Descrição de chapéu Coronavírus

Atletas, técnico e dirigente relembram os dias na UTI por causa da Covid

Bruno Schmidt, Antônio Tenório, Paulo Pelaipe e Rubinho viveram angústia com a doença

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São Paulo

Paralisado em parte de 2020 por causa da pandemia da Covid-19, o esporte profissional fez de tudo para voltar. Criou bolhas, protocolos, exames periódicos e eliminou a presença de torcedores. Isso não evitou que casos aparecessem em diferentes atividades, por vezes com gravidade, entre atletas, treinadores e dirigentes.

Com passagens como executivo ou diretor de futebol profissional por Grêmio, Corinthians, Vasco e Flamengo, entre outros clubes, Paulo Pelaipe, 70, pediu para falar com a família antes de ser intubado. Sabia que poderia não voltar a vê-los.

Técnico do Sesi Bauru na Superliga feminina de vôlei, Rubinho, 52, foi o caso mais grave nos 14 resultados positivos em uma bateria de exames feitos na equipe. Lutou para manter a calma durante procedimento que, se não desse certo, o levaria à intubação.

Campeão olímpico no vôlei de praia, Bruno Schmidt, 34, já vivia a expectativa pela Olimpíada de Tóquio quando pensou estar com pneumonia. Era Covid-19. Teve de cortar a preparação para o evento esportivo mais importante do mundo e passar 13 dias em uma UTI.

O judoca paraolímpico Antônio Tenório, 50, dono de seis medalhas em Jogos, chegou ao tratamento intensivo com 80% do pulmão comprometido.

Os quatro se recuperaram e contam, em depoimentos à Folha, os dias de temor e incerteza causados pelo vírus.

Foi difícil porque sempre tive confiança no meu vigor e na minha saúde

Bruno Schmidt, 34, atleta do vôlei de praia

Bruno Schimdt (à dir.), atleta olímpico brasileiro no vôlei de praia. ao lado do parceiro na modalidade, Evandro
Bruno Schimdt (à dir.), atleta olímpico brasileiro no vôlei de praia. ao lado do parceiro na modalidade, Evandro - Ana Patrícia-26.fev.19/Inovafoto/CBV

Eu estava na UTI, isolado, e o médico exibiu um cartaz pelo vidro. Dizia que as imagens mostravam uma melhora grande do pulmão. Foi neste momento em que voltei a ter confiança e percebi que os antibióticos faziam efeito.

Foram 13 dias muito difíceis. Cheguei ao hospital com muita febre. Nas primeiras 48 horas não tinha nenhuma força, mas os remédios fizeram efeito e já comecei a perguntar quando teria alta para continuar o tratamento em casa. Mas no quarto dia piorei muito. Não tinha vontade de sair da cama, estava muito cansado. Não tinha falta de ar, mas quando respirava mais fundo vinha uma tosse muito agressiva.

Naquela mesma noite me levaram para a UTI. Foi traumático. Você está isolado, não sabe se é noite ou é dia, com visitas restritas.

Foi difícil porque sempre tive confiança no meu condicionamento físico, no vigor, na minha saúde. Fui atleta a vida inteira. Sempre tive a preocupação de me alimentar bem, descansar bastante, ter bons treinos. E estava ali, correndo risco de morrer por causa de um vírus que deixa totalmente debilitado. Nunca havia pensado nisso. Do nada estar em uma UTI me pegou desprevenido e o medo foi bem grande.

Só fui pensar no esporte no final, quando me sentia melhor. Comecei a imaginar a fisioterapia e como fazer para recuperar a massa magra que perdi. Antes disso, só pensava na minha saúde, em querer estar com a minha família e não poder. O que vem na sua cabeça são as coisas que realmente importam. O vôlei de praia é a minha profissão e não é para sempre

Eu provavelmente fui infectado em aeroportos, mas é muito difícil saber quando e o local. Fiz testes PCR e deram negativo. Apenas uma tomografia constatou comprometimento do pulmão em mais de 30%.

Quando melhorei, os médicos fizeram uma reunião e resolveram estender os antibióticos por mais três dias. Você sente ansiedade, quer sair logo, mas eu logo me coloquei no meu lugar e entendi. Depois de tudo o que havia passado, ficar chateado por causa de mais três dias é brincadeira, né? Eu contei os dias até sair, mas acho que isso é natural diante de toda aquela situação.

No esporte, ser acometido por essa doença me deixa em situação de desvantagem, óbvio. Não sou idiota. Mas estou tranquilo. Minha recuperação está sendo muito bem feita, sem nenhuma sequela. Todos os exames afastaram risco de trombose, problemas cardíacos ou respiratórios. Isso me dá mais confiança para voltar aos treinos e chegar à competição no meu melhor estado possível. No momento, quero apenas ser o melhor atleta que puder.

