Descrição de chapéu Copa Libertadores 2020

Santista Soteldo driblou rejeição por altura com rebeldia e coragem

Meia-atacante venezuelano de 1,60 m batalhou em busca de oportunidades no futebol

São Paulo

O venezuelano Yeferson Soteldo, 23, foi levado para seu primeiro teste em um clube de futebol aos 12 anos. Raul Vargas, 43, técnico e dono da escolinha onde ele treinava, o acompanhou ao campo da Portuguesa FC.

O professor passou os 10 quilômetros da viagem entre Acarigua, local em que morava a família do menino, e Araure, cidade onde seria o treinamento, o doutrinando. Ele deveria ter fé. Se acreditasse, tudo daria certo. Repetia aquilo sem parar.

Quando chegaram para a peneira, o técnico da Portuguesa olhou para Soteldo com cara de desdém.

"Ele disse apenas que Yeferson era pequeno demais e não tinha condições de jogar futebol. Virou as costas e foi embora. Não o deixou treinar", relembra Vargas à Folha, 11 anos anos depois.

A altura sempre foi um problema na carreira do meia-atacante que hoje se destaca no Santos, finalista da Libertadores de 2020. No próximo sábado (30), a equipe faz a primeira final paulista da história do torneio, contra o Palmeiras, no Maracanã.

Pessoas que conviveram com o jogador na infância e adolescência guardam dezenas de histórias sobre questionamentos que ele teve de superar por causa da baixa estatura. De acordo com o site oficial do Santos, o venezuelano tem 1,60 m.

Uma das mais conhecidas é de quando o ex-goleiro Rafael Dudamel, então técnico da seleção sub-20, observava atletas para levar ao sul-americano da categoria em 2017.

"Quando ele viu Yeferson pela primeira vez, falou que o garoto jogava muito. Mas disse que não tinha como convocá-lo para o Sul-Americano. Como ele enfrentaria argentinos e paraguaios em um jogo físico?", conta Akram Almatni, 41, antigo gerente do Zamora —primeiro clube do meia-atacante.

Dudamel o levou para o torneio, apesar das dúvidas. A Venezuela ficou com o terceiro lugar e se classificou para a Copa do Mundo.

Soteldo domina a bola em jogo contra o Novorizontino, pelo Campeonato Paulista do ano passado
Soteldo domina a bola em jogo contra o Novorizontino, pelo Campeonato Paulista do ano passado - Ivan Storti-26.jul.20/Santos FC

Sebastian Cano, 46, agente de Soteldo, perdeu as contas de quantas vezes teve de lutar contra a percepção de que seu cliente era pequeno demais e tinha físico frágil para jogar futebol profissional.

"A diferença de massa muscular [dele para os rivais] era abismal. Mas Yeferson sempre foi irreverente, rebelde e principalmente muito corajoso em campo. Eu já vivi muitos casos em que ele foi subestimado por causa da estatura. Quem mudou a carreira do Soteldo foi [Noel] Sanvicente. O papel dele foi fundamental", relata Cano

Maior vencedor da história do Campeonato Venezuelano, com nove títulos, Sanvicente foi o primeiro a não dar nenhuma importância para a altura do menino de 13 anos. Quando o viu atuar em um torneio amador, saiu a perguntar para todas as pessoas presentes: "quem é o treinador daquele baixinho ali?". Era Raul Vargas.

Soteldo recebeu convite para ir treinar no Zamora, clube da primeira divisão do país. Para validar o discurso que repetia dia e noite, Vargas pediu que Sanvicente dissesse ao garoto uma frase: "Você sempre teve muita fé, eu sei. E porque acreditou muito, sua chance chegou", repetiu o lendário treinador.

"Os olhos de Yeferson ficaram arregalados quando ouviu Sanvicente falar em fé. Ele parecia não acreditar", conta se divertindo o descobridor de Soteldo.

Não foi fácil convencer a mãe a liberá-lo para se mudar a Barinas, cidade onde está a sede do Zamora. O menino havia passado por uma experiência traumática no ano anterior, quando fora chamado para treinar no Caracas, time de maior torcida do país. Ficou sozinho no alojamento do clube, em uma cidade grande que ele considerou hostil.

