Após Palmeiras, jogadora surda enfrenta falta de acessibilidade na busca por novo time

Vivendo em Erechim, Stefany Krebs está sem clube desde que deixou equipe alviverde

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Stefany Krebs, ex-Palmeiras

Stefany Krebs, ex-Palmeiras Zanone Fraissat - 22.fev.2021/Folhapress

São Paulo

Questionada se preferia realizar a entrevista por escrito, a meia-atacante Stefany Krebs balança a cabeça negativamente e, com um amplo gesto dos braços que saem do peito, faz questão de responder em libras, como afirma se expressar melhor.

Aos 22 anos, a jovem jogadora surda provocou grande alarde quando foi contratada pelo Palmeiras, no início de 2020. Sem clube pouco mais de um ano depois, a atleta procura uma equipe para atuar.

“As meninas do Palmeiras foram muito amigas”, afirma à Folha, revelando ter sido gratificante o tempo no time alviverde. A conversa foi traduzida pela namorada Isabella Ferreira, que também é deficiente auditiva, mas usa um implante para poder ouvir.

O sonho de jogar no Palmeiras foi impactado pela pandemia e a suspensão do esporte em 2020. Lá, fez cinco jogos, entrando no decorrer dos duelos (três no Brasileiro, duas no Paulista, sem gols marcados) e diz que foi abraçada pelas companheiras, que passaram a aprender libras para ajudá-la.

Por outro lado, Stefany afirma que chegar à elite mostrou para ela que o futebol brasileiro não está preparado para receber atletas com deficiências como a sua.

“Com 12 anos eu comecei minha carreira [em um time não profissional]. Até hoje, percebo que a maioria dos clubes não tem ajuda, acham que não tem problema, que futebol se joga com as pernas, que não precisa de intérprete para se comunicar, ninguém sabe falar libras”, reclama ela, que usa o apelido Tefy.

Conta que, além do problema de comunicação com as companheiras de equipe e com a comissão técnica, outro ponto de atenção são as marcações do árbitro, feitas com o som do apito.

Diz que aprendeu a se virar, mas entende que tais obstáculos com a acessibilidade, somados ao fato de haver preconceito com a comunidade surda, fazem com que muitos sequer iniciem a carreira no esporte.

“Tem jogadoras e jogadores surdos que jogam muito [bem] e tem muita inteligência. Por que nós não os vemos [em campo]? Convivi bastante com os surdos, já me contaram que tentaram carreira, mas não deu certo por conta da comunicação, de falta de confiança, [dificuldade de] adaptação e [falta de] oportunidade”, afirma.

Em sua análise, a surdez muitas vezes é usada para descreditar a capacidade dos atletas, ao mesmo tempo que o fato de o jogo ser jogado com as pernas é argumento para que não haja acessibilidade no futebol brasileiro.

Tefy lembra que não viveu esse drama sozinha. Junto a ela, passando pelas mesmas dificuldades, estava a pessoa que a fez se apaixonar pelo futebol.

“Por exemplo, eu tenho um irmão surdo, que o maior sonho dele era ser jogador de algum time profissional. Ele tentou, mas ninguém aceitou ele, porque ele é surdo”, conta.

Apesar das dificuldades que enfrentou pelo Palmeiras, entende que sua chegada lá pode ter contribuído para melhorar o clube internamente e espera, principalmente, que o feito se torne um marco, a quebra de uma barreira.

Conta que ficou chateada com a não renovação de contrato, mas que, em suas palavras, o futebol vai e volta, é feito de idas e vindas. Diz que a pandemia atrapalhou sua passagem no clube alviverde, que ficou um longo período sem poder treinar, mas que tentou usar esse momento para aprimorar seu preparo físico e também para refletir.

“Ano passado tranquei a faculdade, no sétimo semestre, para ir para o Palmeiras. Mas surgiu a pandemia, eu pensei e voltei a estudar à distância. Aproveitei pra fazer meu TCC [trabalho de conclusão de curso]. É meu último ano”, conta.

O trabalho, feito à distância quando ainda morava em São Paulo, tem a sua cara. Apresentou-o virtualmente em novembro, com ajuda de uma intérprete, e o batizou de “A inserção no esporte escolar de jovens surdos no Brasil a partir de ações da Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS) e Entidades de Surdos”.

Após não ter seu contrato renovado pelo pelo Palmeiras, voltou a Erechim (RS) para viver com sua família. Ela diz que pretende se formar em Educação Física neste ano. Atualmente, ela estagia em uma escola da cidade, onde é a única surda no corpo docente.

Em casa, tenta manter a forma física e a cabeça erguida na busca de um novo clube, um empresário e construir uma agenda de compromissos. Recentemente foi para Santa Catarina, convidada por um time para disputar um torneio de futebol de sete.

Lembra-se também das duas vezes, uma em 2015 e outra em 2019, respectivamente na Tailândia e na Suíça, em que foi eleita a melhor jogadora do Mundial de futsal para surdos, com a camisa da seleção brasileira.

A última campanha, inclusive, rendeu ao país um inédito título, e também foi uma das performances que a credenciou para jogar no Palmeiras.

Após a ascensão ao futebol de campo, Stefany não pensa em voltar às quadras, tampouco deixar de jogar bola. Confessa que seu “plano B” seria trabalhar com preparação física, mas acredita que ainda tem potencial para voltar aos gramados.

Seja onde estiver, Stefany leva a missão de representar a comunidade surda. Ela espera que jogar pelo Palmeiras tenha sido apenas a primeira das muitas barreiras que ainda irá quebrar.

“Sinceramente, todo mundo tinha que se preocupar com a acessibilidade para a comunidade surda [no futebol]”, desabafa.

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