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The New York Times

Ícone Tiger Woods é feito de grandeza esportiva e quedas espantosas

Acidente foi novo lembrete de que heróis são incapazes de escapar das reviravoltas do destino

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Kurt Streeter
The New York Times

Ver o carro que ele dirigia destruído, abandonado e tristonho em uma encosta gramada do sul da Califórnia, contradizia a imagem de Tiger Woods como uma força invencível em marcha pelos campos de golfe a caminho de triunfos emocionantes e inevitáveis.

Nem sempre foi esse o caso, e as vitórias recentes do golfista vêm sendo menos que impressionantes. Mas Tiger personifica tantas coisas. E nesse período de pandemia e de perdas constantes, é complicado para nós ver seu veículo destruído, contemplá-lo em um leito de hospital, descobrir que teve ossos esmagados em uma perna, e questionar se Tiger um dia voltará a jogar —e ao mesmo tempo dissecar a pessoa que ele é e as coisas que realizou.

O que aconteceu com o atleta superlativo que muitos de nós imaginavam transformaria o esporte do golfe, e talvez até a cultura em termos mais amplos?

A grandeza de Woods, que um dia pareceu predeterminada, terminou obscurecida nos últimos 10 ou 12 anos por momentos de queda espantosos, e por um corpo que o atraiçoou mais de uma vez.

Mas muitos de nós continuamos apegados a ele, mesmo que isso torne necessário o cultivo de pedaços estilhaçados de nossas lembranças. Recordamos o prodígio que explodiu no “Mike Douglas Show”, um programa de TV em cadeia nacional, acertando tacadas de golfe aos dois anos de idade. Recordamos seus anos na Universidade Stanford e o Masters de 1997, o primeiro de seus 15 títulos nos “majors”, conquistado de modo histórico por um atleta de apenas 21 anos de idade.

Quando você pensa em Woods, o que lhe ocorre?

Você recorda o superastro que parecia viver para derrubar recordes? Que desde pequeno parecia sentir uma fixação por quebrar o recorde de 18 títulos de “majors” estabelecido por Jack Nicklaus? Tenha em mente que houve uma época em que essa era uma meta insensata, quase arrogante. Mas ele saiu em busca do objetivo, aproximando-se cada vez mais da marca de Nicklaus, título após título.

Será que devemos ver Woods como o golfista cuja presença em um esporte em geral segregado e restrito à elite foi não só uma surpresa mas um prenúncio das questões que enquadram o mundo em que vivemos hoje?

Com sua pele marrom reluzente, sua força e sua confiança, Woods demoliu as portas dos clubes de campo reservados apenas aos brancos, nos Estados Unidos.

Você se lembra do jeito presunçoso e rotineiro do veterano do golfe Fuzzy Zoeller ao descrever Woods como “aquele garotinho"? Ou de Zoeller instar o colega publicamente a não incluir frango frito e couve [pratos que representam um estereótipo racial sobre as preferências culinárias da comunidade negra americana] no jantar do campeão do Masters?

Era essa a cultura do golfe quando Woods chegou, e tomou o controle, enquanto o mundo assistia.

Foto mostra público majoritariamente de pessoas brancas em volta do campo, e Tiger Woods ao fundo, vestido de vermelho, após uma tacada
Tiger Woods durante a disputa do Masters, que venceu em 2019 - Doug Mills - 14.abr.19/The New York Times

Mas como é que ele mesmo se via? Quanto a isso as coisas se tornam um pouco mais complicadas. Criado em subúrbios habitados predominantemente por brancos, em uma família formada por uma mãe tailandesa e um pai americano negro, Woods foi a primeira grande figura do esporte a abraçar abertamente a ideia de que ele representava a multiplicidade.

“Quando eu era menino”, ele disse em uma entrevistas a Oprah Winfrey pouco depois de conquistar seu primeiro título no Masters, “eu inventei uma palavra para me descrever: cablinasiático” [uma pessoa que combina antepassados caucasianos, brancos, indígenas e asiáticos].