Quando competir de novo, serão duas comemorações

Antônio Tenório, 50, judoca paraolímpico

Antônio Tenório, judoca paraolímpico brasileiro, com a medalha de prata nos Jogos do Rio-2016
Antônio Tenório, judoca paraolímpico brasileiro, com a medalha de prata nos Jogos do Rio-2016 - Carlos Garcia-10.set.16/Reuters
Eu estava na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em São José do Rio Preto (SP) quando a enfermeira disse que eu seria transferido. Fiquei assustado.

A partir dali foi tudo estranho. Chegou a ambulância do Samu. Eu estava sem fôlego. O médico disse para a enfermeira que não podia me levar porque eu não estava estabilizado. Fui colocado dentro da ambulância, mas a saturação mínima de oxigênio para transferir era 90% e não estava nesse nível. Quando dei entrada na UPA, estava com 73%.

Depois de dez minutos, me disseram que eu não seria mais transferido porque a vaga no hospital era para mulher, não para homem. Eu me alarmei porque não parecia verdade. Se tinha uma vaga para mim, mas desistiram, tinha algo errado.

Estava com celular e na hora chamei um diretor do Centro de Treinamento do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro). Expliquei que estava com Covid-19, em uma UPA, e precisava sair dali. Tenho convênio médico, mas é atendido apenas na capital paulista. O CPB conseguiu uma ambulância UTI e fui levado para o Hospital Yes, em Itapevi. Fui direto para a UTI. Estava com 80% do pulmão comprometido.

Eu tinha passado por período de treino no CT em novembro. No terceiro dia, comecei a sentir sintomas. Tinha muitas dores nas pernas. Logo depois, foi todo mundo dispensado. Cheguei em casa dizendo estar infectado. Comecei a tomar azitromicina [remédio sem ação comprovada contra a doença] e passei uma semana bem. No nono dia, fui tomar banho e não conseguia respirar debaixo do chuveiro.

Fiquei com medo de ser intubado. Comecei a usar máscara de oxigênio e um lado do meu pescoço inchou porque reteve o ar. Se em dois dias não melhorasse, teria de operar. Melhorou, graças a Deus. A Covid-19 também alterou os níveis de creatinina nos meus rins e agora tenho de fazer acompanhamento com nefrologista pelo resto da vida.

O sentimento de receber alta é de vitória, de ter nascido de novo. Foi a melhor sensação da minha vida. Teve gente que chegou ao hospital em situação melhor que a minha, mas não saiu. Enquanto eu estava na UTI, morreram três pessoas

O isolamento foi complicado por causa da minha deficiência [Tenório não enxerga]. Ainda bem que há tanta gente boa na área da saúde e fui muito bem tratado.

Eu pensei no judô porque é a minha vida. Mas minha prioridade era sobreviver. Lembrava que em 12 de maio sairá a convocação da seleção e no dia 22 terei de viajar à Turquia. Cheguei ao hospital com 108 kg. Na quarta (22), eu me pesei, com roupa. Deu 100 kg.

Acho que serei convocado e vou viajar. Quando competir de novo, serão duas comemorações: uma pela medalha e outra pela vida.

Quando soube que seria intubado, a reação foi de revolta

Paulo Pelaipe, 70, diretor de futebol do Botafogo-SP

Paulo Pelaipe, diretor de futebol do Botafogo-SP
Paulo Pelaipe, diretor de futebol do Botafogo-SP - José Bazzo/Agência Bazzo
Minha reação quando a médica disse que teria de me intubar foi de revolta. Não, eu não permitiria. Sabia o significado e soava para mim como uma sentença de morte. Estava assustado e com medo.

Ela tentou me acalmar. Explicou ser o necessário. Sem a intubação, eu não sobreviveria porque estava com 75% do pulmão comprometido. Pedi para fazer um telefonema. A assistente social fez a ligação e falei com a minha mulher. Informei o que estava por acontecer e falei para ela ficar calma, mesmo que eu não estivesse. Choramos juntos.

Pedi-lhe para ser forte e, se o pior acontecesse, que tomasse conta dos nossos dois filhos. Foi quase uma despedida. Conversei com o Rodrigo, nosso caçula, e tomei medidas práticas. Contei-lhe coisas que havia por fazer, investimentos que tínhamos, senha da conta, nome do gerente do banco. Era difícil, mas tinha de pensar nessas coisas.

O Rodrigo morava na Espanha e veio para o Brasil. O mais velho, Paulo, vive na Austrália e a mulher dele estava grávida de seis meses.

