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Crespo defendeu equilíbrio entre tática e talento em 'TCC' da Uefa

Diplomado pela entidade em 2013, novo técnico do São Paulo elogia Ancelotti e Mourinho

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São Paulo

Desde que chegou ao Parma, em 1996, o argentino Hernán Crespo fincou uma bandeira no futebol italiano. Foram 14 anos no país –interrompidos apenas por duas temporadas na Inglaterra– vestindo a camisa de diferentes clubes antes de se aposentar no mesmo Parma que lhe abriu as portas da Europa.

A Itália é sua casa, sua esposa é italiana, e não surpreende portanto que o país tenha sido escolhido pelo ex-atacante para a realização de sua formação como técnico de futebol.

Crespo estudou no centro de Coverciano, quartel-general da federação nacional em Florença, e tirou o diploma da licença Uefa Pro que lhe permite trabalhar na elite europeia. Fabio Cannavaro, Gianluca Zambrotta e Filippo Inzaghi, campeões do mundo em 2006, foram seus colegas de turma.

Crespo chega ao clube do Morumbi como campeão da Copa Sul-Americana com o Defensa y Justicia
Crespo chega ao clube do Morumbi como campeão da Copa Sul-Americana com o Defensa y Justicia - Nicolas Aguilera - 23.jan.2021/AFP

Para que recebesse o certificado, o agora treinador do São Paulo precisou apresentar um trabalho de conclusão do curso (TCC).

A dissertação "O jogador moderno: identidade, nacionalismo e internacionalização" (título traduzido do italiano) foi apresentada pelo argentino em 2013 e está disponível na biblioteca de Coverciano. Nas 25 páginas do documento, Crespo utiliza a própria carreira para defender a importância de diferentes contextos, culturas e escolas de futebol no desenvolvimento do atleta.

"Na época da globalização, é necessário formar um jogador global", afirma no texto acadêmico.

A tese é dividida basicamente em três módulos: Argentina, Itália e Inglaterra. Em cada um deles, o centroavante repassa a história do futebol nesses países e mostra, com exemplos práticos do que viveu atuando por clubes, como as características particulares das diferentes ligas influenciaram a sua formação como jogador.

De seu início no River Plate, por exemplo, Hernán Crespo destaca o futebol voltado para a individualidade, a liberdade de exibir o talento natural e a técnica forjada nos "potreros", as várzeas argentinas.

"Impossível esquecer que foi desses campos (os potreros) que surgiram jogadores como Riquelme, Tevez, Maradona, Messi", escreve Crespo. "Um jovem jogador que cresceu na realidade argentina possui o talento necessário, mas há grande margem de melhora em um âmbito profissional mais maduro, como o dos clubes europeus."

É justamente essa margem de melhora que o ex-atacante assinala de sua passagem pelo futebol italiano, iniciada a partir da chegada ao Parma. Crespo pontua a importância que se dá à preparação, mas principalmente ao aspecto tático e ao entendimento de que o jogo é coletivo. Ele elogia a capacidade de Carlo Ancelotti, seu técnico no clube, em transmitir esses conceitos.

"Eu achava que o futebol fosse universal, que o modo como eu jogava na Argentina fosse determinante para fazer a diferença na Itália, mas eu estava enganado", diz. "A atenção da comissão técnica estava voltada para me inserir taticamente no modelo tático da equipe, queriam que eu participasse de todas as fases, não só como um finalizador de jogadas."

Em meio à experiência na Itália, o atacante passou duas temporadas no Chelsea: 2003/2004 e 2005/2006, com um empréstimo ao Milan no meio delas. Mas Crespo admite que teve dificuldade de adaptação ao jogo praticado na Inglaterra.

Segundo o argentino, a Premier League não era uma liga tão organizada taticamente como a Serie A. O dinamismo e o futebol mais direto produziam bom entretenimento aos torcedores e telespectadores, mas o jogo em si carecia de ordem.

Crespo afirma que a chegada de José Mourinho foi decisiva para ele e para o próprio Chelsea, que ganhou em riqueza tática e conquistou o título da liga na primeira temporada do português.

Além do trabalho de campo, o argentino também elogia a gestão de grupo do treinador chamado de "Special One" e observa como, na sua opinião, a liga inglesa se tornou a melhor do mundo em virtude da influência estrangeira.

"Graças à sua personalidade e atitude como condutor, ele conseguiu gerir à perfeição o grupo de jogadores. Mourinho deu ordem ao dinamismo e à fisicalidade da equipe", publicou o ex-atacante. "É inegável o papel fundamental que os jogadores e técnicos estrangeiros tiveram para a qualidade do jogo inglês."

A partir da vivência como jogador em diferentes campeonatos e a ênfase colocada na contribuição estrangeira à Premier League, o movimento do técnico ao fechar com o São Paulo São Paulo dá chances de aportar sua experiência e suas ideias ao novo clube.

Na conclusão de sua tese apresentada em Coverciano, Crespo aponta para duas necessidades que o treinador deve buscar: a primeira, incorporar ao seu time o que ele chama de "nível internacional de jogo", levando a equipe para além dos padrões estabelecidos localmente. A segunda, formar jogadores capazes de serem protagonistas em diferentes contextos ao longo da carreira.

Na seleção argentina, Hernán Crespo trabalhou com Marcelo Bielsa, uma de suas referências táticas
Na seleção argentina, Hernán Crespo trabalhou com Marcelo Bielsa, uma de suas referências táticas - Enrique Marcarian - 29.mai.2002/Reuters

Campeão da Copa Sul-Americana com o Defensa y Justicia em janeiro, seu trabalho à frente do time argentino sugere que, no Morumbi, o novo técnico são-paulino aproveitará as bases deixadas por Fernando Diniz com relação à saída de bola desde o fundo, da qual o goleiro participa ativamente.

Com relação aos esquemas, variou principalmente entre o 3-4-3 –às vezes mais estruturado como um 3-3-1-3, o mesmo que utilizava Marcelo Bielsa, seu técnico na seleção argentina– e o 4-3-3. No último terço, utilizou atacantes rápidos e fortes e potencializou o jogo de Brian Romero.

Do início de temporada discreto no Independiente, o atacante, emprestado ao Defensa, marcou 10 gols em 9 jogos na campanha vitoriosa da Sul-Americana, além de 3 gols em 4 partidas pela Libertadores.

Hernán Crespo defende, ao menos no plano das ideias, a organização coletiva que ele aprendeu principalmente de sua experiência na Itália, mas sem abrir mão do que é inato ao bom futebolista: o talento.

"O técnico deve saber gerir esse talento, sem sufocá-lo em um taticismo excessivo, valorizando-o dentro de um projeto total e enquadrando-o na busca por concretizar o valor que é a síntese do futebol atual: o equilíbrio."

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