Excluído da Paraolimpíada, Andre Brasil teme apagamento de sua história

Nadador dono de 14 medalhas nos Jogos passou a ser considerado inapto após reclassificação

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Foram dois anos, mas para Andre Brasil pareceram 20. Desde 2019, o nadador paraolímpico brasileiro de 36 anos sofreu crises de ansiedade, depressão e teve de buscar ajuda médica. Tudo isso enquanto travava uma batalha jurídica para tentar voltar a competir no esporte ao qual se dedica desde os 11.

A Justiça alemã decidiu na última semana que ele não tem razão na sua demanda contra o Comitê Paralímpico Internacional (IPC, em inglês), sediado no país. A consequência disso não é apenas estar fora da Paraolimpíada de Tóquio, neste ano, mas ver sua carreira como nadador se aproximar do fim sem a despedida que imaginava.

"Eu tinha um planejamento de vida. Seriam meus últimos Jogos. Meu próprio corpo me mostrava isso. Fiz cirurgia no ombro em 2018 e tinha dificuldades. Mas era meu sonho: competir em mais um Pan-Americano e no meu sexto Mundial em 2019; tudo culminaria com minha última Paraolimpíada. As pessoas tiraram de mim a chance de escolher como parar", afirma.

Em abril de 2019, ele passou por um exame de reclassificação e foi considerado inelegível para a natação adaptada. Segundo o IPC, o comprometimento causado pela deficiência do brasileiro não justifica sua participação em qualquer nível do paradesporto.

Ele já havia se submetido a outros cinco processos parecidos durante a carreira e considerado apto em todos. Competia na classe S10, voltada para o menor grau de comprometimento (entenda no fim do texto como funciona a classificação da natação paraolímpica).

O nadador foi diagnosticado com poliomielite aos dois meses de idade, após uma reação vacinal. A sequela da doença foi uma deficiência na perna esquerda (ele perdeu sensibilidade e força no membro) que o obrigou a passar por sete cirurgias até os oito anos.

A natação, que começou por recomendação médica, fez com que ele se tornasse um dos maiores nomes do esporte paraolímpico. Nos nados borboleta, livre e costas, conquistou 14 medalhas nos Jogos, 32 em Mundiais e 21 em Parapans —nenhuma delas foi perdida após a desclassificação.

"Depois de tantos anos na natação, o único prejuízo que tenho no momento é envelhecer. A minha deficiência não mudou, é a mesma de antes. Mas agora o Comitê Paralímpico Internacional está determinando que eu não posso mais competir. Ser tirado da minha categoria é me excluir do esporte", diz.

De acordo com a entidade, um sistema de classificação revisado foi implantado em 2018 após extensa pesquisa e teve a concordância dos comitês nacionais para garantir a integridade das competições.

São feitas análises por meio de testes motores (dentro da água), de força muscular e mobilidade articular. No caso do brasileiro, foi considerado que, numa escala de 0 a 5, ele possui grau de força 3 na perna esquerda. O atleta entende que seu grau deveria ser 0.

Em 2019, o presidente do IPC, o também brasileiro Andrew Parsons, disse que ficava devastado pelo caso do nadador. "Se tem alguém que ajudou e apoiou o Andre Brasil a ser um S10 fui eu. Muitos sabem que ele me chamava de papai no início. Agora mudaram os testes, a forma como se avalia. Do ponto de vista pessoal, fico devastado, entristecido. Mas o Comitê Paralímpico Internacional tem uma governança muito sólida para que não facilite que haja um presidente absoluto."

Parsons comandou de 2009 a 2017 o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que deu total apoio ao nadador e criticou de forma veemente o órgão internacional no caso.

O caminho natural seria apelar à Corte Arbitral do Esporte (CAS), na Suíça, mas atletas paraolímpicos não podem fazê-lo por determinação do IPC.

A saída foi entrar com um processo judicial em Bonn, na Alemanha. Era sua última esperança de ir a Tóquio. Mas desde a semana passada, com a negativa, ele convive com uma pergunta na cabeça para a qual não encontra resposta. E agora?

"Eu quero saber isso. E agora? São dois anos de angústia. Dois anos de espera. Quem vê de fora não tem como julgar o que passei. Não tem conhecimento do esporte paraolímpico", afirma.

Andre Brasil desata a falar por vários minutos. Uma das suas principais queixas é de subjetividade na avaliação feita em 2019. De acordo com o atleta, trata-se de uma opinião baseada apenas na observação.

"Quando vai existir ciência, quando vai existir pesquisa? Quando vai existir algo que não seja o olho humano? Eles mudam a vida das pessoas baseados em uma opinião. Eu mudei minha vida por conta do esporte. Um ponto que colocaram de forma subjetiva me deixou fora desse mesmo esporte, me tirou objetivos, coisas com as quais sonhei a vida inteira. Eu construí uma história", declara em tom exaltado.

O atleta continua, contando os sacrifícios feitos pela natação e os movimentos físicos que recebeu recomendações médicas para evitar. Pedidos que ignorou para obter melhores resultados e lhe causaram seis hérnias na coluna.

Um dos motivos de maior indignação para o brasileiro foi ouvir que sua deficiência seria menor que a dos outros. Argumentos que ele já teve de rebater várias vezes no decorrer da vida e que são resultado, acredita, da falta de entendimento do público em geral do que é uma competição esportiva paraolímpica.

"Eu tenho vivenciado momentos complicados, mas meu lugar de falar chegou. Tenho mais tempo de vida na natação do que fora dela. Tive de aprender o que é ser deficiente. Abri mão de muitas coisas na vida para entrar de cabeça nisso [no esporte], até a vida me dar uma rasteira dessas."

Nas próximas semanas, Andre Brasil vai se reunir com seus advogados e integrantes do CPB para decidir o que fazer. Ele não gostaria de encerrar a carreira dessa maneira, mas, na situação atual, não sabe o que ainda será possível.

Está na inusitada situação de ser um atleta de ponta "fantasma". Não pode praticar o esporte para o qual dedicou toda adolescência e vida adulta e tem consciência de que não disputará em igualdade na natação tradicional.

Enquanto isso, continua a cumprir rotina de treinos no centro de treinamento do CPB, em São Paulo, para se manter em atividade. Ou ainda, para se manter vivo.

"Quero amadurecer algumas coisas na minha cabeça. Ainda preciso entender como tudo o que dei ao esporte tem sido apagado. O que se precisa entender é que não sou apenas eu. Outros atletas podem passar por isso porque alguém observou e decidiu que aquela não é mais sua categoria. O lema do esporte paraolímpico é ser para todos. Será que é mesmo?", questiona.

Critérios da Natação Paraolímpica

Quem compete

  • Pessoas com deficiências físico-motora, visual e intelectual

Classes

  • As classes sempre começam com a letra S (de swimming, natação em inglês)
    • S: estilos livre, costas e borboleta
    • SB: nado peito
    • SM: medley

Divisões

  • Dentro de cada categoria, há divisões de acordo com o comprometimento das funções. Quanto menor a classe, maior o comprometimento motor ou a deficiência
    • 1-10: nadadores com deficiências físicas
    • 11-13: deficiências visuais
    • 14: deficiências intelectuais
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.