'Luta do Século' entre Ali e Frazier comemora 50 anos cada vez mais relevante

Ex-campeão George Foreman e especialistas explicam como duelo transcendeu o esporte

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Eduardo Ohata
São Paulo

Imortalizado por conta de “My Way” e outras canções de sucesso internacional, a estrela Frank Sinatra se prepara para ir ao Madison Square Garden, em Nova York, acompanhar aquela que vinha sendo chamada de “A Luta do Século”. O cantor ajusta seu impecável terno escuro, a camisa branca, ajeita a gravata e, ao sair, confere se não falta nada no seu... equipamento fotográfico?

Era 8 de março de 1971, data do primeiro duelo entre os norte-americanos Muhammad Ali e Joe Frazier, pelo título mundial dos pesos-pesados. Sinatra se sujeitou, por um dia, a trabalhar como fotógrafo freelance para a Life, porque, dependendo da versão, não havia conseguido ingressos próximos do ringue, e os buscava desesperadamente, ou desejava ficar o mais perto possível da ação.

“Naquela noite o Garden parecia uma combinação de Ano Novo com desfile de Páscoa. Eu já havia retirado Dustin Hoffman e Diana Ross da área de imprensa [ao lado do ringue], e o próximo seria Sinatra, quando descobri que tinha uma credencial de imprensa”, contou John Condon, à época diretor de publicidade do Garden. “Estava de mãos atadas, Sinatra havia garantido o direito de estar lá.”

“Lembro bem dessa luta, estava muito próximo ao ringue”, conta o ex-campeão mundial dos pesos-pesados George Foreman, que posteriormente enfrentou Ali e Frazier, em relato exclusivo à Folha. “As celebridades que vi me deixaram de boca aberta; os famosos estavam todos reunidos lá, ou [aqueles que não conseguiram ingressos] queriam estar.”

Além dos já mencionados Sinatra, Hoffman e Ross, Bob Dylan, Woody Allen, Hugh Hefner, Barbra Streisand, Sammy Davis Jr., os astronautas da Apollo 14, Miles Davis, Ted Kennedy, Norman Mailer e Walt “Clyde” Frazier estavam no Garden. O ator Burt Lancaster atuou como um comentarista especial.

O combate foi acompanhado por 300 milhões de pessoas ao redor do mundo, número impressionante quando se leva em consideração que naquela época apenas pequena parcela da população possuía TVs.

Nos EUA, a maior parte do público assistiu ao combate por meio do sistema de circuito fechado de TV.

Ali e Frazier eram campeões olímpicos; Ali, em Roma-1960, e Frazier, em Tóquio-1964.

Ambos estavam invictos, em seus respectivos auges, e eram donos de estilos contrastantes. Ali era falastrão fora do ringue. Dentro, bailava e desferia combinações de golpes em velocidade; já Frazier, reconhecido como campeão mundial na época, tinha personalidade mais reservada, mas havia ganhado reputação de brutal demolidor nos quadriláteros.

Porém o aspecto atlético era apenas parte da história. “A Luta do Século” acabou por transcender o esporte.

“Mesmo quem não acompanhava esportes parou para assistir aquele combate; um dos motivos pelos quais Ali x Frazier ressoou foi porque Ali lutava por respeito depois de ter sido condenado na Justiça ao se negar a lutar na Guerra do Vietnã [e ter sua licença de boxeador suspensa e seu título de campeão do mundo cassado no tapetão], além disso, tornara-se um herói para quem se insurgia contra a guerra”, explica à Folha Jonathan Eig, autor da biografia “Muhammad Ali: Uma Vida”. “Também é notório seu envolvimento no movimento negro por meio da participação na Nação do Islam [grupo político e religioso].”

“A população dos EUA estava amargamente dividida em relação ao Vietnã; enquanto Ali era o herói antiguerra, quem tinha opinião contrária ficou do lado de Frazier”, reforça o ex-editor Nigel Collins, da mais famosa publicação especializada em boxe, a The Ring. “Portanto, havia envolvidos muitos aspectos culturais e políticos.”

