Taça do Corinthians há 50 anos pôs Médici de novo no futebol

Em rara glória pelo time, Rivellino fez gol do título de torneio que levava nome do presidente

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São Paulo

​As tentativas de Jair Bolsonaro de atrelar sua imagem ao futebol não são exatamente uma tática original. Vários de seus antecessores na Presidência da República se aproximaram do esporte mais popular, estratégia elevada efetivamente a política de Estado no período em que Emílio Garrastazu Médici vestiu a faixa, de 1969 a 1974.

Médici, cujo governo ditatorial é elogiado por Bolsonaro, era mais assíduo nos estádios do que o atual presidente. Famoso por frequentar o Maracanã com um radinho de pilha, ele viveu um de seus icônicos momentos de incursão no gramado há 50 anos, quando entregou ao Corinthians o Troféu Presidente Garrastazu Médici.

Reprodução da Folha de S.Paulo de 20 de fevereiro de 1971, que abordava a conquista do Corinthians no Torneio do Povo
Corinthians conquistou há meio século a primeira edição do Torneio do Povo, cujo troféu levava o nome do presidente Médici e foi por ele entregue - Reprodução - 20.fev.71/Folha de S.Paulo

Em 19 de fevereiro de 1971, o time paulista venceu o Internacional por 1 a 0, em Belo Horizonte, e conquistou o que ficou conhecido como Torneio do Povo. Rivellino, de falta, marcou o único gol da partida e ergueu na sequência uma rara taça com a camisa alvinegra, em um Mineirão ocupado por 21 mil espectadores.

Um deles era o presidente, que fez questão de anunciar previamente sua presença na rodada dupla. Atlético-MG e Flamengo –os outros participantes da competição, que reunia as equipes de maior torcida em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre– chegaram à jornada final sem chance de título e empataram a preliminar por 3 a 3.

Já o Internacional liderava, com um ponto de vantagem sobre o Corinthians, o que lhe dava a possibilidade de jogar pelo empate. Confiante em sua defesa, que vinha se saindo bem, o técnico colorado Daltro Menezes previu que o prêmio passaria apenas por mãos gaúchas: “Médici entregará o troféu a um conterrâneo seu”.

Não foi o que ocorreu. O presidente, que se dizia gremista no Rio Grande do Sul e flamenguista no Rio de Janeiro, evitou o dissabor de dar a taça ao arquirrival do Grêmio. E acertou o placar do jogo, de acordo com relato publicado na Folha, no qual Haroldo Lima exaltava a capacidade premonitória do chefe de Estado.

Reprodução da Folha de S.Paulo de 19 de fevereiro de 1971, que abordava a final Torneio do Povo
Médici fez questão de anunciar sua presença no jogo - Reprodução - 19.fev.71/Folha de S.Paulo

Segundo o jornalista, além de ter apontado na véspera o triunfo alvinegro pelo placar mínimo, o político teve outro momento de iluminação já na tribuna do Mineirão, no instante em que saiu a falta do gol. Em papo com o ministro da Agricultura, Cirne Lima, antecipou que o camisa 10 preto e branco bateria o arqueiro colorado.

“‘Quem vai chutar é o Rivellino. A bola vai passar pela barreira, e o goleiro não vai nem vê-la.’ Eu vi e ouvi. Foi isso mesmo o que aconteceu: o Aladim correu, passou pela bola, e atrás dele veio a ‘patada’ de Rivellino, que o goleiro Valdir só viu quando a bola já estava no fundo das redes. Pois é”, escreveu Haroldo Lima.

Se “o certame em sua primeira disputa não se revestiu de toda a importância e repercussão” a que estava “destinado”, como escreveu A. Mendes no dia da partida final, a vitória foi bastante celebrada pelos corintianos. Na Folha de 19 de fevereiro, o colunista imaginou um time de confiança renovada em caso de sucesso em Belo Horizonte.

