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Bruno Maia

'Pelé' e 'Doutor Castor' são marcos do streaming esportivo no Brasil

Veremos conteúdos como esses se multiplicarem e preencherem um déficit histórico

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Bruno Maia

Especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, é sócio da 14, agência de conteúdo estratégico, e lançou em 2020 o livro e o curso "Inovação é o Novo Marketing". No Twitter, @brunomaia14.

As plataformas de streaming vão aumentar —e muito— a lista de produções originais sobre esportes nos próximos anos, e isso começa a chegar ao Brasil.

O lançamento de “Pelé”, pela Netflix, talvez seja um marco de algo que veremos cada vez mais por aqui. Historicamente, o futebol sempre foi acompanhado pelo viés do ao vivo, ou seja, da transmissão dos jogos em si, ou pela lente do jornalismo. Pouco foi transformado em conteúdos de cinema ou produzido pelo viés do entretenimento. Isso está mudando.

O lançamento de “Last Dance”, série sobre a trajetória de Michael Jordan e seu Chicago Bulls, foi um grande acontecimento do início da quarentena.

Diante da falta de esportes ao vivo, seu lançamento foi antecipado para abril de 2020 e saciou uma horda de fãs, que sentiam saudade tanto de Jordan quanto de assistir a disputas esportivas. O produto, desenvolvido pela ESPN e distribuído mundialmente pela Netflix, não foi o primeiro, mas se tornou um marco do segmento.

No Brasil, como nossa indústria de entretenimento audiovisual sempre foi muito dependente da Globo, que explorava a fundo os direitos de transmissão ao vivo e o jornalismo promocional para consolidar dominância de mercado, outros formatos não foram tão trabalhados.

Nosso potencial é imenso nesse sentido, e deveremos viver um boom desse tipo de produtos nos próximos anos, tanto pela ausência de acervo de produtos desse tipo quanto pela força com que os players de streaming vêm chegando por aqui.

A pulverização dos direitos de transmissão ao vivo por várias plataformas também é uma razão que deve aumentar a necessidade das empresas de falar com um público apaixonado por esportes para além das horas de competição.

O caso de “Pelé” é emblemático. O maior jogador da história talvez seja o único atleta brasileiro que já merecera uma linha de produtos ampla sobre sua vida, incluindo aí o filme “Pelé Eterno”, que trazia ares de obra definitiva.

Porém, o filme lançado esta semana pela Netflix, dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, chama para si a responsabilidade de registrar a força do personagem que ajudou a definir a identidade de um país por meio da sua arte, carisma e contradições.

Como se trata de um personagem bastante conhecido dos brasileiros, o filme pode parecer não avançar muito, mas cumpre um papel importante. Além de transbordar imagens espetaculares de arquivo das décadas de 1950, 1960 e 1970, permite que a camada mais deslumbrante de Pelé seja vista e entendida dentro do ambiente e da linguagem do streaming.

O barato da distribuição sob demanda, chamada tecnicamente de VOD (video on demand), é que, além de escolher a hora em que quer assistir, o consumidor também pode aprofundar o quanto quiser em determinados temas. Não será surpresa ver, tanto Jordan quanto Pelé, virarem objetos de novas obras no futuro, que mergulhem em outras nuances de suas riquíssimas biografias.

No Brasil, onde a identidade nacional se confunde constantemente com a do futebol, isso também se anuncia como um campo rico.

Nesse sentido, a recém-lançada série “Doutor Castor” (disponível na Globoplay) também é um importante sinal de como o futebol pode ser objeto de produtos para muito além das quatro linhas.

Castor de Andrade em material de divulgação da série 'Doutor Castor'
Castor de Andrade em material de divulgação da série 'Doutor Castor' - Reprodução

Toda a comunicação utilizada pela Globo para lançá-la teve foco no aspecto esportivo e na relação do lendário contraventor Castor de Andrade com o esporte. A ponto de que o lançamento aconteceu com a exibição do primeiro episódio na grade do SporTV, um canal que tradicionalmente não explora esse tipo de linguagem em produtos originais, preferindo a cobertura de eventos ao vivo e o jornalismo.

A repercussão de “Doutor Castor”, porém, vem transcendendo o ambiente esportivo, mostrando que o esporte é uma grande catapulta para histórias sobre as quais todos nós queremos saber.

Veremos conteúdos como esses se multiplicarem cada vez mais, preenchendo um déficit histórico importante do esporte brasileiro e também ajudando os dirigentes a entenderem que o valor do produto que têm na mão pode ir muito além dos campos, das confusões do VAR e da briga cega pelos direitos de transmissão.

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