Descrição de chapéu skate

Futuro do skate brasileiro, Karolzinha herdou paixão que salvou vida do pai

Skatista de 16 anos faz parte da seleção brasileira e trabalha para estar nas Olimpíadas de 2024

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Josué Seixas
Maceió

O pai de Karolzinha disse a ela que a vida no skate é feita de quedas. E não se cai somente na hora da manobra, mas antes de viajar para as competições, quando falta dinheiro, ou mesmo antes de ela nascer, quando ele próprio desviou das brigas, das drogas e das más influências sobre uma prancha com rodinhas.

Para Bob, o pai, o skate sempre foi salvação e jamais deveria ser marginalizado. Assim moldou a filha, hoje com 16 anos, para se tornar uma das esperanças de medalha do Brasil em Paris-2024, já que foi campeã brasileira de skate street feminino em 2019 e faz parte da seleção brasileira da modalidade. Para sair de Maceió, no entanto, o caminho é longo e envolve muito esforço, tanto da família quanto da atleta.

A carreira e o sucesso não foram pensados previamente. Bob andava por diversão com os amigos e o filho mais velho quando Carla Karolina dos Santos Silva lhe pediu um skate. Ele relutou e deu um básico, daqueles só para brincar, e ela o quebrou em duas semanas. Já tentava manobras aos sete anos.

A skatista alagoana Karolzinha, 16, faz uma manobra no pátio da escola em que treina com o pai
A skatista alagoana Karolzinha, 16, faz uma manobra no pátio da escola em que treina com o pai - Jonathan Lins-07.ago.2021/Folhapress

“Quando você anda de skate, sabe quem é a pessoa que está ali só para se divertir e a que está querendo competições. A Karol tinha esse perfil já naquela época. Nós andávamos durante 1 hora, 15 quilômetros, para chegar numa pista decente aqui da cidade”, conta Bob, 38, à Folha.

As coisas nunca foram fáceis, muito menos para ele. Na infância e adolescência, chegou a usar drogas e a traficar. Numa festa, aos 15 anos, se viu encurralado no meio de uma troca de tiros.

“Nenhum dos meus amigos dessa época está vivo hoje. Éramos crianças, mas já havia aquilo de grupinho de bairro criando rivalidade, e eu, sem entender direito e sem nunca ter pegado numa arma, estava no meio de uma confusão. Levei um tiro e quase não sobrevivi. A partir dali, tentei sair dessa vida”, conta.

Antes do período hospitalizado, Bob só tinha visto um skate uma vez na vida, quando um parente passou o fim de semana na casa dele. Trocaram manobras, houve interesse, mas foi só.

Ao sair e arrumar um emprego como servente de pedreiro, ele viu um amigo manobrando na rua, o que lhe despertou de vez a paixão. Bob pegou todo o primeiro salário e comprou o próprio skate, o primeiro, aquele que lhe tiraria definitivamente das amizades ruins e do meio que lhe deixara marcado para sempre.

“Só que a rua cobra. Os caras não te deixam sair fácil. Eu comecei a andar de skate, fui me afastando, mas os amigos antigos me encontravam e me roubavam na rua. Até rolou uma vez que roubaram a minha casa, invasão mesmo, mas eu saí. O skate é família, parceria. Essa visão marginalizada da sociedade esquece de histórias como a minha.”

Avance 23 anos desse momento da vida de Bob e o encontre tentando dar condições à filha de se tornar uma atleta. Como a modalidade deles é o street, que simula as ruas, ele se fez desenhista, construtor e, sem perceber, virou inspiração.

“Tive que aprender a construir os obstáculos. Comprava os materiais, fazia uma parte, pagava por outra, e à noite íamos à uma praça próxima de casa para fixar tudo. Tinha que ser à noite para que os vizinhos não reclamassem e para que a polícia não visse”, conta, aos risos.

Na praça, por outro lado, também havia tráfico e uso de drogas. Para se proteger das abordagens da polícia, as pessoas tentavam se misturar com os skatistas e até tomavam o objeto momentaneamente para fingir que faziam parte do movimento. Não fazia diferença. Todo mundo na parede, revista policial e fim de festa.

“E eu não tinha noção nenhuma disso”, lembra Karol. “Eu era muito nova e só pensava em acertar as manobras, em andar com o meu pai. Sei que tivemos que passar por muita coisa para eu chegar até aqui”.

Sem competições em Maceió, Karol passou por vários locais de treinamento. No começo, pela praça, depois uma igreja e agora a escola em que ela própria estuda. O pátio é a área de treinamento e os obstáculos construídos pelo pai, parte do cenário. Eles têm a chave e treinam à noite nos dias de semana, enquanto aos sábados e domingos tem skate de manhã, de tarde e de noite.

“Ganhar é uma questão de prática”, ela tatuou na pele um dia antes de receber a reportagem da Folha.

“Eu não tinha ranking, posição, nada. No skate, se você tem pontuação, entra em fases mais avançadas dos torneios. Eu tive que começar da primeira prova e aí precisava ganhar as baterias até que cheguei à final. Venci 50 skatistas naqueles dois dias”, diz ela.

A skatista agora se divide entre Maceió, São Paulo e qualquer lugar em que possa mandar suas manobras. Se tiver uma pista boa, com obstáculos legais, Karolzinha estará lá, nem que seja para conversar um pouco. É a comunidade que a impulsiona e lhe dá 40 mil seguidores só no Instagram.

“Quando as redes sociais ganharam força, eu comecei a gravar os vídeos dela e a postar. A gente faz isso até hoje porque chama atenção, como aquele vídeo da Fadinha postado pelo Tony Hawk. Vivemos um esporte que não adianta só ter talento”, analisa Bob.

Ele próprio mandou vídeos para diversas marcas e pessoas até conseguir patrocínios para a filha. Ela ganha materiais de skate, ajuda de custos em viagens, mas ainda é difícil. É preciso escolher entre pagar uma conta de casa ou a taxa de uma competição para ela.

Bob é dono de uma loja de skate há oito anos. Segundo ele, a renda mensal é de R$ 2.000.

“Ela já ficou fora de algumas coisas porque não tinha como levantar a grana. Já fiz vaquinha para ela, já pedi ajuda, a família chegou junto… Mas nem sempre dá. No Brasil, o centro do skate é São Paulo, mas o skatista brasileiro precisa ir para os Estados Unidos e ganhar competições lá para conseguir se manter. É na gringa que as coisas funcionam.”

Alagoana é da seleção brasileira de base de skate, foi campeã juvenil do Brasil e é uma das apostas para as Olimpíadas de Paris
Alagoana é da seleção brasileira de base de skate, foi campeã juvenil do Brasil e é uma das apostas para as Olimpíadas de Paris - Jonathan Lins-07.ago.2021/Folhapress

Bob brinca que não faz manobras como antigamente, mas a base está ali. É só subir no skate, jogar para cima e cair, se for preciso, ou comemorar se a manobra dá certo. As Olimpíadas de Tóquio, com as três medalhas de prata para o Brasil, podem desmarginalizar de vez o esporte.

“Mas veja só… As pessoas vão comprar os skates, o que é ótimo, só que não tem onde andar. Entende o ponto? É uma peça que vai ficar em casa, sem uso, até que seja investido em praças, iluminação, competições”, explica.

Ou até que um pai gaste três vezes mais do que ganha para construir os obstáculos para a filha. Bob chama-se Carlos Henrique dos Santos, na verdade, mas ganhou o apelido por conta do desenho animado “O Fantástico Mundo de Bob”.

É sonhador, monta estratégias e idealiza. E aí vem Karolzinha, se esforçando para tornar real.

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