Aos 8, era chamado de 'macaco' em campo, diz brasileiro que denunciou racismo na Austrália

Héritier Lumumba motivou investigação no maior time de futebol australiano do país

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São Paulo

Antes de responder à primeira pergunta, Héritier Lumumba, 34, inverte o jogo e questiona o repórter sobre sua própria experiência com racismo. Ter um profissional negro envolvido na condução da entrevista foi condição para que o ex-jogador de futebol australiano (esporte mais popular no país) aceitasse contar sua história.

Lumumba justifica o requisito ao lembrar sua primeira experiência com jornalistas, na Austrália, em 2005. Diz que a matéria sobre sua chegada ao clube Collingwood começava afirmando que ele poderia estar pedindo dinheiro nas favelas do Rio de Janeiro, mas tinha conseguido chegar ao principal time da modalidade.

“No Brasil, que tem mais da metade de negros na população, eu não vejo 50% na mídia. Isso é ridículo. Como eu vou contar [minha história] sem envolvimento de um jornalista negro, tá maluco? Não é certo. É normal, mas não é certo”, diz o ex-jogador à Folha em conversa por videoconferência.

Ele nasceu no Rio, filho de mãe manauara. Seu pai, congolês, a conheceu no Brasil quando fugia da guerra em Angola (país onde vivia). Quando conseguiu exílio na Austrália pela ONU, a esposa, Lumumba e o irmão o acompanharam e foram viver na Oceania.

O ex-jogador conta que, por lá, mesmo quando vivia próximo à comunidade brasileira, era difícil ver negros. No último censo australiano, nem sequer há separação étnica, apenas por ancestralidade (país de origem dos pais).

A mídia local foi protagonista de um dos momentos mais duros na carreira do jogador, em 2013. Já considerado craque no esporte no qual se destacava pela ginga —atributo que, segundo ele, é uma das vantagens dos afrodescendentes em comparação com os australianos ou brancos—, ele viu o então presidente do Collingwood, Eddie McGuire, fazer uma piada com os aborígenes e o filme King Kong. Foi quando decidiu responder-lhe publicamente, nas redes sociais.

“A instituição passou a usar o seu poder para me atacar. Eles fizeram de tudo para me silenciar, criaram uma narrativa de que eu tinha doença mental”, lembra.

Naquele momento, ele já era um dos principais jogadores do time. Venceu a Premiership (o campeonato da elite do futebol australiano) em 2010, quando também foi escolhido para o “All Star”, o time das estrelas da temporada.

Lumumba descreve que nada disso impediu que ele sofresse com os três pilares da indústria esportiva: o clube, a mídia e os fãs. Não recebeu apoio de quase nenhum companheiro. Acabou mudando de clube em 2014, após 199 jogos e 28 gols. Foi para o Melbourne, e precisou encerrar a carreira precocemente em 2017, em razão de duas concussões (lesões cerebrais temporárias).

Sua história parecia mais uma entre muitas fadadas ao silenciamento em um país majoritariamente branco, mas seu nome voltou aos holofotes em 2020, em meio aos protestos pelas vidas negras dos quais participou em South Los Angeles, onde vive atualmente com a mulher, Aja, e o filho de quase dois anos, Yala.

Ao ver os clubes da Liga de Futebol Australiano (AFL, em inglês) fazendo postagens em apoio aos protestos do Black Lives Matter, mobilizou a força que pôde nas redes sociais para relembrar seu caso.

“O jogo virou”, diz. Ele se tornou o pivô de uma crise no esporte australiano, levou à abertura de uma investigação independente no Collingwood que concluiu, no final do ano passado, que havia racismo sistêmico dentro do clube, causando a renúncia de McGuire.

A discriminação racial, porém, não se restringia ao presidente. Apelidos como “macaco” e “negro sujo”, por exemplo, vinham de todo lugar, dentro e fora do clube. E durante toda a sua trajetória.

“Quando eu tinha oito anos, oito anos, meu irmão...”, começa ele, antes de parar, e chorar. “Colocaram dois brancos para me marcar, me bater, me chamar de macaco, durante o jogo todo. Eu saí do campo e falei que nunca mais ia jogar. Isso foi só o começo da minha jornada com o racismo dentro do esporte”, relata.

“Imagina um técnico adulto falando para uma criança ‘você tem que fazer isso para essa pessoa, que nem é uma pessoa, é menos que um ser humano’. Então eu aprendi bem rápido, você perde sua inocência”, completa.

A infância é um período que Lumumba reserva maior privacidade. Diz que viveu em conjuntos habitacionais, cidades isoladas onde praticamente não havia negros, teve pai ausente. Na escola, seu nome foi alterado de Héritier para Harry, pois os australianos (inclusive os professores) achavam mais fácil pronunciar —aliás, foi com este nome que jogou por boa parte da carreira.

Morando do outro lado do mundo, nunca se afastou do Brasil. Até hoje carrega um sotaque carioca, o qual diz reforçar sua identidade cultural. Lembra do pênalti perdido por Baggio, na final da Copa de 1994, jogo que acordou às 4h para ver.

Passou férias diversas vezes onde nasceu, na zona norte do Rio. Também viajou para países da diáspora africana, como Jamaica e Cuba. As experiências de discriminação e de violência policial que viveu e presenciou dão a ele a certeza de que o racismo muda de forma, mas está no mundo inteiro, é estrutural.

Após encerrar a carreira, sentiu que precisava deixar a Austrália. Partiu para a Bahia. “Eu tinha que começar minha jornada de recuperação espiritual. Tudo que passei foi muito pesado, não tinha como eu ficar lá com todos os meus traumas.”

A espiritualidade sempre esteve presente na vida de Lumumba. Sua mãe integrava o histórico Jongo Bassam, comunidade de resistência da cultura africana na Serrinha (Rio de Janeiro). Mesmo na Austrália, criou rodas de samba. Quando viveu uma época em São Paulo, frequentava o quilombo Aparelha Luzia, da deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL). Há três anos, foi iniciado no candomblé —é filho de Oxóssi.

Diz que constrói sua vida sob a ideia de “quilombar, construir seus próprios espaços onde você pode se proteger”. “Sem essa conexão, sem essa riqueza que eu tenho ganhado por meio da minha ligação principalmente com a africanidade brasileira, eu não estaria vivo”, diz.

Hoje, seu nome consta na página de jogadores históricos do Collingwood, e não como Harry, mas como Héritier Lumumba. Além de campeão, ele se considera também um vencedor.

“Minha história é única, mas é a continuação da nossa, como povo. Negros sempre tiveram que reinventar sua própria identidade, inovar usando as tradições culturais, as riquezas de nossos ancestrais. É raro ter jogadores que falam como eu? Para mim, foi uma questão de sobrevivência”, conclui.


Entenda o futebol australiano

É o esporte mais popular da Austrália, se assemelha ao rúgbi e ao futebol americano e sua criação remete ao século 19. É praticado em um campo oval, mesmo formato da bola, com dois times de 18 jogadores.

Apesar de ter muito contato físico, os atletas não usam proteções. Não é permitido arremessar a bola —passes são feitos ou com o pé, ou com soco/tapa. Para alcançar a bola no alto, um jogador pode usar o adversário como plataforma de impulso.

São permitidas corridas com a bola, desde que com quiques a cada 15 metros. Existem duas formas de pontuar. Um gol vale seis pontos e é marcado ao acertar a bola entre as duas traves, independente da altura; um "behind" vale um ponto e acontece de diversas formas: ou quando se acerta a trave do gol, ou quando se acerta o gol lateral, ou quando um jogador desvia a bola antes de ela entrar no gol.

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