Vaga no Mundial de Clubes coroa reconstrução da carreira de Edina Alves

Árbitra foi selecionada pela Fifa, ao lado da assistente Neuza Back, para o torneio

Brunno Carvalho
São Paulo | UOL

Edina Alves pisou em um gramado em 2019 que há muito não era tocado por alguém como ela. Havia 14 anos que uma árbitra não apitava jogos da Série A do Campeonato Brasileiro masculino. Edina chegou e se estabeleceu.

"Sempre tracei minha carreira para chegar lá. Era meu maior sonho". E agora o sonho ganha novos capítulos: a paranaense de 40 anos foi escalada para trabalhar no Mundial de Clubes, que acontecerá no Qatar entre 1º e 11 de fevereiro.

Com a experiência de ter apitado uma semifinal de Copa do Mundo feminina, a brasileira chegará ao torneio masculino trilhando um caminho pavimentado por outras pioneiras.

Edina Alves durante semifinal do Mundial feminino, em 2019, entre Inglaterra e Estados Unidos
Edina Alves durante semifinal do Mundial feminino, em 2019, entre Inglaterra e Estados Unidos - Denis Balibouse - 2.jul.2019/Reuters

A suíça Esther Staubli trabalhou na Copa do Mundo masculina sub-17 em 2017, enquanto a uruguaia Claudia Umpierrez apitou dois jogos da edição de 2019. Caberá a Edina a missão de ser a primeira em um Mundial profissional masculino.

"A arbitragem vem crescendo a cada dia dentro do nosso país. O mundo inteiro está colocando mulheres para trabalhar, mulheres que tenham capacidade. Estão abrindo espaço porque estão vendo que a Fifa está incentivando. Daqui a pouco não vai ter mais essa de gênero: vai quem tiver capacidade", prevê.

A escalação para um torneio dessa magnitude é resultado de uma carreira de reconstruções. Há 20 anos trabalhando no meio da arbitragem e se dividindo entre a função de auxiliar no masculino e de árbitra no feminino, Edina esteve muito perto de se tornar auxiliar Fifa antes de decidir trocar a bandeira pelo apito, seu sonho desde o início.

Em 2014, a Federação Paranaense enfim permitiu que ela fizesse o teste para apitar jogos do masculino. Mas para isso Edina teria que deixar de lado tudo que havia conquistado e recomeçar nas divisões inferiores. E ela aceitou. "Eu tinha esse sonho desde os 19 anos e só fui realizar quando tinha 34."

O apito fez com que Edina arriscasse mais uma mudança para alcançar o sonho de trabalhar na Série A masculina. Deixou o Paraná em 2018 e foi para São Paulo dividir apartamento com a auxiliar Neuza Back, que foi convencida a largar a carreira de professora em Saudades, em Santa Catarina, e segui-la. Na Federação Paulista, decolou e fez sua estreia na elite nacional em 2019.

"A Neuza ficou meio assim de vir comigo, quis pensar, mas mostrei que unidas a gente poderia ir para um Mundial, para uma Olimpíada. Dava para construirmos esse sonho eu, ela e a Tati". A "Tati" era Tatiane Sacilotti, que em 2019 deixou a carreira de auxiliar para ser mãe.

Sobrou, então, Neuza da parceria inicial. E é com ela que Edina irá para o Qatar. A auxiliar também foi escalada pela Fifa para trabalhar no Mundial de Clubes. As duas completarão o trio com a argentina Mariana de Almeida.

Com a notícia ainda em processamento na cabeça, Edina evitar pensar que estará fazendo história quando entrar em campo. "Eu só quero apitar e representar bem o meu país."

A paranaense de Goioerê, que queria ser jogadora de futebol na infância, estará marcada na arbitragem brasileira. "Sempre gostei de esporte e sempre quis jogar em uma seleção. E hoje eu posso jogar na seleção da arbitragem. Isso para mim é um sonho."

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