Descrição de chapéu Liga dos Campeões 2020 - 2021

Fernandinho se inspira em Senna e lidera City por sonho da Champions

Contestado no Brasil e aclamado por Guardiola, meio-campista encara o Chelsea na final

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Caio Carrieri
Manchester

Primeiro brasileiro a erguer a taça de campeão da Premier League como capitão, no último domingo (23), Fernandinho, 36, tem a chance de, no próximo sábado (29), protagonizar também no cenário europeu o feito inédito para o Brasil.

Dono da braçadeira do Manchester City, o meio-campista liderará o time na final inglesa da Liga dos Campeões contra o Chelsea, no Estádio do Dragão, no Porto, às 16h (TNT).

Há oito anos em Manchester, Fernandinho é tetracampeão inglês e agora busca o primeiro título do clube no maior torneio da Europa, principal objetivo do xeque Mansour Bin Zayed al Nayan, bilionário membro da família real dos Emirados Árabes que é proprietário do City desde 2008.

O brasileiro, homem de confiança de Pep Guardiola, ostenta status de grande ídolo da torcida. Internamente, conquistou o respeito e a admiração dos funcionários. Nesta temporada, foi escolhido capitão em eleição com votos de todo o estafe do departamento de futebol.

Em entrevista à Folha, ele conta como já utilizou Ayrton Senna em vídeos motivacionais para o elenco, qual é o principal aprendizado em cinco anos sob o comando de Guardiola e como lida com o fato de ter mais prestígio na Inglaterra do que no Brasil, onde é quase sempre associado às derrotas da seleção brasileira para a Alemanha (7 a 1) e para a Bélgica (2 a 1), nas Copas do Mundo de 2014 e 2018, respectivamente, e foi vítima de racismo.

O que significa para você a oportunidade de disputar a primeira final de Liga dos Campeões na sua carreira e na história do City? É uma satisfação muito grande, um prazer imenso poder jogar uma final de Liga dos Campeões para todos nós, não só para mim individualmente, mas para o clube em geral. Acredito que durante muito tempo a equipe buscou esse objetivo. É um momento especial, não tem como negar. O que nos resta agora é tentar nos preparar da melhor maneira possível e continuar fazendo o que demonstramos na competição, porque foi isso que nos trouxe até a final. Manter a tranquilidade, jogar bem, manter o nosso princípio de jogo, a nossa base, o nosso alicerce e tentar conquistar um título tão almejado por tantas pessoas e por tantos jogadores e clubes ao redor da Europa.

Na Inglaterra, o posto de capitão tem um significado ainda mais especial do que no Brasil. Você poderia explicar por quê? Em todos os anos, o Pep faz uma eleição interna para a escolha de quatro ou cinco capitães, de 1 a 5, e todas as pessoas que trabalham com o time profissional têm direito a voto. Neste ano eu fui o escolhido. Sem dúvida, foi um momento de orgulho e felicidade para mim, porque represento o clube em diferentes situações e de maneiras variadas. A figura do capitão aqui na Inglaterra é muito benquista, porque tem uma participação bem efetiva no dia a dia do clube, primeiramente com os jogadores no vestiário, mas também em outras situações que acontecem no centro de treinamento, como em decisões que precisam ser tomadas. Obviamente que em um clube de futebol você precisa ter o maior número de opiniões para chegar à melhor conclusão possível.

No meu entendimento, eu procuro sempre estar focado no que acontece dentro de campo, principalmente na relação com os outros jogadores e com a comissão técnica. No final das contas, o carro-chefe de um clube de futebol são o vestiário, os jogadores e dependemos muito de nós para que o sucesso seja alcançado.

Até onde vai a sua influência? Você poderia dar um exemplo de algo que você teve de fazer por ser o dono da braçadeira? Para falar bem a verdade, são vários assuntos. Como estou no vestiário todos os dias, algumas pessoas precisam comunicar jogadores de algum assunto e usam a minha figura para isso, seja na parte de nutrição, fisiologia, departamento de análise. Se tiver uma situação mais delicada, passamos só o que é o necessário para o jogador. Em contrapartida, se o jogador precisa de alguma coisa, também fazemos esse meio de campo. A parte das multas por causa de atraso acabou sendo criada por nós, se o camarada não se pesar todos os dias tem uma questão punitiva. No final das contas, o seu comportamento diário faz diferença e reflete em treinos e jogos. Até chegar aos resultados, existe um processo trabalhado ao longo do caminho.

