesco Guidolin ficou intrigado. Como treinador da Udinese, ele estava acostumado a receber jovens talentosos vindos de todo o mundo, promissores adolescentes poliglotas tirados da obscuridade pela excelente rede de olheiros do clube. Mas era raro encontrar um deles tão perto de casa.

A passagem de Fernandes pelo Novara foi breve: apenas um ano, na verdade, mas ele conquistou vaga no time titular, marcou quatro gols em 23 partidas, e ganhou o apelido “o Maradona de Novara”, antes de ser vendido, com imenso lucro, para a Udinese, da Série A. Giaretta teve papel central também nisso: ele trocou o Novara pela Udinese em 2013 e recomendou Fernandes ao seu novo empregador.

Guidolin não tinha visto Fernandes jogar muitas vezes pelo Novara. Quando o jogador chegou ao novo clube, ele estava “curioso” para ver que cara tinha aquele adolescente com uma carreira tão incomum. “Começamos a preparação de pré-temporada”, disse Guidolin. “Jogar na Série B e na Série A são coisas bem diferentes, mas era perceptível de primeira que ele estava pronto."

Contemplando a trajetória de Fernandes, é possível imaginar se esse caminho tortuoso não funcionou em benefício de Fernandes. O que se destaca hoje, para todos que trabalharam com ele naqueles dias iniciais, é sua disposição de liderar, de carregar um time nas costas, mesmo um time pesado como o Manchester United.

Talvez tenha sido algo que ele aprendeu nos anos que passou jogando em clubes e ligas menores: um no Novara, três na Udinese, um na Sampdoria.

Jogador com uniforme listrado verde e branco olha para a bola no alto, seguido de perto por outro atleta, de amarelo
Passagem pelo Sporting levou Bruno Fernandes ao seu grande salto - Patricia de Melo Moreira - 27.ago.17/AFP

Pela metade de 2017, quando ele voltou a Portugal –como a segunda contratação mais cara na história do Sporting—, Fernandes ainda não havia sido convocado para a seleção principal portuguesa (embora tivesse capitaneado a seleção sub-21). Sua chegada não foi tratada como um grande reforço. “A maioria dos clubes grandes não o tinha visto jogar muito”, disse Martelinho.

Mas em questão de poucos meses aquilo que Portugal vinha ignorando se tornou claro. “A liga portuguesa não é tão forte quanto a da Inglaterra, Espanha ou Alemanha”, disse Martelinho. “Mas talvez seja a quinta ou sexta melhor da Europa. Não é um campeonato fácil. E Bruno o fazia parecer fácil."

O impacto dele na Inglaterra foi igualmente rápido. Ainda não faz um ano que ele chegou a Old Trafford, mas já foi eleito para a seleção da temporada da Premier League e, com seu time surgindo como candidato a pôr fim a sete anos de seca e lutar pelo título, ele está entre os favoritos ao prêmio de melhor jogador do ano.

No entanto, essa ascensão que parece tão rápida na verdade demorou a chegar. Fernandes teve de esperar por seu momento. Não por sua culpa, mas por uma falha na estrutura do futebol, por uma incapacidade de buscar talentos em lugares inesperados.

Esse é o jogador que ele sempre foi e sempre pôde ser. O esporte demorou um pouco para perceber, e tudo isso porque ele precisava ir de perua aos treinos, todos aqueles anos atrás.

Tradução de Paulo Migliacci

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