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Como um jornal de esportes revelou o maior escândalo de saúde pública da Romênia

Investigação de Catalin Tolontan que expôs corrupção é contada no documentário 'Collective'

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São Paulo

O leitor do jornal da Romênia especializado em esportes Gazeta Sporturilor foi surpreendido com uma notícia sobre desinfetantes adulterados em abril de 2016.

Os jornalistas Catalin Tolontan, Razvan Lutak e Mirela Neag publicaram (e dedicaram a capa inteira da versão impressa do jornal para) uma série de reportagens sobre um esquema de corrupção entre o governo romeno e a indústria farmacêutica do país. Produtos alterados causaram a morte, no hospital, de dezenas de vítimas do incêndio da boate Colectiv, em 2015.

A história levou à renúncia do ministro da Saúde, Patriciu Achimas-Cadariu, e é contada no documentário "Collective" (2019), de Alexander Nanau. A obra, com duas indicações ao Oscar, será exibida no domingo (18) pelo "É Tudo Verdade" —disponível no site do festival, gratuitamente, às 12h.

"A melhor investigação foi feita por um diário esportivo", grita um manifestante no filme.

"Não sei responder por que nós, jornalistas esportivos [fomos procurados pelas fontes]", brinca Tolontan, 52, em entrevista por videoconferência à Folha. "É mais fácil para você resistir à pressão do governo e das grandes farmacêuticas, porque nada nesse mundo pressiona tanto quanto os torcedores de futebol."

Com décadas de experiência cobrindo o esporte, o então editor do jornal chegou a viajar para o Rio durante a Olimpíada de 2016, em meio às investigações sanitárias. Foi quando revelou que o material esportivo comprado para a delegação romena era de segunda linha —escândalo que derrubou o presidente do comitê olímpico do país, Alin Petrache.

Ele defende que o jornalismo esportivo pode ter papel importante na crise sanitária da pandemia de Covid-19 e também em tempos de discurso de ódio amplificados por políticos como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Como o furo [jargão jornalístico para informação exclusiva] mais importante de uma crise histórica da saúde chegou a você? Não sei responder por que nós, jornalistas esportivos [fomos procurados]. Acho que vale para todos os jornalistas esportivos: somos treinados desde o primeiro dia a não agradar o público, porque é impossível agradar os fãs, como vocês sabem muito bem no Brasil. Se você escreve sobre um Fla-Flu, no próximo dia, torcedores do Fla, torcedores do Flu e também do Corinthians ficam chateados. E não só os torcedores, mas os jogadores, até o técnico às vezes.

É mais fácil para você resistir à pressão do governo e das grandes farmacêuticas, porque nada nesse mundo pressiona tanto quanto os torcedores de futebol.

Nós trabalhamos com investigações há mais de 25 anos e vimos até o capitão da seleção nacional, que era meu ídolo quando criança, Gheorghe Popescu [ex-Barcelona], acabar na cadeia. Ele foi preso após uma investigação nossa sobre lavagem de dinheiro em clubes. Com isso nós fomos ganhando a confiança do público, ano após ano. Depois do incêndio [da Colectiv], médicos e pessoas da empresa farmacêutica vieram até nós. Temos reputação de destemidos. Claro que é exagero, mas é a imagem do nosso trabalho.

Como foi o debate para colocar na capa de um jornal esportivo uma manchete de saúde pública? Na Romênia, o incêndio da Colectiv é um marco temporal. Toda a nossa sociedade está conectada de alguma forma com o caso, foi um luto em todo o país por esses jovens e pelos milhares de romenos que estavam indo a hospitais inseguros. Para mim, como jornalista, não importa se você é esportivo ou político, você é um jornalista de notícias em primeiro lugar. Toda grande investigação, no primeiro momento, é uma pequena notícia e um monte de curiosidade. Não estamos na posição de recusar a notícia só porque cobrimos principalmente esportes.

