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Ygor Salles

Por que Tom Brady é menos amado do que outros ícones do esporte nos EUA

Astro do futebol americano convive com antipatia gerada pelos 20 anos de domínio dos Patriots

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São Paulo

Quando Tom Brady deita sua cabeça no travesseiro à noite não devem passar problemas pela cabeça dele. É o maior da história na profissão que escolheu, a de jogador de futebol americano, é casado com a mais bem-sucedida modelo que já existiu, tem filhos, muito dinheiro e é amado por todos.

É amado por todos? Nesta hora, a dúvida se abate sobre Brady, que abre os olhos, remoendo a questão.

Não há dúvidas que o quarterback tem uma grande legião de fãs, em especial aqueles que passaram a acompanhar futebol americano vendo suas atuações pelo New England Patriots, time pelo qual venceu 6 de seus 7 Super Bowls, além do atual caneco pelo Tampa Bay Buccaneers, sendo disparado o jogador com mais conquistas na NFL.

Mas, mesmo diante de tamanha doutrinação no esporte, Brady não tem dos americanos o tratamento dado àqueles que ascenderam ao Olimpo do esporte no país. Jesse Owens, Muhammad Ali, Michael Phelps, Michael Jordan, ou até mesmo LeBron James e Serena Williams, para pegar atletas ainda na ativa como ele, são mais incensados.

Duvida? LeBron tem 49 milhões de seguidores no Twitter, e Serena, 11 milhões. Brady tem "só" 1,5 milhão, pouco até mesmo se pensarmos que atua num esporte que não é tão globalizado quanto o basquete e o tênis. Patrick Mahomes, 25, quarterback adversário no último Super Bowl e maior candidato a sucedê-lo como a principal estrela da NFL, tem 1,7 milhão.

Até para ser considerado o GOAT (Greatest Of All Time, maior de todos os tempos em inglês) de seu esporte demorou um pouco. Ele não corre com a bola como Russell Wilson, não aguenta tranco da defesa adversária como Ben Roethlisberger, não é tão regular como foi Brett Favre, não faz lançamentos tão espetaculares quanto Aaron Rodgers ou Peyton Manning, dizem os detratores com maior ou menor grau de veracidade. Precisaram de muitos títulos e recordes quebrados para aceitarem o óbvio ululante.

Alguns fatores colaboraram para que não ganhasse o coração dos americanos. Ele faz o perfil low profile, é bastante reservado (a despeito de ser casado com uma supercelebridade como Gisele Bundchen) e não se envolve em polêmicas fora de campo.

Nos últimos anos, por exemplo, ele foi pressionado por conta de sua relação de amizade com o ex-presidente Donald Trump. "Foi desconfortável para mim. Você não pode desfazer coisas, e não é como se eu quisesse desfazer uma amizade, mas apoio político é diferente de apoiar um amigo", afirmou em 2020. Gisele é crítica do político republicano, o que também teria abalado a antiga relação de amizade.

Porém, o maior problema é esportivo mesmo: a antipatia gerada pelos Patriots ao longo das 20 temporadas em que Brady defendeu o time de Massachussets.

Se você gosta de futebol entenderá a analogia: um time que joga bonito tem mais chance de encantar torcedores de outros times, mesmo que não ganhe. Já um time que não brilha mas é muito eficiente e ganhador satisfaz seu próprio torcedor, mas atrai o ódio dos outros.

Em um passado recente, houve alguns casos de domínio completo nos esportes americanos como foi o dos Patriots. O mais evidente é o Chicago Bulls seis vezes campeão da NBA nos anos 1990, capitaneado por Michael Jordan. Era um time muito forte defensivamente, mas sua maior vantagem era ter um gênio (ou gênios no plural, mas "mortais", como Scottie Pippen e Toni Kukoc) atacando. Quem assistia aos Bulls buscava, antes de tudo, espetáculo. É nesse contexto que Jordan se torna uma lenda.

Isso não aconteceu com os Patriots, cujo jogo era extremamente eficiente, com uma defesa forte e um ataque que não tinha jogadas espetaculares, mas também não errava. Frio como uma noite de inverno em Boston.

Com Brady é assim: enquanto os quarterbacks "normais" pensam e deixam os marcadores pressionarem, ele recebe a bola e lança muito rapidamente, deixando seus companheiros quase sempre em vantagem. Parece um robô, mas é fruto de sua inteligência e de sua dedicação em estudar o adversário nos mínimos detalhes. A mesma dedicação que deu à preparação física, o que lhe rendeu toda sorte de recordes de longevidade na liga.

Se o cenário já não ajudava, o "deflategate", como ficou conhecido o escândalo das bolas murchas nos playoffs em janeiro de 2015, acrescentou à "frieza" de Brady uma casca de falta de fair play, como se fosse capaz até de trapacear para vencer. O jogador garante até hoje que não sabia que as bolas foram esvaziadas para o favorecer, mas não colou.

A mudança para os Buccaneers, de certa forma, foi uma tentativa de resposta às críticas que recebeu ao longo da carreira. Brady poderia se aposentar nos Patriots, mas arriscou sua reputação e foi para um time que não era campeão desde 2002 e que não ia para os playoffs havia 15 anos. Pois foi, viu e venceu o Super Bowl com ampla vantagem já na primeira temporada.

Não sabemos se agora será amado, mas ao menos deve ter descongelado mais alguns corações por aí. Pode dormir tranquilo, campeão.​

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