Descrição de chapéu Campeonato Paulista 2021

Sob desgaste, FPF propõe regras mais rígidas para retomar Campeonato Paulista

Após nova reunião com clubes, federação tentará convencer Ministério Público a mudar posição

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São Paulo e Santos

Uma reunião entre a Federação Paulista de Futebol (FPF) e os clubes do Campeonato Paulista nesta segunda-feira (29) definiu que os cartolas irão novamente ao Ministério Público de São Paulo para defender a continuidade do torneio em meio à fase emergencial do plano de combate à pandemia estabelecido pelo governo estadual.

Foi o Ministério Público que, ainda na primeira metade de março, recomendou ao governo João Doria (PSDB) a paralisação das atividades esportivas durante esse período. Na última sexta-feira (26), houve prorrogação da fase emergencial até o dia 11 de abril.

A FPF fará alterações em seu protocolo sanitário e vai propor a criação de regras mais rígidas para a realização dos jogos, além de diminuir o número de profissionais nas partidas. As mudanças vêm sendo alinhadas desde sexta (26).

"O modelo prevê a organização de ambientes controlados, em que os clubes ficarão isolados em centros de treinamento ou hotéis, se deslocando apenas para os jogos", diz o documento, que cita maior frequência de testagens (intervalo máximo de três dias), redução de efetivo de pessoas nos jogos (sem especificar números), entre outras medidas de controle.

As novas diretrizes preveem também que as delegações serão testadas 24 horas antes de entrarem nesses ambientes. Ainda que o documento fale em "bolha like", a concentração não será total. Colaboradores poderão se deslocar até suas casas —nesse caso, estão previstas testagens diárias.

O clube mandante deverá informar à FPF a situação hospitalar e a disponibilidade de leitos de UTI em sua cidade. Não está claro como essas informações serão usadas.

A reunião desta segunda durou cerca de três horas e serviu para a federação e seu comitê médico apresentarem aos dirigentes as novas propostas, que já estavam alinhadas com os médicos dos clubes.

O encontro com o Ministério Público deverá acontecer ainda nesta segunda, e a intenção é que o campeonato seja retomado no máximo até 11 de abril. Assim, a FPF espera manter o fim do torneio no dia 23 de maio, como prevê o calendário inicial. O Brasileiro começa no fim de semana seguinte.

Segundo reportagem da Agência Fapesp nesta segunda, um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que a incidência de infecção pelo coronavírus entre jogadores que disputaram torneios da FPF durante a temporada de 2020 foi de 11,7%. O índice seria o equivalente ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à Covid-19.

Quase 30 mil testes de RT-PCR, aplicados em 4.269 atletas ao longo de oito torneios da federação, foram analisados. Ao todo, 501 exames confirmaram a presença do vírus.

A briga contra a suspensão do esporte em São Paulo tem deixado fissuras nos bastidores do futebol paulista.

Desde que a medida foi adotada, no meio de março, os dirigentes têm tentado reverter a decisão de João Doria, que acatou o pedido do Ministério Público, em um processo desgastante entre as partes.

O ponto mais crítico de tensão se deu no último dia 18, na reunião em que a federação colocou em votação com os dirigentes dos clubes da Série A1 a decisão de ir ou não à Justiça contra as medidas estaduais e conseguir autorização para realizar as partidas do Campeonato Paulista no estado.

O encontro marcou uma divisão entre os clubes, com 8 votos a favor da judicialização e 8 contrários, o que deixou o presidente da federação, Reinaldo Carneiro Bastos, em situação delicada. A Ferroviária, clube de Araraquara, mudou seu voto favorável para contra, resolvendo o embate em 9 a 7 e evitando que Bastos desse o voto de Minerva.

O vazamento desse placar irritou a federação. Isso porque o acordo até então previa que todas as decisões tomadas nos encontros seriam bancadas coletivamente, sem individualização do assunto.

Desde então, presidentes e representantes dos clubes redobraram a cautela sobre suas posições, mesmo aquelas informais. Pessoas presentes nas reuniões recentes da entidade afirmam que o clima ficou mais tenso após a divulgação dos votos.

O entendimento da federação e dos dirigentes segue o mesmo, de que os protocolos adotados anteriormente garantem a segurança na realização das partidas e que o Ministério Público e o governo paulista, que outrora aprovaram esse mesmo protocolo, agora se contradizem ao proibir o esporte no estado.

Também há a avaliação entre alguns de que está cada vez mais desgastante para a imagem do futebol paulista a defesa, por diversos meios, da realização das partidas, mesmo que haja segurança. O entendimento é de que a opinião pública tem visto a movimentação com maus olhos em meio à escalada de mortes no país.

Os próprios presidentes têm sido mais arredios à ideia de conversar com jornalistas desde a votação sobre a judicialização.

Algumas mudanças concretas foram tomadas. Por exemplo, para a reunião do dia 22 de março, o presidente do Red Bull Bragantino, Marco Abi Chedid, não foi convocado. No seu lugar, foi chamado Thiago Scuro, CEO do clube-empresa.

A hipótese de ir à Justiça perdeu força neste momento, segundo relatos ouvidos pela reportagem sobre a reunião desta segunda.

“Não houve animosidade. A decisão da votação foi respeitada, não falei com o Reinaldo [Carneiro Bastos] depois. Não quero criar problema. Acho que temos que achar alternativas, um protocolo alinhado com o MP e o estado”, disse Chedid à Folha.

“Foi tudo claro e objetivo, a votação [de judicialização] não passou. Precisa haver um diálogo em respeito às pessoas que morreram, respeito a isso, temos que entender que é um momento difícil do país”, completou.

"Nós estamos trabalhando em união, sempre conversamos em off entre os presidente e nos comunicamos. Não houve nenhuma animosidade. A relação é harmônica, respeitamos as opiniões, mesmo as contrárias. A união agora é primordial para o campeonato. É consenso que há necessidade de terminar, cumprindo os contratos legais que temos", afirmou o presidente do Mirassol, Edson Ermenegildo.

Antes, o presidente do Santos, Andres Rueda, sofrera pressão. Minutos após a publicação de uma entrevista à Folha em que ele defendeu a paralisação do futebol (quando a atividade ainda não estava suspensa), o clube recebeu uma ligação de Bastos. À época, a FPF disse que mantinha diálogo constante com todos os dirigentes.

A reportagem procurou o Ministério Público, que não confirmou até a publicação deste texto a realização de uma nova reunião nesta segunda.

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