Você acredita que há separação entre o jornalismo esportivo e as outras áreas? É isso que o Collecitve significa para o jornalismo em todo o mundo. Não merecemos crédito por isso, o crédito é para o diretor e sua equipe. A questão do filme é sobre perseguir a responsabilidade do governo, isso é um trabalho de todos os jornalistas. Temos um ditado na Romênia que é: os jornalistas esportivos são responsáveis pelos cantos [em inglês, corners, mesma palavra para o escanteio do futebol]. Isso é uma grande vantagem para nós, porque quando fazíamos perguntas [às autoridades], não nos davam importância. Diziam “deixa para lá, eles não entendem de saúde pública, de medicina”. E a nossa resposta a isso foi: OK, não entendemos, então, como governantes de um estado democrático, por gentileza, expliquem para nós como se fossemos uma criança da quarta série. E eles ficavam chocados. Porque é bastante difícil explicar a corrupção com um linguajar simples.

No Brasil, há quem defenda um pensamento de que esporte e política não se misturam. É assim na Romênia? A primeira reação do público é: estou neste site esportivo, não para ver política, mas para ver esportes, para me distrair. E isso é também uma vantagem, porque o leitor fica menos cético quando lê a notícia vinda de um jornal esportivo. O público sabia que não éramos parciais, que trataríamos os partidos como os times.

Mas se temos boas informações, é nosso dever dar a eles. O L’Equipe, a Bíblia do jornalismo esportivo, fez uma reportagem sobre abuso sexual e o esporte foi apenas o ponto de início. O mesmo no doping. Falamos de esporte inicialmente, mas envolve medicina, crimes, ligações com a máfia às vezes, muito dinheiro. O esporte é apenas o topo do iceberg.

Qual o papel do jornalismo esportivo durante uma crise sanitária como a que vivemos hoje? É o mesmo dinheiro público que é gasto para construir estádios que para hospitais. Então o papel é apenas ir atrás dos fatos, ser muito preciso. E ser preciso é questão de vida ou morte na nossa profissão. Uma das primeiras lições do jornalismo esportivo é que se você errar, os torcedores…

Há benefício em ser um jornalista esportivo neste momento? Estive em seis edições de Jogos Olímpicos, centenas de jogos. E não sei se há qualquer especialidade jornalística que seja obrigada a terminar o artigo no momento em que o jogo termina; escrever em tempo real, contando o significado do jogo e não só os lances. Você é treinado para ser muito rápido, o que é uma grande vantagem para o público, no fim das contas.

Se tiver um protesto na cidade, também pode ser uma vantagem ter um jornalista esportivo lá, porque ele conhece a multidão, não vai ter medo dela mesmo se houver violência. Porque é o que fazemos o tempo todo, pessoas nos xingam pelo nosso trabalho há 30 anos, desde antes das redes sociais, nos estádios.

Com as redes sociais, notícias falsas e mensagens ofensivas têm, por vezes, mais audiência que os furos de reportagem. Como lidar com isso? Acho que essa é a questão principal, não apenas no jornalismo esportivo, nem só no jornalismo, mas nas nossas democracias. Se você for um profissional, de qualquer área, e não for forte o suficiente para resistir a agradar o público, você se perde. E se você tiver medo dos comentários do público, você está perdido. Claro, é muito difícil resistir, porque há muito discurso de ódio, comentários xenofóbicos, ultranacionalistas, desbalanceados, propaganda [política], pessoas pagas para o atacar. O jornalista não pode buscar a popularidade, mas os fatos. O público tem direito a ter opiniões, mas os fatos não são mutáveis. Os fatos são como os resultados dos jogos.

No filme, vocês debatem o comentário de um leitor que usa a palavra genocídio para caracterizar o que se passa na Romênia naquele momento. Por que vocês não vetaram o comentário? Para você, que conhece um pouco do governo Bolsonaro, seria correto usar essa palavra para se referir a ele? Em alguns momentos, se você usa a palavra genocídio como opinião, não é um veredito judicial, apenas uma opinião. E o público é livre para usar esse tipo de opinião. Mas falando sobre genocídio, discurso de ódio e populismo, nós conhecemos bem isso aqui na Romênia. Nosso último presidente [Traian Basescu] foi um populista de extrema direita.

Quando estive no Brasil para a Olimpíada, viajei para Petrópolis, porque o escritor Stefan Zweig se exilou e morreu lá em 1942. E ele usa “genocídio” da seguinte forma: a Europa se autodestrói por um espírito genocida que começa com o discurso de ódio, medo, decisões ruins e pessoas poderosas que não fazem nada contra os populistas. Faço essa comparação não apenas para o Brasil, mas para nós também. Vocês infelizmente tem quase um modelo moderno desse populista.

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