Não sei como fui infectado. Trabalhava no Coritiba e viajamos a Porto Alegre em outubro de 2020 para um jogo contra o Grêmio. Comecei a sentir frio. De madrugada, tive febre e chamei o médico. Ele me deu medicação para diminuir a temperatura e azitromicina para os pulmões. Na volta a Curitiba, meu teste deu positivo para Covid-19.

Fiquei isolado e me sentia bem. Na madrugada do quarto dia, acordei com falta de ar. O Jorginho era o técnico do time e morava dois andares acima. Pedi para ele me levar ao hospital.

Fiquei 18 dias intubado. Tive um sonho recorrente durante o coma. Estava sozinho em um quarto. No canto, havia um coração. Do lado deste, um anjo que vinha perto de mim e depois voltava. Vinha e voltava. Em uma das vezes em que se aproximou eu o olhei. O rosto era do Jorginho. Ele me disse para ter calma e fé porque havia muita gente rezando por mim. Tudo daria certo

Depois que acordei, não conseguia falar por causa da traqueostomia. Estava sozinho, deitado por horas e horas e sempre pedindo, lutando para sair daquela situação. Quando deixei a UTI fiquei mais dez dias no quarto. Eu não conseguia ficar de pé. Tinha perdido 20 quilos. Não possuía força nas pernas e nos braços. Hoje ainda tenho formigamento no braço direito e dores no pé esquerdo.

Quando recebi alta, o diretor do hospital, que foi presidente do Athletico, me disse que como eu era um homem do futebol, faria uma comparação esportiva. Eu perdia por 2 a 0, faltavam cinco minutos para terminar o jogo, mas consegui virar nos acréscimos.

Passei por dois estágios de ventilação, o seguinte seria intubar

Roberlei Leonardo, o Rubinho, 52, técnico do Sesi Bauru

Rubinho, técnico de vôlei do time feminino Sesi-Bauru
Rubinho, técnico de vôlei do time feminino Sesi-Bauru - Marcelo Ferrazoli-23.dez.20/SESI-SP
Eu sabia estar muito mal mesmo antes de os médicos dizerem que eu estava com 60% do pulmão comprometido. Fui informado que os quatro dias seguintes seriam cruciais. A sensação de desespero das pessoas em uma situação assim pode ser muito grande. Coloquei na cabeça que teria de me controlar.

Não sei se viver no mundo do esporte, acostumado com o estresse, ajudou, mas consegui ficar calmo. Disse para mim mesmo que eu estava nas mãos da ciência e, se fosse curado, seria por ela. Não havia nada a fazer.

Não é algo tranquilo, claro. Você pensa em muitas coisas. Eu passei por dois estágios da ventilação. Primeiro, colocaram um canudinho com oxigênio direto no nariz. Não foi suficiente e teve de ser trocado no segundo dia. Eu conseguia falar, mas não acabava as frases. Faltava fôlego. Usei outro, com tubo maior e que entrava muito mais fluxo. Deu certo. Se não desse, o passo seguinte seria a intubação. Quando é preciso reforçar o oxigênio, você sabe que está piorando.

A gente viajou muito pela Superliga feminina de vôlei no final de 2020. Por causa da Covid-19, o calendário ficou apertado. O Sesi Bauru teve seis ou sete partidas fora de casa. Em novembro fizemos um jogo em São José dos Pinhais, no Paraná. Na volta, tivemos 14 casos de Covid-19. Eu fui um deles e o mais grave. Eram muitas viagens, todo mundo no mesmo ônibus para ir ao aeroporto…

Eu me lembro que quando cheguei a Bauru depois dessa partida, estava arrebentado. Sentia-me muito mal. Todo mundo fez exames no sábado e na segunda saíram os resultados positivos. No dia seguinte fui a um epidemiologista. Dessa consulta, passei em casa para pegar algumas coisas e fui para o hospital ser internado.

Percebi que melhorava por causa da fome. Quando estava mal, não tinha vontade de comer nada. Quando via a refeição do hospital e tinha apetite, era muito bom.

Foram oito dias internado. É uma baita sensação ir embora porque, até ali, você sabe que está na corda bamba, à mercê de uma doença que não tem muito padrão definido. Já comecei a pensar no depois porque se perde muita massa muscular e as coisas mais simples o deixam cansado.

Na primeira vez que fui tentar fazer uma caminhada, consegui percorrer 500 metros e fiquei exausto. E eu estou acostumado a correr, já fiz maratona. Tive alta em 11 de dezembro e voltei a dirigir o time no dia 29. Quando entrei no ginásio, as jogadoras me aplaudiram. Foi bem legal. Hoje estou bem, mas tenho consciência que o meu tratamento foi dos sonhos, em hospital particular. Essa não é a realidade da maioria dos brasileiros

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