“E religiosos”, acrescenta Foreman.

Na autobiografia “Sou o Mais Poderoso: A Minha História”, Ali conta sobre um passeio de carro no qual aconselhou Frazier sobre futuros rivais, os perigos de andar de moto, e se ofereceu como sparring [treino com luvas]. Uma rivalidade começava a brotar, quando Ali explicou a Frazier como o venceria se lutassem –Frazier, previsivelmente, discordou. Ao fim do papo, Frazier deu US$ 100 a Ali, que estava impossibilitado de lutar e reconheceu precisar do dinheiro.

Antes da “Luta do Século”, Frazier foi chamado por Ali de “Pai Tomás” [negro subserviente aos brancos e indiferente à própria raça] e “Gorila”. Seus filhos voltavam chorando da escola após insultos dos colegas, motivados pelas declarações do adversário .

A luta em si foi equilibrada, e brutal.

Estatísticas recentes baseadas em Ali x Frazier I, abertas com exclusividade à Folha, revelam que nos últimos cinco assaltos do duelo, o “Fumegante” Frazier acertou 156 golpes em Ali, que por sua vez conectou 108 dos seus. Na luta, Frazier acertou impressionantes 215 golpes no corpo do “O Maior” Ali.

Frazier pontuou seu domínio ao aplicar um knockdown [queda] no 15º e último assalto. Os juízes viram sua vitória por 8 assaltos contra 6 de Ali e 1 empate, 9 a 6 e 11 a 4 -à época não era utilizado o sistema de 10 pontos ao vencedor.

“Após o combate, ambos foram hospitalizados e Ferdie Pacheco, médico pessoal de Ali, me disse que Ali nunca foi mais o mesmo após aquele combate”, afirma Eig.

Por sua participação na “Luta do Século”, Ali e Frazier receberam, cada um, bolsas de US$ 2,5 milhões.

Ainda “A Luta do Século”?

Vamos avançar algumas décadas no futuro, até 2015, quando Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao dividiram US$ 300 milhões em uma luta que produziu US$ 600 milhões.

Com isso, muitos fãs insistiram à época que Ali x Frazier I havia sido desbancada como “Luta do Século”. Além disso, alguns deles apontavam ainda que o combate “havia sido no século 20, no século passado”.

Os especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes em reafirmar o status de Ali x Frazier I como “A Luta do Século”.

“As lutas não deveriam ser julgadas por quanto dinheiro produzem ou perdem, o que conta é a luta em si; o fato que Mayweather-Pacquiao gerou muito mais dinheiro do que Ali x Frazier I não importa, a luta em si foi horrível, teria sido um grande combate em 2010, porém em 2015 Pacquiao há havia passado de seu auge, e o estilo defensivo de Mayweather Jr. resultou em uma luta chata”, desmistifica Collins. “Além de todos os fatores além do ringue, Ali x Frazier I foi uma luta excelente; se tivesse sido uma droga, duvido que seria tão bem lembrada até hoje.”

“Qual foi o ponto de Mayweather Jr x Pacquiao? Dinheiro. Nada além disso [dinheiro]”, concorda Eig. “Ali x Frazier I permanece como a ‘Luta do Século’, sem dúvida, é o combate que definiu uma era; aliás, sua relevância só cresce”, aponta Eig.

“Eles a batizaram bem como ’A Luta do Século’; não houve desde então nada no mundo do Esporte capaz de superá-la”, conclui “Big” George.

Em 1974, na revanche, Ali deu o troco com uma vitória por decisão unânime dos juízes depois de 12 rounds. Na ocasião, Frazier já havia perdido o título para George Foreman.

A trilogia foi fechada no ano seguinte, com nova vitória de Ali, após dominar a luta, ver o rival desistir do combate ao final do 14º round e manter o título mundial que tirara de Foreman, no Zaire, no ano anterior.

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