Países priorizam vacinação de atletas de olho na Olimpíada de Tóquio

Israel, México e outros colocam equipes olímpicas como grupos prioritários

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Andrew Keh
The New York Times

Em meio ao cálculo constante sobre como distribuir a oferta limitada de vacinas contra o coronavírus, o consenso mundial mais amplo costuma priorizar certos grupos: médicos e enfermeiras, os idosos e os doentes, os trabalhadores de linha de frente e os professores.

Não seria comum que atletas de elite –os praticantes de nado sincronizado e mergulho mais habilidosos de um país, seus corredores mais velozes, seus melhores ginastas e seus jogadores de badminton de primeira linha –entrassem na lista.

Mas é precisamente esse o debate que vem acontecendo em todo o mundo nos meses finais de preparativos para a Olimpíada de Tóquio, que acontece no terceiro trimestre. Não é só uma questão de bioética. A maneira pela qual cada governo decidir proceder com relação à vacinação, nos próximos meses, determinará se a Olimpíada transcorrerá como uma catártica celebração do esporte internacional ou como um evento de contágio maciço com um mês de duração.

Em qualquer outro ano, os atletas profissionais –jovens, saudáveis e obviamente em excelente forma– seriam colocados no final da fila. Este ano, porém, com os Jogos Olímpicos se aproximando no Japão, onde uma alta no número de casos de Covid-19 no começo do ano forçou muitas das maiores cidades do país a decretar estado de emergência, no mês passado, a questão se tornou muito mais complicada.

Número crescente de países –um grupo diversificado que inclui Índia, Hungria e Israel– vem anunciando que suas equipes olímpicas furarão a fila da vacinação. O presidente do México anunciou este mês que os atletas do país estariam no grupo prioritário, em companhia dos trabalhadores de saúde e professores. A Lituânia agiu ainda mais rápido e começou a ministrar a vacina aos seus atletas olímpicos algumas semanas atrás.

Em muitos países, as vacinações antecipadas são simplesmente um esforço para evitar casos inoportunos de contágio ou interrupções no precioso tempo de treinamento dos atletas. Nem os organizadores japoneses e nem o Comitê Olímpico Internacional (COI) vão exigir prova de vacinação ou de cumprimento de quarentena das pessoas que forem assistir ou participar dos jogos, ainda que atletas, comissões técnicas, jornalistas e dirigentes esportivos devam passar por exames regulares de coronavírus durante o período em que estiverem no Japão.

No entanto, mesmo especialistas em ética se dividem quanto à legitimidade de passar os atletas para a frente da fila, e sobre as consequências disso para a saúde mundial.

“Os atletas são trabalhadores essenciais”, disse Arthur Caplan, professor de ética médica na escola de medicina da Universidade de Nova York, ecoando opiniões expressadas nas últimas semanas pelos governos da Dinamarca, Sérvia e Filipinas, que anunciaram que incluiriam os atletas olímpicos no grupo de recebedores prioritários de vacinas.

Caplan disse que embora o foco quanto à pandemia venha sendo, corretamente, as consequências físicas do vírus letal, os efeitos colaterais adversos dos lockdowns prolongados sobre a psique não vêm recebendo a atenção necessária. Ele disse que o esporte, nesse sentido, oferece uma distração saudável.

“Talvez devêssemos fazer o que precisamos para tornar possível que eles nos entretenham, a fim de nos ajudarem a suportar as circunstâncias difíceis criadas pelo isolamento”, ele disse.

Dick Pound, do Canadá, um membro poderoso do COI, sugeriu no mês passado que “usar de 300 a 400 vacinas, entre os milhões de doses disponíveis”, para vacinar os atletas olímpicos canadenses não seria motivo para grandes protestos do público.

Mas muitos políticos, dirigentes esportivos, atletas e cidadãos comuns –milhões dos quais estão ansiosos por receber a vacina o mais rápido possível– discordam dessa visão. E assim o debate, de certa forma, opõe aqueles que propõem uma interpretação rígida das regras de moralidade bioética àqueles que pedem por exceções adotadas em nome do bom senso, em um período extraordinário. Afinal, a Olimpíada vai unir representantes de mais de 200 países, e enviá-los de volta a cada canto do planeta depois de diversas semanas de competição.

Em uma entrevista, Evan Dunfee, esportista canadense da marcha olímpica, criticou Pound por sugerir que os atletas de seu país deveriam receber prioridade na vacinação; em sua opinião, eles, pelo contrário, deveriam servir de exemplo moral para uma sociedade.

Essa vem sendo a posição oficial em países como os Estados Unidos, o Reino Unido e e Itália, para citar apenas alguns exemplos.

“Os atletas dos Estados Unidos concordam em que devem esperar pela sua vez na fila de vacinação”, disse Bree Schaaf, antiga atleta olímpica e hoje presidente do conselho consultivo de atletas na equipe olímpica norte-americana.

Mas a recusa de furar a fila não impediu esforços das autoridades para acelerar a vacinação de seus atletas, dentro das regras.

Quando Sarah Hirshland, presidente-executivo da Comitê Olímpico e Paralímpico do Estados Unidos, se reuniu com representantes do governo de seu país este mês, ela declarou que a organização respeitaria as regras nacionais de saúde pública, mas ainda assim mencionou um cenário otimista sob o qual os atletas poderiam ser vacinados antes das seletivas olímpicas americanas, que acontecem na metade de junho.