Estar isolado fez com o jovem se desinteressasse pelo futebol. Faltou a treinos, não ia à escola e preocupou a família. Foi chamado de volta para casa poucas semanas depois.

Para que Soteldo pudesse ir para o Zamora, Vargas teve de acompanhá-lo. Menos de três anos depois, aos 16, estreou como profissional.

"A estatura dele nunca me incomodou. Não são muitas pessoas que fazem em campo o que Soteldo é capaz de fazer. O futebol é muito tático e ele consegue gerar desequilíbrio no mano a mano contra o marcador", avalia Sanvicente.

Havia também preocupação com as condições sociais e econômicas da família de Soteldo. Ele passou a infância em uma região de Acarigua chamada de "El Martico", que Cano compara a uma favela brasileira. Com seis irmãs e a mãe dona de casa, o sustento vinha do padrasto, que vendia verduras.

Quando começou a atuar em escolinhas locais, o jeito encontrado para mantê-lo na escola e longe de problemas era fazê-lo apresentar boletins com boas notas e depoimentos de que estava se comportando bem. Isso bastava para que ficasse isento das mensalidades.

Mesmo quando chegou no Santos, no início de 2019, a questão da altura foi considerada empecilho. Funcionários do clube achavam improvável um atleta de 1,60 m ter sucesso no futebol brasileiro. Outras alternativas chegaram a ser apresentadas ao então técnico da equipe, Jorge Sampaoli. O argentino as rechaçou todas e insistiu em Soteldo. O então presidente José Carlos Peres o apoiou.

É inegável que o esporte o ajudou a realizar sonhos. De acordo com Cano, um deles era jogar em La Bombonera, campo do Boca Juniors (ARG). Isso aconteceu na Libertadores de 2015, pelo Zamora, quando o time venezuelano foi goleado por 5 a 0.

Pelo Santos, ele voltou ao estádio na semifinal da atual edição do torneio e empatou em 0 a 0. Seu desempenho na competição, com dois gols e duas assistências em 10 jogos, faz com que seu nome seja cogitado no River Plate. O venezuelano é finalista na votação para o melhor jogador do atual torneio sul-americano, ao lado do também santista Marinho e dos palmeirenses Weverton e Rony.

Um dos pedidos que Soteldo fez aos seus empresários, quando ainda estava na base do Zamora, era conhecer o mar. Nunca havia tempo para isso, por causa da sequência de treinos. Em 2014, uma inflamação na cabeça após um choque com um adversário o abalou.

Ficou 15 dias sem treinar, algo inédito na sua vida. Cano o levou para Valencia, cidade no litoral da Venezuela. Segundo o agente, quando Soteldo viu o mar, ficou sem palavras. Depois disse ter sido um dos melhores dias da sua vida.

Em Santos, ele mora em um edifício de frente para a praia, e o sonhado mar se tornou seu vizinho.

Quando entrar em campo no dia 30, ele vai se igualar ao mesmo Dudamel que se preocupou com sua fragilidade física e Alejandro Guerra como os únicos três venezuelanos a disputarem uma final de Libertadores.

Não é pouco para quem disse um dia, ainda criança, querer conquistar o mundo com o futebol.

"Lembro que houve uma vez em que vimos juntos um filme sobre o Messi. Eu lhe disse: um dia você vai ser como ele", relembra Vargas.

A resposta foi pura rebeldia e coragem, que quem o conheceu na infância diz que ele sempre teve: "Eu sei".

Raio-X

Yeferson Soteldo, 23
Nascido em Acarigua em 30 de junho de 1997, iniciou a carreira profissional no Zamora, onde estreou aos 16 anos e foi campeão nacional em 2015 e 2016. Foi comprado por 1,5 milhão de euros (cerca de R$ 9,5 mi em valores atuais) pelo Huachipato (CHI), em 2016. Em janeiro de 2018, assinou com a Universidad de Chile antes de chegar ao Santos, no início do ano seguinte.

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