Sou estrategista do futebol, diz técnico português mais antigo no Brasil

Luis Miguel está no país desde 2006 e fez carreira em clubes do Norte e Nordeste

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São Paulo

As primeiras viagens ao Brasil foram para visitar o irmão, funcionário de uma multinacional farmacêutica no início do século. Luis Miguel Gouveia era treinador nas categorias de base em Portugal e tentava manter viva a ligação do futebol. Sua carreira como goleiro havia sido encerrada aos 24 anos após duas cirurgias nos joelhos.

As passagens pelo Rio de Janeiro começaram a ficar mais comuns e prolongadas. Ele fez amizades, conversava sobre futebol e participou de trabalho em projeto social em Padre Miguel, na zona oeste da capital fluminense.

Luis Miguel Gouveia de Oliveira em sua passagem em Cascavel, interior do Paraná
Luis Miguel Gouveia de Oliveira em sua passagem em Cascavel, interior do Paraná - Reprodução/Esporte Espetacular

Em 2006, apareceu o convite para comandar o time principal do Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. Se Jorge Jesus e Abel Ferreira fizeram os técnicos portugueses se tornarem moda no Brasil, nenhum deles conhece tão bem o país quanto Luis Miguel, 49.

Ele é o treinador lusitano há mais tempo em atividade no futebol brasileiro. São 15 anos consecutivos.

"Não parei mais. Em cada 12 meses, trabalho 10 em média. Quando acaba o estadual, vou para uma equipe de Série D [do Nacional]", afirma.

São 24 times diferentes (alguns deles mais de uma vez), em dez estados, quase sempre no Norte e Nordeste. O técnico português passou a estar ligado ao Brasil de maneira familiar. Bianca, 14, é sua filha pernambucana que hoje vive na Noruega. Em Fortaleza, conheceu a paraense Shirley, com quem começou relacionamento em 2009 e se casou em 2013.

O início foi difícil. Os jogadores não compreendiam seu sotaque português. Ele tinha de dar a mesma instrução mais de uma vez. Luis Miguel às vezes encontrava problemas com a pronúncia nordestina ou nortista. Não foi preciso muito tempo para se entenderem.

"Nunca sofri preconceito, mas havia estranhamento por causa da metodologia. As pessoas viam como algo exótico um treinador português no Brasil, principalmente no interior do Nordeste. Acabavam por fazer muitas perguntas sobre o motivo para eu estar ali. Fui muito bem recebido", completa.

A filosofia de trabalho precisou também de compreensão mútua e mente aberta. Um dos exemplos foi quando implantou nos clubes o treino de manhã quando a partida seria horas depois, à noite.

"Os jogadores acharam aquilo muito diferente, mas era algo comum em Portugal. Era preciso pelo menos dar uma caminhada para não ficar o dia todo deitado na cama", explica.

Luis Miguel logo também aprendeu uma lição. A primeira vez que colocou essa ideia em prática foi em jogo no interior da Paraíba.

"Eu tive de me adaptar porque é difícil querer que os atletas façam caminhada no interior da Paraíba em um calor de 35 graus."

Ele não demorou a entender as características particulares do futebol brasileiro e se acostumou a elas. Como o calendário estafante, as dificuldades do futebol do interior e os meses que podem ter 90 dias na hora de receber os pagamentos. "Já passei por tudo isso", constata.

"Acho que tenho condições de estar em um time da Série B [do Brasileiro]. Só preciso da chance. Eu sou um estrategista do futebol", acredita.

A falta de modéstia, que ele vê como confiança em si mesmo, vem da constatação de que inovações táticas cada vez mais usadas no país já eram adotadas por suas equipes na década passada.

"Marcar alto o tempo todo. Perdeu a bola, tem de roubá-la no campo de ataque... Faço isso há dez anos. Não tem muita novidade."

A parte estratégica vem de não ter uma filosofia de jogo imóvel, que serve para qualquer situação. Uma crítica que foi feita ao trabalho de Fernando Diniz no São Paulo, por exemplo. No interior do Norte e do Nordeste, o treinador português tem de ser, antes de tudo, um forte, para parafrasear a frase criada por Euclides da Cunha em "Os Sertões" para se referir aos sertanejos.

"A estratégia depende do material humano e do adversário. Eu gosto do time que tem a bola e pressiona o adversário. Mas a outra equipe pode ter qualidade, conseguir quebrar as linhas [de marcação] e me complicar. Então, tem de recuar e roubar a bola no meio-campo. Cada jogo é uma estratégia. O importante é ganhar, sempre."

Luis Miguel começou a observar com interesse as chegadas de técnicos portugueses em grandes clubes no Brasil. Paulo Bento durou apenas 17 jogos no Cruzeiro em 2016. Jesualdo Ferreira foi demitido pelo Santos no ano passado no meio da pandemia da Covid-19. Sá Pinto teve o mesmo fim após 15 partidas no Vasco em 2020 e o time acabou rebaixado.

Mas os dois últimos treinadores campeões da Libertadores vieram do país. Jorge Jesus conquistou o título pelo Flamengo em 2019, e Abel Ferreira pelo Palmeiras, na temporada passada. Jesus também venceu o Brasileiro e Abel, a Copa do Brasil.

Outros profissionais do país europeu, como Carlos Carvalhal, Marco Silva, Leonardo Jardim e André Villas-Boas estiveram cotados em clubes da Série A.

"É preciso saber escolher o clube. Não é porque o profissional é português que é bom. Sá Pinto veio e não teve sucesso, mas não foi culpa dele. Era a equipe. O Vasco tinha muitos problemas. O Abel soube escolher, e os times dele sempre tiveram muita qualidade de jogo", avalia.

Se a onda portuguesa continuar, Luis Miguel tem uma visão pragmática. Por que uma boa oportunidade não pode aparecer para ele, que conhece tão bem o futebol brasileiro? É visão pragmática que se encaixa no estilo do treinador capaz de variar a estratégia de uma hora para a outra.

"Eu não tenho empresário. As coisas são mais difíceis por causa disso. O aumento do número de treinadores portugueses não muda tanto para mim porque já tenho meu nome estabelecido. Mas pode sim, abrir portas em outros mercados."

Se nada melhor surgir, ele deverá ser o treinador do Itapipoca na segunda divisão do Campeonato Cearense.

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