De forma semelhante, Michael Schirp, porta-voz da equipe olímpica alemã, apontou que a comunicação entre as organizações esportivas e as autoridades requeria delicadeza, e articular ao mesmo tempo um desejo de respeitar as regras que se aplicam a todos os demais e a urgência que os dirigentes sentem, com a olimpíada a poucos meses de distância.

“Estamos dizendo que, embora não tenhamos vontade de furar a fila, ficaríamos satisfeitos se nossos atletas fossem vacinados o mais rápido possível”, disse Schirp. “Assim, tentamos sinalizar, mas não queremos que esse sinal seja visto como cobiçoso.”

Uma pesquisa entre atletas olímpicos alemães este ano iluminou a dinâmica complicada da situação: 73% dos entrevistados disseram concordar com o protocolo atual de vacinação, que não lhes confere tratamento especial. Mas quando perguntados se deveriam receber prioridade caso a vacinação fosse requisito obrigatório para a olimpíada, 70% dos atletas responderam que sim.

O COI indicou, até o momento, que vacinação não será pré-requisito para que qualquer pessoa participe da Olimpíada de Tóquio.

Contraste essa posição com a do México, onde os casos de coronavírus estão disparando e o acesso a vacinas continua baixo. Este mês, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador decidiu incluir os atletas olímpicos em um grupo prioritário, em companhia dos trabalhadores da saúde e dos professores, garantindo que recebam as duas doses da vacina em tempo para os jogos. A declaração dele não causou grande alvoroço.

Os atletas olímpicos da Lituânia mal tiveram tempo de se angustiar com o problema, igualmente. O Ministério do Esporte do país colocou todos os atletas, comissões técnicas e pessoal médico potencialmente envolvido na equipe olímpica em uma lista nacional de prioridade, e essas pessoas começaram a ser vacinadas no dia 11 de fevereiro.

Observando esse fato, muitos atletas e dirigentes apontaram que as normas de vacinação podem influenciar os resultados das competições. Em um ano no qual todos os atletas com potencial olímpico tiveram suas rotinas de treinamento fortemente prejudicadas, a capacidade de se preparar para os Jogos sem ter de lidar com o medo de contágio pelo coronavírus pode favorecer alguns dos competidores.

No mês passado, depois que o comitê olímpico da Bélgica solicitou 500 doses de vacina ao governo, Johan Bellemans, o médico da equipe olímpica do país, disse à rede nacional de TV belga Sporza que os atletas sofriam maior risco de contágio por conta de suas agendas de viagens e que o número de esportistas apanhados como portadores de coronavírus era superior à média da população do país.

E ele disse que “obviamente não desejamos que nossos atletas sofram desvantagem competitiva”.

Enfermeira prepara aplicação de vacina contra a Covid-19 em Tóquio, sede dos Jogos Olímpicos
Enfermeira prepara aplicação de vacina contra a Covid-19 em Tóquio, sede dos Jogos Olímpicos - Behrouz Mehri - 17.fev.21/Xinhua

Tudo isso criou um dilema para o COI e para os organizadores da Olimpíada de Tóquio. Quando os atletas chegarem ao Japão, em julho, estarão ingressando em um país que não estará nem perto da imunidade de rebanho. O Japão só começou a vacinar os trabalhadores de seu setor de saúde na metade de fevereiro e não planeja começar a vacinar os moradores mais velhos até a metade de abril. Taro Kono, o ministro japonês encarregado de lançar a campanha nacional de vacinação, afirmou recentemente que os Jogos “não constam da minha agenda, de forma alguma”.

Receber milhares de pessoas não vacinadas, de centenas de países, está longe de ser ideal. Mas que os atletas de todo o mundo sejam vistos como furadores da fila para receber a vacina prejudicaria a imagem de uma Olimpíada que já está enfronhada em atrasos, estouros de custo e que enfrenta insatisfação da parte do público do país organizador.

A resposta das autoridades olímpicas e dos organizadores locais foi delegar a responsabilidade aos governos e aos comitês olímpicos dos países que participarão, encorajando-os a encontrar maneiras de vacinar seus atletas e comissões técnicas, mas declarando publicamente que os protocolos nacionais devem ser respeitados.

Giovanni Malagò, presidente do comitê olímpico italiano, disse ao jornal La Reppublica que ele sabia que seus colegas em outros países estavam solicitando vacinas para os atletas.

“Jamais vou pedir o mesmo. E não queremos prioridade nas vacinas, de qualquer jeito”, ele disse.

Pode ser que ela não seja necessária. Muitos dos atletas olímpicos italianos –o país espera enviar cerca de 300 deles ao Japão– podem receber suas vacinas em breve, de qualquer modo. Um porta-voz do comitê olímpico disse que cerca de 60% dos potenciais integrantes da equipe italiana pertenciam a clubes esportivos associados às forças armadas do país, o que automaticamente os coloca na lista de prioridade de vacinação.

“Sei que existem muitos atletas que, por trás de portas fechadas, sentem que seria justo eles terem prioridade”, disse Dunfee, do Canadá. “Mas a opinião pública é tão veementemente contrária a esse tipo de coisa que ninguém será convencido e nenhum atleta que admitir esse ponto de vista será beneficiado.”

Tradução de Paulo Migliacci

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