Seleção brasileira une skatistas mirins dispostos a quebrar barreiras

Confederação mira futuro olímpico e dá suporte a jovens atletas espalhados pelo país

São Paulo

Bob Burnquist, 44, recordista de medalhas dos X-Games (com 30) e ex-presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), diz que uma de suas maiores felicidades foi proporcionar à nova geração de skatistas acesso a coisas que ele não teve em sua carreira.

Depois de ter criado uma seleção brasileira da modalidade, visando à preparação olímpica para a estreia do esporte em Tóquio, em 2020 a CBSk anunciou uma seleção com atletas até 16 anos, de olho nos dois próximos ciclos (Paris-2024 e Los Angeles-2028).

Eles estão divididos nas mesmas modalidades que serão disputadas nos Jogos, park e street.

Com oito vagas para meninos e oito para meninas, a entidade dá suporte a promessas tanto de centros estabelecidos, como São Paulo e Florianópolis, até locais com menos tradição no esporte, como Maceió e Manaus.

Os integrantes da seleção contam com um consultor técnico, médico, psicólogo e fisioterapeutas bancados pela confederação. Parte da verba vem do que a entidade recebe do COB (Comitê Olímpico do Brasil) na distribuição dos recursos das loterias federais, mas a maior quantia sai da própria CBSk.

Em 2021, a previsão é que sejam investidos R$ 420 mil na seleção de base. O critério de entrada é a posição dos atletas no ranking nacional.

Daniela Vitória, 11, já teve que superar alguns obstáculos para praticar o skate em Manaus —mesmo antes de a pandemia de Covid-19 provocar colapso em hospitais da cidade.

Para se proteger do coronavírus, ela está isolada em casa, sem poder treinar, ao lado da mãe, Marilene, e do pai, Whelkle, sua primeira referência no esporte.

“Ele andava de skate. Eu ficava observando e, quando ele ia beber água, eu pegava o skate e começava a remar. Aí comecei a passear na pista inteira. E teve uma moeda de troca. Eu chorava muito na entrada da escola. Ele falou: ‘se você parar de chorar, te levo na pista todo final de semana’. Parei de chorar e tirei ótimas notas na escola”, conta Daniela.

“Se ela não fizesse seus deveres, não ia para a pista”, diz Marilene. No início, ela tinha medo que a filha se machucasse. “Quando se machucava, ela escondia de mim. Mas hoje já é bem diferente, vi que ela se envolveu muito, fico até admirada."

Moradores de São Lazaro, na região sul manauara, Daniela e o pai costumavam ir à pista do Morro da Liberdade, bairro vizinho. Eles relatam que o local não tem a estrutura ideal, mas já melhorou muito.

Também longe das melhores condições começou Carla Karolina, 15, outra que conheceu o skate pelo pai, Carlos Henrique dos Santos, o Bob.

“Via meu irmão, meu pai e os amigos andando, aí eu pegava um skate ou outro, remava, e chegou o dia que eu falei que queria um skate. [Disseram] ‘Não, filha, skate machuca, não pode’, mas eu falei que queria. Ele me deu um de supermercado, daqueles bem fraquinhos. Com três dias o skate quebrou, quando tentei dar um ollie [manobra]”, recorda Karol.

No início, a dupla andava numa praça de Maceió que nem sequer tinha pista. Bob, vendo o talento da filha, procurou na internet cursos básicos e começou a construir os obstáculos. Até hoje é desse tipo de equipamento, fabricado pelo pai, que ela usufrui nos treinos do dia a dia.

A realidade é bem diferente em Florianópolis, onde cresceu Pedro Carvalho, 15. Seu pai, Cahuê, sempre gostou de surfar e levava junto o filho, que pegava ondas até entre suas pernas. Foi no skate que o garoto despontou.

A capital de Santa Catarina é um dos polos do esporte no Brasil, e desde cedo Pedro dividia pista (e fazia amizade) com figuras como o xará Pedro Barros, campeão mundial da modalidade olímpica park.

Na pandemia, quando não podia treinar nos locais públicos ou compartilhados, ele usava a pista da própria casa.

Mesmo com as diferenças de estrutura e apoio, há uma realidade que une skatistas de todas as idades, do Norte ao Sul do país: o combate a ideias pré-concebidas sobre os praticantes do esporte.

