Luisa Stefani mira vaga olímpica e novos saltos na elite do tênis

Duplista de 23 anos chega ao Australian Open em inédita 30ª posição no ranking

Curitiba

Depois de 14 dias com movimentação restrita em Melbourne, a tenista brasileira Luisa Stefani, 23, pôde na última sexta-feira (29) deixar a quarentena imposta aos atletas que chegaram ao país para a disputa do Australian Open, primeiro Grand Slam da temporada.

“Choveu o dia inteiro, e mesmo assim pareceu que foi um dia ótimo, só de poder andar na rua, respirar um pouco de ar fresco, comer em algum restaurante”, ela conta à Folha.

A Austrália, um dos países de mais sucesso no controle da Covid-19 (cerca de 29 mil casos e 909 mortes até agora), decidiu abrir suas portas e receber centenas de tenistas para um dos principais eventos do tênis.

As restrições foram duras na chegada para que depois todos pudessem desfrutar de torneios com público e uma vida menos angustiante.

“Ninguém anda de máscara na rua. Em alguns estabelecimentos fechados o pessoal usa. Seguem os cuidados de álcool em gel em todos os lugares e você precisa registrar suas informações com o celular quando entra nos restaurantes, para o governo ter como controlar”, relata a atleta, ressaltando que “não abusou da liberdade”.

As duas semanas de confinamento foram mais duras para outros 72 tenistas. Eles tiveram o azar de viajar em voos com pessoas infectadas pelo coronavírus e acabaram obrigados a ficar apenas dentro do quarto durante a quarentena.

Já a maioria, como Luisa, teve direito a cinco horas diárias fora da acomodação, totalmente controladas, para treinos em quadra, físicos e alimentação.

A reclamação de alguns tenistas (principalmente entre os 72) sobre o período em quarentena fez com que partes da mídia e da população australiana criticassem os atletas e os rotulassem como reclamões e desrespeitosos com os esforços empreendidos pelo país na pandemia.

A brasileira considera que os atritos tomaram proporção exagerada devido a publicações nas redes sociais e à forma como a imprensa australiana as reverberou, mas que isso não refletiu corretamente a opinião da maioria.

“Uma pena que a gente fique com essa reputação. Nos primeiros dias foi mais intenso porque era tudo muito incerto, tanto para os jogadores quanto para o governo e a federação australiana, que estão correndo o risco de trazer o torneio para cá. Mas não foi ‘se vira aí, agora você fica trancado’. No geral foi uma mordomia, eles cuidaram muito bem da gente nas condições que tinham”, afirma.

Luisa, que mora nos EUA e portanto conhece bem dois dos países com as realidades mais sofridas na pandemia, não tem do que reclamar. “A única parte difícil foi ficar no quarto os 14 dias, mas vale muito a pena para depois ter esse luxo de voltar a uma vida seminormal e jogar com público nas próximas semanas”, comemora.

O isolamento era aplacado pelos seus hobbies —tocar o pequeno violão que leva nas viagens, leituras, filmes e jogos online— e também observando treinos de outros atletas pela sacada.

Se dependesse dela, o circuito não sairia da Austrália pelo resto do ano. “Dá vontade de mudar para cá e ficar. Fazer o ano inteiro só de torneios aqui. Sempre quando venho acho que não vou querer voltar para o mundo lá fora, mas dessa vez principalmente.”

Ao lado de sua parceira, a americana Hayley Carter, a brasileira disputou um dos campeonatos preparatórios para o Grand Slam nesta semana e parou nas oitavas de final. Em janeiro, no primeiro evento da temporada, elas foram vice-campeãs em Abu Dhabi.

Tenistas se encaram e se cumprimentam durante jogo
Luisa Stefani (à dir.) com a parceira, Hayley Carter, durante torneio em Melbourne em fevereiro de 2021 - Divulgação/WTA

Três anos após trancar a universidade nos EUA e passar a se dedicar ao circuito profissional, Luisa está em rota ascendente. Após começar 2020 na 65ª posição do ranking de duplas, terminou na 33ª. Seu bom início de 2021 já a levou para o top 30 pela primeira vez na carreira.

Entre os objetivos traçados para a temporada estão atingir o grupo das dez primeiras, que garantiria a ela e ao Brasil vagas na chave feminina de duplas nos Jogos de Tóquio, e chegar o mais longe possível nos Grand Slams. Quem sabe até vencer um deles.

“Qualificar para a Olimpíada é um sonho difícil, mas atingível. Tenho metas e deixo a vida levar, uma mistura dos dois. É importante olhar para elas sempre, mas ao mesmo tempo ter pé no chão e trabalhar para poder chegar lá”, diz.

A tenista sabe que, por causa dos bons resultados, as expectativas por outros ainda melhores crescem. E ela enxerga isso de forma positiva. “Nunca fico cansada de ter que suprir tal pressão, tal expectativa. Tem que olhar além disso, porque o futuro é promissor.”

Luisa hoje se sente mais respeitada e confortável no competitivo ambiente do circuito profissional. Ainda que o tratamento destinado às duplistas não seja o mesmo das estrelas de simples, foi-se o tempo em que ela se sentia a novata no pedaço, sob olhares de curiosidade ou julgamento das colegas.

Além do ganho de projeção internacional, agora por vezes cabe a ela obter o melhor resultado do tênis brasileiro em determinadas semanas.

“Realmente é motivador sentir que estou fazendo a diferença, fazendo crescer o tênis feminino, e de uma maneira geral o esporte feminino brasileiro”, afirma. Se eu consigo me expor e me colocar numa condição de motivar, talvez inspirar mais meninas, é um grande feito.”

No fim do ano, pela primeira vez desde que se mudou para os EUA, em 2011, a atleta passou mais de um mês seguido no Brasil. De acordo com ela, o tempo serviu para sair da zona de conforto, estar mais perto de parte da família e renovar as energias para uma temporada em que está disposta a alçar voos mais altos.

Do Brasil, ela também levou na bagagem horas de treinos de devolução de saque. “Era uma coisa que tinha claro na minha cabeça que me deixava na mão em alguns jogos. Não sempre, mas queria muito melhorar.”

Luisa também vê que há margem para evoluir ao fixar mais jogadas com Carter e usá-las efetivamente nos pontos decisivos, além de aprimorar os pontos fortes da dupla, como o jogo de rede da brasileira e a solidez de fundo de quadra da americana.

Olhar para trás ajuda a projetar o que poderá vir pela frente. “Em 2019 entrei no meu primeiro Grand Slam e era ‘caramba, tô num Grand Slam, se joga’. Ano passado fomos um passo a mais, viramos cabeça de chave. Então eu não caí de paraquedas, é um trabalho que faço todos os dias e que vem dando frutos aos poucos”.

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