Mesmo antes de assumir o posto, quando você sentiu que a sua liderança tinha impacto no vestiário? A questão da liderança acaba sendo uma questão muito natural. Talvez uma simples conversa ou uma atitude gera essa questão da liderança. A palavra do capitão acaba sendo a última, mas a troca de opiniões por um bem maior é muito favorável. Sempre tive essa capacidade de dialogar com as pessoas na tentativa de organizar a parte interna para termos bom rendimento nas partidas. Esse ano essa responsabilidade aumentou, porque mesmo com ótimo relacionamento com os outros quatro capitães [De Bruyne, Sterling, Gundogan e Walker], agora tenho a última palavra após uma coleta muito grande de informações e opiniões.

Fernandinho exerce papel de líder no Manchester City - Phil Noble - 4.mai.21/Reuters

É verdade que certa vez você compilou imagens do Ayrton Senna e passou como vídeo motivacional para o elenco? Isso é verdade. Sendo um pouco mais velho do que o pessoal aqui, pude acompanhar a carreira do Ayrton Senna enquanto eu crescia no Brasil. Imagino que para 100% dos brasileiros ele foi um ícone do esporte para nós e um exemplo de superação. Muitas das pessoas que estão envolvidas no esporte têm nele um grande exemplo para superar as dificuldades. Sempre gostei de ver vídeos para saber um pouco mais da história pessoal dele.

O momento aconteceu na Liga dos Campeões [2017/18], após o primeiro jogo que jogamos fora de casa contra o Liverpool e perdemos por 3 a 0. Tínhamos a partida de volta, em casa, e pensei que eu precisaria tentar, de alguma forma, fazer os jogadores acreditarem que poderíamos superar aquela adversidade. Compartilhei no nosso grupo de WhatsApp um vídeo curto em que ele fala sobre fazer o melhor sempre, independentemente do status social, para a história acontecer da maneira que você espera. Acabou não acontecendo para nós, mas acredito que aquele momento ficou marcado para alguns jogadores.

Qual jogador mais se empolgou com o Senna? Rapaz, isso faz uns três anos, então não lembro muito bem. Recentemente, eu compartilhei alguma outra coisa do Ayrton Senna com o Gabriel [Jesus]. No começo do mês foi aniversário da morte dele, assisti a mais algumas coisas e compartilhei com o Gabriel, até porque o Gabriel não era nem nascido quando ele morreu. Acho bacana esse tipo de interação, seja pela troca de informação ou para ajudar a pessoa a se sentir melhor para exercer o seu trabalho no dia a dia.

A possibilidade de ser o primeiro brasileiro a erguer o troféu da Liga dos Campeões como capitão tem um significado especial para você? Tem, sim, porque é algo histórico. Seria um feito e, sem dúvida nenhuma, é algo que ficará eternizado. Mas antes disso existe a preparação para jogarmos bem, ganharmos o jogo e, aí sim, chegar nesse momento. Se isso acontecer, será maravilhoso.

Você nasceu líder ou aprendeu a ser líder? Não sei, em cada momento da sua vida você tem que exercer um certo tipo de liderança. Não sei se pelo contexto da minha vida, com a separação dos meus pais, eu vivendo com a minha mãe durante um tempo, tomando conta das minhas irmãs... Quando comecei a jogar, treinei com jogadores mais velhos durante muito tempo, o que me ajudou a aprender muita coisa de forma mais precoce. Acredito que é um dom que você pode aprimorar na vida e na carreira.

Ao longo da sua vida, quais as principais referências de liderança que você teve? Quando eu era mais jovem, no fim dos anos 1990, o acesso à informação era diferente, então as referências de liderança eram de pessoas mais presentes na minha vida. Eu tive a minha mãe e muitas pessoas ligadas ao futebol. Tem muita gente que não sabe, mas morei em Ribeirão Preto por um tempo, quatro anos, porque a família da minha mãe é de lá. A prefeitura promovia um campeonato com crianças carentes, e eu fui privilegiado de poder trabalhar com um ex-jogador do Comercial que se chamava Peter, um ex-zagueiro muito bem visto no clube nos anos 1960, conhecido como Pantera Negra. Era um momento transitório da minha vida, aos 10 anos, e bem conturbado, pós-separação dos meus pais. Eu não conseguia entender muito bem o que estava acontecendo, então ele foi uma figura paternal para mim. E mesmo naquela idade ele me colocava como capitão da equipe. Ele me dava carona e contava muitas histórias que viveu.

