Estádio de jogo do Brasil é sala de aula para atletas do Colo-Colo

No Monumental, reforços passam pela 'arellanización', um aprendizado sobre a história do clube

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São Paulo

Acostumada a enfrentar o Chile no Estádio Nacional de Santiago, a seleção brasileira visitará os chilenos em um palco diferente na noite desta quinta-feira (2), em jogo válido pela sétima rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo.

Casa do Colo-Colo (CHI), o estádio Monumental David Arellano, também localizado na capital do país andino, teve sua construção iniciada ainda na década de 1950, mas a conclusão tardia só aconteceu em 1989, dois anos antes da maior glória da história do clube: o título da Copa Libertadores.

Porém, apesar da finalização relativamente recente, dizer que ali se respira a história não é uma afirmação descabida. Isso porque o estádio serve como sala de aula para todos aqueles que chegam ao Colo-Colo, de técnicos do futebol profissional a atletas dos esportes amadores, que passam por um processo de aprendizado dos principais episódios da trajetória colocolina.

O curso intensivo de Colo-Colo recebe o nome de "arellanización", uma referência a David Arellano, que dá nome ao estádio. Fundador da instituição e primeiro grande ídolo, Arellano era o capitão da equipe em uma excursão dos chilenos pela Espanha em 1927 que marcaria para sempre a trajetória do clube e do futebol no país.

Em um duelo contra o Real Unión de Valladolid no dia 2 de maio daquele ano, ele sofreu um golpe acidental forte e precisou deixar o campo. No hotel onde hospedava-se a delegação, os médicos descobriram que Arellano tinha uma inflamação grave no peritônio (revestimento da perede interior do abdômen e dos órgãos abdominais) que inviabilizava a cirurgia.

No dia seguinte, 3 de maio, o jogador não resistiu e morreu na Espanha, aos 25 anos. Em uma espécie de luto eterno pelo ídolo, o Colo-Colo utiliza uma tarja preta acima de seu escudo –até a década de 1970, a tarja era colocada na manga da camisa.

São histórias como a de David Arellano que os educadores da Área de Patrimônio contam durante a "arellanización", em um trajeto que passa por murais grafitados e setores do Estádio Monumental, sempre com explicações sobre pontos importantes dos 96 anos de Colo-Colo.

"É uma forma que temos de compartilhar a história do clube. Uma história de luta, superação, solidariedade, ligando-a a aspectos sociais, políticos e de valores que têm a ver com o público que participa dessa experiência. É diferente contar para o time de futsal, aos reforços da equipe principal de futebol ou a um grupo de mulheres sócias", diz Pavel Piña, diretor da Área de Patrimônio do clube, à Folha.

O processo impacta profissionais formados em casa que não tinham o conhecimento da história colocolina e até mesmo jogadores e técnicos que vêm de fora, alguns já consagrados.

Educador do Colo-Colo realiza a "arellanización" com atletas da equipe feminina no Estádio Monumental
Educador do Colo-Colo realiza a "arellanización" com atletas da equipe feminina no Estádio Monumental - Agradecimento CSD Colo-Colo

Agustín Orion, goleiro argentino com passagem vitoriosa pelo Boca Juniors (ARG), realizou a "arellanización" quando chegou ao clube em 2017 e disse que nunca havia vivido experiência similar em qualquer outra equipe. Orion terminou tornando-se sócio do Colo-Colo.

Revelado no clube, o volante Esteban Pavez fez sua estreia pelo time chileno em 2009, mas só realizou o curso em 2017, quando regressou ao futebol chileno. "É uma atividade nova. Gostei muito e, como torcedor, sinto ainda mais carinho pelo Colo-Colo", afirmou.

Entre tantos destaques do passeio, o mural dos grandes ídolos tem lugar especial. É ali que se encontra a figura de Carlos Caszely, um dos maiores jogadores chilenos de todos os tempos.

Homem de esquerda, Caszely sofreu perseguição por parte da ditadura militar de Augusto Pinochet. Às vésperas da Copa do Mundo de 1974, Pinochet convidou a delegação chilena para se despedir dos atletas. O ditador foi cumprimentando um por um, até que se aproximou de Caszely, que se recusou a apertar a mão do general.

O episódio de resistência não passa em branco pelos educadores e seus alunos.

"Quando vamos à arquibancada Arica, falamos sobre Don Carlos, como ele se posicionou contra a ditadura em tempos nos quais era muito perigoso enfrentar a ditadura de Pinochet. Com o passeio que fizemos junto ao atual treinador, Gustavo Quinteros, reforçamos o significado social e político que o Colo-Colo teve para o país", completa Pavel Piña.

Ao pisar no gramado do Estádio Monumental nesta quinta-feira, a seleção de Tite estará em um palco não apenas histórico para o Colo-Colo e o futebol chileno mas onde também é ensinada e aprendida a história.

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