Em um mundo que encontra dificuldades para deixar para trás a divisão de raças em caixinhas muito bem ordenadas, esse comentário alienou alguns dos torcedores mais ardorosos do golfista. Mas se ele foi criticado por aparentemente tentar se distanciar de seu lado negro, isso não prejudicou sua popularidade.

Não importa como Woods se definisse, ele estava imbuído de um determinado poder. Sempre o desbravador de caminhos, sempre o talismã. Ele ateou fogo à velha ordem. E isso basta.

E aí chegou 2009, e um momento preocupante de queda. Tudo começou com reportagens de jornais sensacionalistas sobre a infidelidade serial de Woods, que era casado. Por fim, os maiores defeitos de Woods terminaram expostos: suas mensagens de texto ilícitas, suas passagens por instituições de reabilitação para combater seus vícios.

Woods esteve entre os primeiros astros transcendentes do esporte a emergir no surgimento da era digital. Sua aura, sua raça, sua desenvoltura e seu talento no golfe, o malabarismo com os tacos, os “fist bumps”, as tacadas miraculosas —tudo isso parecia perfeitamente adequado para o YouTube e para a ascensão dos apps de esporte, que se alimentam de momentos fugazes e de emoções sensacionais.

A era digital também serviu para amplificar seus problemas. Cada imperfeição estava exposta, tanto as pessoais quanto as profissionais. Por boa parte de uma década, à medida que a passagem do tempo causava estragos em seu corpo e as cirurgias se acumulavam, Woods pareceu uma sombra de seu antigo eu. No início de 2019, ele estava chegando a quase 11 anos sem vitórias em majors.

Mas de alguma forma ele parecia continuar protegido contra a fraqueza. A revelação de suas fragilidades humanas lhe custou muito fãs e muitos contratos de patrocínio. Mas uma parcela significativa de seus admiradores escolheu perdoar e esquecer. A adesão continuada a Woods foi uma decisão deliberada do público, sempre disposto a conceder segundas ou terceiras chances aos vitoriosos. Especialmente um vitorioso como Woods.

Ele continuou a ser uma grande atração para o público, um ícone mundial, nas muitas temporadas em ele enfrentou problemas, lesões e o envelhecimento. Em dado momento, Woods chegou a estar no 1.119º posto do ranking mundial de golfe. Mas abril de 2019 chegou, e o Masters. Redescobrindo todas as qualidades do passado, ele disparou para a vitória e conquistou seu quinto paletó verde pelo título.

Ninguém que tenha assistido àquele torneio será capaz de esquecê-lo. Não só a volta por cima emocionante, mas o abraço de Woods em seu filho, Charlie, e filha, Sam, ao sair do green. A cena faz recordar o abraço que Woods recebeu de seu pai, Earl, depois de vencer o Masters de 1997. E a cena também simboliza a passagem pungente do tempo. Woods já não era o jovem campeão, iniciando sua ascensão, mas ainda era capaz de galgar os píncaros de seu esporte, mesmo que apenas ocasionalmente.

Abril de 2019 parece um passado distante, se levarmos em conta tudo aquilo por que o mundo passou nos últimos 12 meses.

E agora mais isso. Na terça-feira, vimos os destroços do carro e ficamos à espera de notícias. Estremecemos, recordando o helicóptero de Kobe Bryant, e os destroço espalhados por outra encosta do sul da Califórnia, pouco mais de um ano atrás.

Ouvimos o xerife e seus auxiliares descreverem os destroços e explicarem que Woods tinha sorte por ter sobrevivido, e que o acidente não parecia estar relacionado ao uso de drogas ou álcool. Eles informaram que o golfista foi retirado do carro com dificuldade, e transportado em uma padiola.

“Infelizmente”, disse um deles, “Woods não estava em condições de se levantar”.

Como é que uma circunstância dessas veio a surgir para Tiger Woods, que percorreu tantos campos de golfe majestosos, sempre com a maior determinação? O acidente foi um novo lembrete de que os heróis são humanos, têm fraquezas, e são incapazes de escapar às terríveis reviravoltas do destino que afligem a todos nós.

Tradução de Paulo Migliacci

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