Depois, quando eu volto para Londrina, com estrutura mais avançada e com competições regionais para revelar jogador, tive a figura do coordenador, Ticão, que tomava conta do pessoal. A liderança dele era ríspida, mal-educada, mas ele tinha muita verdade, ele te colocava no seu lugar. Quando você queria voar acima dos outros, ele te puxava para baixo, pés no chão. Quando eu chego em Curitiba, aos 17 anos, a minha cabeça parecia de um cara mais velho. Os meus oito anos na Ucrânia convivendo com [o técnico Mircea] Lucescu também foram fundamentais.

Com duas finais e um título, o Chelsea tem mais tradição do que o City na Liga dos Campeões. Isso pesa? Eu não sei, espero que não. O clube tem duas finais, mas esse time atual não jogou nenhuma final desse nível. Queremos que esse retrospecto histórico não faça diferença, e que nosso time possa estar preparado para qualquer adversidade. O Chelsea é um time muito bem organizado, com excelentes jogadores. O esquema é muito bem montado pelo seu treinador e muito bem executado pelos atletas.

Fernandinho marca Neymar, do PSG, na semifinal da Liga dos Campeões - Paul Ellis - 4.mai.21/AFP

Durante todos esses anos trabalhando com o Guardiola, ele já te encheu de diversos elogios, tanto pela postura profissional quanto pela conduta pessoal. Qual aprendizado mais te marcou? Nesse convívio, o que mais me marcou foi a perseverança para acreditar no processo, naquilo que você acredita, naquilo que você foi ensinado, naquilo que você trabalhou e deu certo. E ele passa para uma nova geração tudo aquilo que ele aprendeu há 30 anos. No primeiro ano dele como treinador do City, tivemos muitas dificuldades, o time não foi bem, terminamos o campeonato inglês em terceiro lugar e eliminados da Champions. Mas o processo foi mantido. Tivemos uma troca de alguns jogadores, conseguimos conquistar dois títulos seguidos da Premier League, mas acabando colecionando eliminações na Liga dos Campeões. De novo, o processo foi mantido. Como na vida, o futebol é um processo muito dinâmico e você precisa de ajustes. A base permaneceu. E o relacionamento que tenho com ele sempre foi de respeito mútuo, admiração e trabalho duro, árduo [risos].

Você é um ídolo de um clube na maior liga do mundo, adorado pelo Guardiola e apontado como maior brasileiro da história da Premier League. No Brasil, porém, você ainda divide opiniões. Você concorda com essa leitura? Por que você acha que não tem o mesmo reconhecimento no próprio país? Em primeiro lugar, fico muito feliz por ser considerado por várias pessoas o melhor brasileiro que já passou pela Inglaterra. Mas eu não posso deixar de dizer que são opiniões. Respeito opiniões, mas não entro muito no mérito das questões. Cada pessoa tem o direito de opinar em qualquer assunto que seja, contanto que não falte com o respeito. Compreendo perfeitamente essa questão no Brasil, seja torcedor em geral ou membros da imprensa, por conta das eliminações que tivemos na Copa de 2014 e de 2018.

Respeito as opiniões e não tem muito o que fazer e dizer. Tenho que seguir a vida, tocar o barco, porque quando você é criticado você não vai para o inferno, e quando você é elogiado você não vai para o céu. Tem de manter os pés no chão pelo trabalho que tem a fazer. Muitas pessoas dependem do meu dia a dia, tanto na parte profissional quanto na parte fora de campo, com família e filhos que dependem da minha sanidade mental e física para se desenvolverem como pessoas. Penso muito dessa forma.