“Já presenciei cenas de preconceito. Pessoas que eu conheço que, quando chamava para andar de skate, os pais não deixavam, achavam algo errado. Mas é esporte, você está na rua conhecendo gente nova. Ainda mais com as Olimpíadas, isso tem mudado”, afirma Pedro, otimista com o futuro e que sonha um dia participar da principal competição do esporte mundial.

Para Karol, o preconceito com o skate fez com que ela precisasse inclusive mudar o local onde treinava.

“Alguns vizinhos da praça apoiavam a gente, alguns até andavam juntos, mas tem aqueles que não queriam saber de nada, não gostavam e não queriam conversa —geralmente o pessoal mais velho. A gente respeitava, chegava um horário e parava de andar. Era uma praça pública, então tinha muita tribo de molecada, de vários bairros, tinha droga, álcool, e eles discriminavam todo mundo junto”, conta Bob.

Após alguns anos no local, eles conseguiram espaço no estacionamento de uma Igreja. Por causa das ferragens e dos obstáculos, os padres também pediram que saíssem dali. Atualmente, treinam no estacionamento de uma escola.

Daniela e o pai, atualmente, têm à disposição algumas outras pistas em Manaus, mas acabam sempre voltando para o local onde tudo começou. Tanto pela relação pessoal quanto pela proximidade de casa, que facilita a logística de treinos.

Daniela Vitória com seu pai, Whelkle, na pista de Ponta Negra, em Manaus
Daniela Vitória com seu pai, Whelkle, na pista de Ponta Negra, em Manaus - Bruno Kelly - 17.dez.2020/Folhapress

Hoje outros pais levam seus filhos para andar por lá, mas já houve tempos em que a região era controlada pelo Comando Vermelho.

“A gente tinha perfil de marginalização naquela pista. Quando começamos, falavam que a gente estava indo se drogar, que eu levava minha filha de fachada. Mas hoje eles têm respeito pela minha filha, dizem ‘lá vem a Danizinha’. Com essa ascensão dela, os pais estão trazendo seus filhos, vem falar comigo, eu tento conscientizar, incentivar”, afirma Whelkle, que ainda sente falta de ver mais meninas andando de skate.

As famílias de Daniela e Karol vivem hoje um mesmo dilema. Amam e se identificam com o lugar onde cresceram, mas pensam também em se mudar para uma cidade que, segundo eles mesmos, dê mais oportunidade para as jovens no esporte.

Fazer o skate mais amplo em cenário nacional é também um dos papeis da confederação, segundo o seu presidente, Eduardo Musa.

“Fechamos com a ajuda da Secretaria Especial do Esporte a construção de quatro pistas: em Teresina, Fortaleza, Salvador e Brasília. Claro que por lá tem pistas boas, mas essas quatro esperamos que sejam referência nessas regiões, para fomentar a prática de alto nível. Parafraseando, somos o país do skate também, mas temos que dar condições para os atletas”, diz.

Daniela e Karol se inspiram em outra colega de esporte: Rayssa Leal, 13 anos e uma das melhores do mundo no street entre as adultas, que mora em Imperatriz, no Maranhão.

Para elas, um espelho não só nas pistas, mas na chance de usar o skate para dar visibilidade à cidade onde moram.

“Ela [Karol] está aparecendo na midia, em jornal local aqui do estado. Como está tendo muita visibilidade, acho que está quebrando a barreira do preconceito”, opina Bob.

“A gente quer transformar esse legado com o nome de Daniela, para as pessoas deixarem de ver o skate como esporte de marginalização”, completa Whelkle.

Seleção de base do skate brasileiro

Park feminino
Erica Leguizamon (Garopaba-SC)
Maitê Demantova (Curitiba-PR)
Raicca Ventura (Santo André-SP)
Marina Brauner (Pelotas-RS)

Park masculino
Pedro Carvalho (Florianópolis-SC)
Vicenzo Damasio (Garopaba-SC)
Victor Ikeda (São Paulo-SP)
Kalani Konig (Florianópolis-SC)

Street feminino
Carla Karolina (Maceió-AL)
Giovana Moreira (Niterói-RJ)
Thais Ávila (Rio de Janeiro-RJ)
Daniela Vitória (Manaus-AM)

Street masculino
Matheus Teixeira (Passo Fundo-RS)
Kalani Konig (Florianópolis-SC)
Guilherme Sato (Ponta Porã-MS)
Filipe Mota (Pato de Minas-MG)

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.