“O que a partida significa para o Corinthians não é necessário dizer. Receber das mãos do Presidente Médici a taça da conquista de um torneio realmente de expressão e significado pelos concorrentes que reúne, constituirá, por razões conhecidas, não apenas um grande lenitivo de uma caminhada ingrata, mas sim uma recompensa das mais apreciáveis”, observou Mendes.

Rivellino foi peça fundamental do Corinthians, clube que defendeu como profissional de 1965 a 1974; ele partiu, no entanto, sem um título relevante - Acervo/Folhapress

Os alvinegros de fato comemoraram a conquista com entusiasmo, embora o jejum de triunfos importantes tenha continuado. Na fila desde o sucesso no Campeonato Paulista de 1954, a formação do Parque São Jorge só faria a festa de verdade no Estadual de 1977, já sem Rivellino, mas a alegria no Torneio do Povo foi considerável para uma torcida carente de glórias.

Uma multidão foi ao aeroporto de Congonhas, no dia seguinte ao triunfo, para receber os campeões. Nem o atraso no voo que levava os jogadores de Belo Horizonte a São Paulo diminuiu o entusiasmo dos torcedores, que iniciaram um “carnaval”, como descreveu a Folha, “diante do espanto de alguns turistas”.

“Quando os alto-falantes do aeroporto anunciaram que haveria três horas de atraso na chegada do avião que trouxe a delegação, ninguém deu importância. Ao som dos tambores, com gritos de ‘Corinthians campeão’, ou ‘Olê, olá, o nosso time está botando para quebrar’, o grupo ficou cada vez mais animado”, relatou o jornal.

Reprodução 1 da Folha de S.Paulo de 21 de fevereiro de 1971, que abordava a conquista do Torneio do Povo pelo Corinthians
Título do Torneio do Povo não é relevante na história do Corinthians, mas deu alegria à torcida em um momento de carência de glórias - Reprodução - 21.fev.71/Folha de S.Paulo

Quando a aeronave finalmente pousou, o técnico Aymoré Moreira dedicou o título à Fiel, que o “merecia fazia muito tempo”. Já o presidente Wadih Helu, membro da Arena, partido que comandava o país, fez questão de ressaltar que o troféu havia sido oferecido pelas mãos do presidente da República.

“Disputamos um torneio que envolveu as melhores equipes e as mais populares do Brasil. E ganhamos a Taça do Povo, que nos foi entregue pelo presidente do povo, Emílio Garrastazu Médici. Depois disso, imitando o presidente, que diz ‘ninguém segura este país’, só me resta dizer: em futebol, ninguém segura o Corinthians”, bradou o cartola.

Não foi bem assim. A equipe continuou apresentando campanhas sofríveis nos principais campeonatos, e Helu foi finalmente derrubado da presidência alvinegra após dez anos no poder. Chamado de ditador pelos oposicionistas e pela Gaviões da Fiel, fundada justamente com o propósito de tirá-lo do clube, o dirigente perdeu a eleição realizada naquele mesmo 1971.

Reprodução 2 da Folha de S.Paulo de 21 de fevereiro de 1971, que abordava a conquista do Torneio do Povo pelo Corinthians
Wadih Helu (no alto, à direita), presidente do Corinthians entre 1961 e 1971, era muito simpático ao regime militar - Reprodução - 21.fev.71/Folha de S.Paulo

Já o regime militar brasileiro só foi desmontado na década seguinte, quando o Corinthians havia se reconciliado com os títulos e com a própria história. Time e torcida tiveram participação relevante no processo de redemocratização do país, e o movimento batizado de Democracia Corinthiana é lembrado com mais carinho do que o tempo dos fracassos com Helu no comando.

O Torneio do Povo, por sua vez, teve apenas mais duas edições e jamais alcançou “toda a importância e repercussão” a que supostamente estava destinado. Em 1972, entrou também na disputa o Bahia, e quem saiu vencedor foi o Flamengo. Em 1973, a novidade foi a presença do Coritiba, que ficou com a taça. Nenhum dos campeões hoje dá importância ao título.

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