Depois da Copa de 2018, você foi vítima de ataques racistas. Você tomou algum tipo de medida nas redes sociais desde então? Sim. Fiz aquilo que eu podia, o que estava dentro do meu alcance. Na época o meu filho tinha sete anos e não tinha o entendimento que tem hoje. A minha mãe, irmã e esposa, pessoas com redes sociais e que, querendo ou não, se tornam pessoas públicas também foram ofendidas. Na minha rede social eu também fui muito ofendido. Da minha rede social, tirei os comentários [do Instagram]. Elas não fizeram isso e souberam superar o momento de maneira grandiosa. O que sempre pude falar para elas é que é uma coisa comum, acontece com vários jogadores, principalmente os que servem à seleção. Infelizmente isso é algo que vai acontecer sempre, porque envolve emoção.

Quem realmente assiste aos seus jogos no City entende o seu status na Inglaterra, não? Dá para entender as pessoas que falam isso ou aquilo. Por quê? A nossa vida é tão corrida, são tantos jogos... Uma pessoa que trabalha a semana inteira talvez não tenha a oportunidade de ver um jogo no meio de semana, principalmente quando é torneio europeu, e o horário é o meio da tarde [no Brasil]. Às vezes as pessoas assistem a um jogo no final de semana, mas é muito difícil alguém parar para ver as partidas nos quatro finais de semana de um mês.

Pelo alcance da final de sábado, uma boa atuação sua ou o título pode mudar muitas opiniões? Difícil, não sei. É complicado. O que as outras pessoas pensam é difícil de saber. Por ser a final da Liga dos Campeões, vai ser um espetáculo mundial e provavelmente muitas pessoas vão acompanhar. Mas obviamente eu não posso me basear nisso para tentar jogar bem para lutar pelo título. Já passei dessa fase. Quero ganhar esse título por mim, pela minha família e pelos meus companheiros. Só nós sabemos o quanto nós lutamos para chegar a esse momento.

Passando para a parte tática, é só coincidência que os dois finalistas atuam com três zagueiros ou você vê isso como tendência? Acho que existe uma diferença. Vamos pegar os últimos dois jogos que tivemos entre os times. Na semifinal da Copa da Inglaterra, jogamos com quatro defensores: Cancelo, Rúben, Ayme [Aymeric Laporte] e Mendy. E depois no jogo da Premier League, em casa, atuamos com três defensores: Laporte, Rúben e Nathan Ake. Mesmo quando jogamos com quatro defensores, a construção de jogo é feita por três jogadores, dependendo muito da forma defensiva do adversário e quantos vão fazer a pressão alta. É uma questão muito mais de superioridade numérica. E quando entramos com três zagueiros é para que nosso time chegasse a tempo às bolas nas laterais, porque eles jogam com o lateral mais alto, principalmente o Chilwell, pelo lado esquerdo. Quando você tem quatro atrás e o lateral sai, abre espaço no corredor. Com três atrás, mesmo com o lateral saindo você tem uma estrutura melhor para defender o espaço, com dois jogadores à frente da linha defensiva. A questão tática passa por várias opções e soluções, dependendo do momento.

Com Guardiola, o City quebrou recorde e já foi campeão de diversas formas. Em qual time você teve mais prazer de atuar? Na temporada 2017/18, por ter sido o primeiro ano [de conquistas], com a gana de dar certo, era algo novo para nós, o posicionamento tático, as opções ofensivas, a forma como encontrávamos os espaços. Nessa temporada já jogamos com três defensores, principalmente antes da lesão do Mendy, com ele tendo muita liberdade para atacar. Depois da lesão, tivemos de mudar a configuração, com a qualidade do Delph contribuindo muito para o time. Pelo contexto geral, por ter sido o campeonato em que ganhamos cem pontos pela primeira vez na história da Premier League, com 106 gols, batendo o recorde de vitórias seguidas, vitórias em casa e fora. Pelo contexto geral, foi o time que mais me deu prazer de jogar. Sem dúvida, a idade ajudou, eu estava fininho e voando [risos]. Podia jogar três jogos na semana sem problema algum, sem dor, sem nada. Agora já complica [risos].

Seu contrato está no fim. Já definiu o seu futuro? Uma certeza eu tenho: eu ainda não vou me aposentar. Depois da final vamos sentar, conversar e definir para o futuro. Ainda não vou pendurar as chuteiras, porque tenho lenha para queimar [risos].

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